Literatura e liberdade de expressão

 

Caros e caras,

Estamos vivendo nova onda de besteiras. É sempre útil relembrar Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), com seu Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País). Está mais do que na hora de reeditar esse livro, ou melhor, ainda, atualizá-lo. Assim como, na época da ditadura, confundia-se Saint-Simon com um comunista perigoso, hoje, sob pretexto de zelar pela educação dos jovens, censura-se a literatura. Acusa-se o criador de Histórias da tia Nastácia de racista. Vejamos.

A literatura deve se impor por sua qualidade: a questão é saber se se trata de de boa ou má literatura. O resto é conversa. É claro que não se vai passar O amante de Lady Chaterley para alunas do segundo ano primário, ou o Decameron, de Bocaccio, para alunos da quinta série. Porém, as crianças não são feitas de açúcar. Corrigir com lápis vermelho não traumatiza ninguém, não é equivalente, no plano psicológico, a mandar ajoelhar no milho ou bater com palmatória, práticas que felizmente estão prescritas e proscritas.

No caso de Monteiro Lobato, alvo recente da ação tutelar do Conselho Federal de Educação, o que se deveria discutir é se Lobato ainda é atual, e se sua literatura resiste ao tempo. Em relação ao primeiro aspecto, parece-me que sua linguagem coloca algumas dificuldades para o leitor atual, a começar pela multiplicidade de nomes de pássaros, frutos e árvores os quais não conhecemos mais, muitos dos quais provavelmente já foram extintos. Para isso, há remédio. Houve uma edição da Brasiliense bastante didática, com notas explicativas, não sei se ainda está no mercado.

Quanto ao segundo aspecto, o literário, creio que ainda é cedo para julgar se ele ficará entre os clássicos de nossa literatura ou se ficará como capítulo das futuras histórias da Literatura brasileira. Tudo indica que ficará, na medida em que ainda é lido. Minha filha leu quase todos os seus livros infantis, primeiro estimulada por mim, na versão citada acima, e depois, em edições comuns, por interesse.

Inegavelmente, há expressões racistas, as quais, porém, exibem preconceitos da época. Deve-se lembrar que a abolição da escravidão era então recente, e o Vale do Paraíba, região de onde se originou o autor do Sítio do Pica-Pau Amarelo, foi uma das regiões mais ferozes no tratamento ao escravo (perdendo para Campinas, para onde eram enviados os escravos renitentes). Veja-se, a respeito, Café & Negro, de Ernani Silva Bruno (São Paulo, Atalanta), obra editada por mim.

Creio que esses textos servem como documentos de época, que nos ajudam a entender a mentalidade de uma época não muito distante no passado, e cujos efeitos ainda perduram. Ao lê-lo, damo-nos conta de nossos preconceitos, entendemos os preconceitos das gerações mais antigas. Retirar esse instrumento de compreensão da mentalidade de um povo é um crime que se comete em relação às novas gerações. Começamos por censurar Lobato e em breve estaremos censurando Lima Barreto, Machado de Assis, porque cometeram crimes que não o eram quando escreveram, quando viveram. Trata-se de uma estupidez!

Abraço a todos,

Luiz Paulo Rouanet

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Um comentário em “Literatura e liberdade de expressão

  1. Priscilla disse:

    Concordo com tudo, professor.
    Acho que qualquer forma de censura é perigosa.
    Ademais é sempre mais fácil explicar, ensinar que preconceito é ridículo, do que privar as crianças de terem contato com o livro.
    um abraço
    Priscilla

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