Meditação e filosofia

Caros e caras,

Participei, no último dia 27/11, do V Colóquio de Filosofia Japonesa, ocorrida no Centro Winnicott, em São Paulo. O tema do colóquio este ano era “A prática medidativa e o conhecimento de si e do mundo em Dôgen e no budismo”. Meu texto se intitulou “Da meditação em filosofia: algumas considerações a partir de Dôgen e Descartes”.

Eihei Dôgen foi um monge budista do século XIII, que levou da China para o Japão uma corrente do budismo mais dedicada à “meditação sentada”, daí o nome zazen, como às vezes é referida essa prática, embora o nome da escola seja Soto Zen.

Participo do Grupo de Filosofia Japonesa desde janeiro de 2009 e é a primeira vez que apresento um texto para uma atividade do grupo. O interesse pelo pensamento oriental é anterior, obviamente, mas foi somente a partir do momento em que tomei contato com o Grupo, em novembro de 2008, que resolvi dedicar a esse interesse um pouco mais de tempo. Não faz parte da pesquisa que desenvolvo institucionalmente na área de Filosofia, mas não tenho motivos para ocultá-la tampouco.

O Grupo é formado por professores e pesquisadores consagrados na área de Filosofia, como O. Giacoia Jr. (UNICAMP), Marcos L. Müller (UNICAMP), Zeliko Loparic (PUC/SP – UNICAMP), José Carlos Michelazzo (PUC-SP) e Antônio Florentino Neto (colaborador, UNICAMP).

O texto deve ser publicado, então não posso colocá-lo aqui, mas posso disponibilizá-lo para os que tiverem interesse, em caráter privado, bastando me escrever.

O que posso dizer é que a leitura de Dôgen me transformou e, aliado a outras práticas meditativas e esportivas (artes marciais), além do exercício profissional da filosofia, tem enriquecido bastante minha vida e, assim espero, dos que me cercam, família, amigos e alunos, não necessariamente nessa ordem.

De nada adianta ter contato com esses textos, e praticar meditação, se isto não contribuir para, de alguma maneira, tornar a sua vida e a do seu entorno melhores. A Filosofia no Ocidente perdeu, em muitos momentos, o contato com sua fonte original, a sabedoria. Assim como há professores positivistas do Direito que declaram que o Direito não tem nada a ver com Justiça, da mesma forma, muitos há que, em Filosofia, poderiam dizer que Filosofia não tem nada a ver com Sabedoria. Acho que em grande parte da História da Filosofia no Ocidente tem sido assim. Por isso mesmo, o contato com o pensamento oriental pode, quem sabe, ajudar-nos a recuperar um pouco dessa sabedoria perdida.

Inegavelmente, há muita mistificação, e idealização, da “sabedoria” oriental, mas, pelo menos, para o pensamento oriental, de maneira geral, esta nunca deixou de ser um objetivo a se alcançar, diferentemente do que ocorreu em boa parte das doutrinas do Ocidente. O conhecimento mútuo, nesse sentido, só pode ser benéfico, contribuindo para harmonizar, quem sabe, ying e yang.

Om shanti.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

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Intolerância e discriminação

Caros e caras,

Assistimos agora a uma onda crescente de violência contra homossexuais ou aumentou a visibilidade desse tipo de crime? Difícil responder, não sei se as estatísticas são tão precisas, mas o país tem sido apontado como campeão da violência homofóbica. Já era, e continua sendo, o campeão da desigualdade, o que não deixa de ter relação. Poderíamos pensar em termos da igualdade complexa, de Michael Walzer, e pensar em esferas de desigualdade: não é só a econômica, como a afetiva, a de status, de amizade e assim por diante. Como diziam os Titãs: “A gente não quer só comida, quer também diversão e arte!”.

Como quer que seja, o problema está na recusa da diferença. À medida que o mundo se torna mais complexo, mais diverso, mais plural, aumenta também a resistência daqueles indivíduos ou comunidades que gostariam de viver num estado (SIC) idealizado, isto é, numa espécie de paraíso (?) no qual as relações seriam tradicionais, com papéis bem definidos: ao homem caberia ganhar o pão com o suor do próprio rosto e à mulher dar à luz com as dores do parto. Isto em grande medida ainda é assim, mas a Bíblia é utilizada para, a partir de uma moral que data de séculos antes de Cristo, extrair preceitos para nortear a conduta na contemporaneidade.

A intolerância surge quando se passa da metáfora à realidade, sem mediações. Em outros termos, o mito do paraíso edênico, que não é exclusivo de nossa cultura, mas universal, como mostrou Joseph Campbell, funciona bem como alegoria, mas quando se quer tomá-lo por um fato, surge a intolerância, pois se quererá impor essa imagem a todos, se preciso, pela força. Digamos de uma vez: a família mononuclear, composta de pai, mãe e filhos, com papéis e identidades bem definidas, é um mito. O que se quer dizer com isso, é que ela não constitui o único modelo, ou o único aceitável, o único capaz de conduzir à felicidade, ao bem-estar, à convivência harmônica entre os seres humanos.

O conceito de tolerância assumiu, historicamente, diversas formas, que podem se reduzir a estas quatro principais:

a)      tolerância governamental: é quando o poder estabelecido tolera a coexistência de crenças e práticas religiosas divergentes, desde que não ponham em xeque a estabilidade e a legitimidade do Estado;

b)     tolerância passiva: é a tolerância que os homens do século XVIII (Kant, Goethe) qualificavam de odiosa, arrogante, pois é aquela tolerância em que se está convencido da superioridade de sua própria crença, mas em que se aceita que outros tenham ou pratiquem suas próprias crenças;

c)      tolerância ativa: é aquela em que, independentemente de sua própria convicção religiosa ou política, defende-se ativamente o direito de outrem a ter e praticar suas próprias crenças;

d)   tolerância da indiferença: é aquela em que as pessoas pouco se importam com as convicções dos demais, numa espécie de relativismo limítrofe com a apatia.

Defendo que o terceiro conceito de tolerância, acima arrolado, é o que mais convém à sociedade contemporânea, pós-secular e pós-convencional. O que significam estes dois últimos termos? Trata-se de uma sociedade pós-secular, pois se reconhece que vivemos numa sociedade em que religiosos e não-religiosos têm lugar de existência, e precisam aprender a conviver. Pós-convencional, porque se considera que as regras foram feitas pelo homem, e para o homem, e podem ser modificadas à luz das transformações da sociedade, em todos os setores. O direito é dinâmico, não estático, e leis ou regras obsoletas podem ser postas em questão, e modificadas, se for o caso. É o caso do nosso tratamento em relação aos homossexuais. É preciso reconhecer a diferença para poder conviver com ela. “Viva a diferença!” adquire agora um contorno mais amplo do que quando a frase foi pronunciada, nos anos 60 do século passado.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

Literatura e liberdade de expressão

 

Caros e caras,

Estamos vivendo nova onda de besteiras. É sempre útil relembrar Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), com seu Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País). Está mais do que na hora de reeditar esse livro, ou melhor, ainda, atualizá-lo. Assim como, na época da ditadura, confundia-se Saint-Simon com um comunista perigoso, hoje, sob pretexto de zelar pela educação dos jovens, censura-se a literatura. Acusa-se o criador de Histórias da tia Nastácia de racista. Vejamos.

A literatura deve se impor por sua qualidade: a questão é saber se se trata de de boa ou má literatura. O resto é conversa. É claro que não se vai passar O amante de Lady Chaterley para alunas do segundo ano primário, ou o Decameron, de Bocaccio, para alunos da quinta série. Porém, as crianças não são feitas de açúcar. Corrigir com lápis vermelho não traumatiza ninguém, não é equivalente, no plano psicológico, a mandar ajoelhar no milho ou bater com palmatória, práticas que felizmente estão prescritas e proscritas.

No caso de Monteiro Lobato, alvo recente da ação tutelar do Conselho Federal de Educação, o que se deveria discutir é se Lobato ainda é atual, e se sua literatura resiste ao tempo. Em relação ao primeiro aspecto, parece-me que sua linguagem coloca algumas dificuldades para o leitor atual, a começar pela multiplicidade de nomes de pássaros, frutos e árvores os quais não conhecemos mais, muitos dos quais provavelmente já foram extintos. Para isso, há remédio. Houve uma edição da Brasiliense bastante didática, com notas explicativas, não sei se ainda está no mercado.

Quanto ao segundo aspecto, o literário, creio que ainda é cedo para julgar se ele ficará entre os clássicos de nossa literatura ou se ficará como capítulo das futuras histórias da Literatura brasileira. Tudo indica que ficará, na medida em que ainda é lido. Minha filha leu quase todos os seus livros infantis, primeiro estimulada por mim, na versão citada acima, e depois, em edições comuns, por interesse.

Inegavelmente, há expressões racistas, as quais, porém, exibem preconceitos da época. Deve-se lembrar que a abolição da escravidão era então recente, e o Vale do Paraíba, região de onde se originou o autor do Sítio do Pica-Pau Amarelo, foi uma das regiões mais ferozes no tratamento ao escravo (perdendo para Campinas, para onde eram enviados os escravos renitentes). Veja-se, a respeito, Café & Negro, de Ernani Silva Bruno (São Paulo, Atalanta), obra editada por mim.

Creio que esses textos servem como documentos de época, que nos ajudam a entender a mentalidade de uma época não muito distante no passado, e cujos efeitos ainda perduram. Ao lê-lo, damo-nos conta de nossos preconceitos, entendemos os preconceitos das gerações mais antigas. Retirar esse instrumento de compreensão da mentalidade de um povo é um crime que se comete em relação às novas gerações. Começamos por censurar Lobato e em breve estaremos censurando Lima Barreto, Machado de Assis, porque cometeram crimes que não o eram quando escreveram, quando viveram. Trata-se de uma estupidez!

Abraço a todos,

Luiz Paulo Rouanet

Pausa para meditação

Caros e caras,

Este tem sido um mês atípico para mim. Tenho tido muitos compromissos, interessantes, mas muito divergentes: falei sobre democracia deliberativa em Porto Alegre, vou particpar de um Encontro Nietzsche em São Paulo, no dia 18 e encerrarei o mês participando de um Colóquio de Filosofia Japonesa, falando sobre meditação! Então, o que o momento pede é silêncio, recolhimento.

Resolvi escrever estas poucas palavras, pois este blog tem tido um bom número de acessos, considerando que foi criado há pouco tempo. Ele registrava 244 acessos hoje de manhã, e foi criado há cerca de dois meses! Agradeço aos que me têm lido, pois isto tem sido fonte importante de estímulo. Por isso mesmo, apesar de ser um blog, e portanto de eu poder escrever o que quiser, não quero simplesmente pôr qualquer coisa na tela.

Estou preparando o meu texto sobre meditação. Falarei sobre esse tema a partir de Descartes e Dogen, um autor japonês do século XIII, que fundou a escola do budismo Zazen no Japão. É o mesmo da monja Cohen, sua representante no Brasil. Tenho, portanto, grande responsabilidade.

Há um outro tema que estou preparando também, relacionado ao último post, “Educação e economia”, mas preciso fazer algumas leituras antes.

Então, em meio a aulas, correções de trabalhos e otras cositas más, peço ao leitor fiel um pouquinho de paciência.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

Economia e educação

Caros e caras,

O tema é vasto demais para poder sequer arranhá-lo aqui, mas gostaria de chamar a atenção para algo que tem surgido nas conversas em toda parte: a educação. O tema obviamente não é novo. Para começar, Mário de Andrade dizia que “A saúde e as saúvas, os males do Brasil são”. Eu acrescentaria, e a educação. Explico.

De nada adianta crescimento econômico sem que haja um investimento na educação básica de qualidade. Para fazer isso, é preciso investir no professorado. Trata-se de um círculo vicioso. Como a profissão é, em geral, mal remunerada, tem-se dificuldade em atrair bons profissionais para trabalhar na educação básica, e os que o fazem, acabam desmotivados. Já temos um grande déficit nessa área, e temos problema de falta de mão de obra qualificada em muitas profissões, como a engenharia, o direito, a filosofia etc. Só na área de Filosofia, estima-se um déficit de 130 mil professores. Como a disciplina se tornou obrigatória, ela é ministrada por professores de outras áreas.

Não são só os professores que são desmotivados, os alunos também, em grande parte devido à desorganização da rede escolar pública, com falta de professores, instalações deterioradas, falta de material e rigidez ou inadaptação do currículo. Não digo que não haja pessoas bem intencionadas e competentes por trás das secretarias de educação, do próprio Ministério da Educação, que reputo um dos melhores do atual governo. O problema é estrutural. Não falo das falhas do ENEM, que considero circunstanciais. O problema é tão evidente que ele certamente será sanado, e o instrumento, mantido.

Se o Brasil quiser aproveitar o bom momento econômico que está vivendo, deve investir com todas as suas forças na área de educação. Esta é a base para o crescimento sustentável. Para tanto, deve melhorar a remuneração dos professores do Ensino Fundamental e Médio, e a partir daí, exigir qualidade, premiar a produtividade, e assim por diante.

Uma experiência interessante que começou a ser posta em prática é a Iniciação Científica para o Ensino Médio. É uma iniciativa do CNPq, que está concedendo bolsas a Universidades que possuam colégios associados, de aplicação. É o caso da PUC-Campinas, que foi contemplada com 20 dessas bolsas, voltadas para alunos do Colégio Pio XII. Obviamente, o caráter dessa iniciação deve ser adaptado à idade e conhecimentos de um(a) aluno(a) de 15 ou 16 anos, mas o objetivo é atraí-lo para a pesquisa, desde cedo.

Não tenho refletido o suficiente sobre o tema, mas voltarei a abordá-lo em outros textos. Contribuições são bem-vindas.

 Abs. a todos.

 Luiz Paulo Rouanet

Calmaria pós-eleitoral

Caros e caras,

Agora inicia uma época de relativa calmaria política. É a época da transição. A Presidente eleita Dilma Rousseff, após seu merecido descanso, irá coordenar a montagem da equipe do governo (com ajuda do Michel Temer, após a pressão do PMDB). Espero que siga as diretrizes anunciadas, de nomear segundo critérios políticos E técnicos. Somente assim se escapa, por um lado, ao compadrio, e por outro, à tecnocracia. Vimos exemplos principalmente do primeiro tipo no Governo de Lula, ressalvando a competência da área econômica, com Guido Mantega e Henrique Meirelles à frente.

Quanto à oposição, esta vai ter que se reestruturar. Fala-se em refundação do PSDB. Está precisando mesmo. Mas não vejo espaço para outro partido de oposição. Quanto ao PV, sua agenda é bastante específica e, como disse anteriormente, suprapartidária. Na verdade, é um assunto que interessa a todos, do qual todos dependem, e é importante que exista um partido que trate principalmente dessa questão. Marina falou muitas vezes, em sua campanha, de sustentabilidade, de uma perspectiva mais ampla para o Brasil, que não fique presa ao imediatismo do desenvolvimento econômico, sem pensar em suas consequências ambientais.

A posição tanto do PT quanto do PSDB a esse respeito tem sido muito imediata: quase como se dissessem: “Depois de mim, o dilúvio!”. Esta é uma visão míope. O desenvolvimento atual, dependendo da maneira como for feito, cobrará um preço altíssimo no futuro, das atuais e das próximas gerações, não só em termos econômicos, mas em termos sociais, em termos de vidas humanas e não humanas.

A Presidente eleita realmente deveria fazer um esforço de incorporar pontos do Programa do PV, e se possível, integrar novamente Marina Silva, ainda que seja como uma oposição civilizada.

Quanto a mim, estou querendo realmente entrar para o PV. Há um Diretório ao lado de casa, e vou aparecer por lá. Além de tudo, é prático. Não custa tentar.

Abs. a todos e sejam bem-vindos ao novo blog.

Luiz Paulo Rouanet