Intolerância e discriminação

Caros e caras,

Assistimos agora a uma onda crescente de violência contra homossexuais ou aumentou a visibilidade desse tipo de crime? Difícil responder, não sei se as estatísticas são tão precisas, mas o país tem sido apontado como campeão da violência homofóbica. Já era, e continua sendo, o campeão da desigualdade, o que não deixa de ter relação. Poderíamos pensar em termos da igualdade complexa, de Michael Walzer, e pensar em esferas de desigualdade: não é só a econômica, como a afetiva, a de status, de amizade e assim por diante. Como diziam os Titãs: “A gente não quer só comida, quer também diversão e arte!”.

Como quer que seja, o problema está na recusa da diferença. À medida que o mundo se torna mais complexo, mais diverso, mais plural, aumenta também a resistência daqueles indivíduos ou comunidades que gostariam de viver num estado (SIC) idealizado, isto é, numa espécie de paraíso (?) no qual as relações seriam tradicionais, com papéis bem definidos: ao homem caberia ganhar o pão com o suor do próprio rosto e à mulher dar à luz com as dores do parto. Isto em grande medida ainda é assim, mas a Bíblia é utilizada para, a partir de uma moral que data de séculos antes de Cristo, extrair preceitos para nortear a conduta na contemporaneidade.

A intolerância surge quando se passa da metáfora à realidade, sem mediações. Em outros termos, o mito do paraíso edênico, que não é exclusivo de nossa cultura, mas universal, como mostrou Joseph Campbell, funciona bem como alegoria, mas quando se quer tomá-lo por um fato, surge a intolerância, pois se quererá impor essa imagem a todos, se preciso, pela força. Digamos de uma vez: a família mononuclear, composta de pai, mãe e filhos, com papéis e identidades bem definidas, é um mito. O que se quer dizer com isso, é que ela não constitui o único modelo, ou o único aceitável, o único capaz de conduzir à felicidade, ao bem-estar, à convivência harmônica entre os seres humanos.

O conceito de tolerância assumiu, historicamente, diversas formas, que podem se reduzir a estas quatro principais:

a)      tolerância governamental: é quando o poder estabelecido tolera a coexistência de crenças e práticas religiosas divergentes, desde que não ponham em xeque a estabilidade e a legitimidade do Estado;

b)     tolerância passiva: é a tolerância que os homens do século XVIII (Kant, Goethe) qualificavam de odiosa, arrogante, pois é aquela tolerância em que se está convencido da superioridade de sua própria crença, mas em que se aceita que outros tenham ou pratiquem suas próprias crenças;

c)      tolerância ativa: é aquela em que, independentemente de sua própria convicção religiosa ou política, defende-se ativamente o direito de outrem a ter e praticar suas próprias crenças;

d)   tolerância da indiferença: é aquela em que as pessoas pouco se importam com as convicções dos demais, numa espécie de relativismo limítrofe com a apatia.

Defendo que o terceiro conceito de tolerância, acima arrolado, é o que mais convém à sociedade contemporânea, pós-secular e pós-convencional. O que significam estes dois últimos termos? Trata-se de uma sociedade pós-secular, pois se reconhece que vivemos numa sociedade em que religiosos e não-religiosos têm lugar de existência, e precisam aprender a conviver. Pós-convencional, porque se considera que as regras foram feitas pelo homem, e para o homem, e podem ser modificadas à luz das transformações da sociedade, em todos os setores. O direito é dinâmico, não estático, e leis ou regras obsoletas podem ser postas em questão, e modificadas, se for o caso. É o caso do nosso tratamento em relação aos homossexuais. É preciso reconhecer a diferença para poder conviver com ela. “Viva a diferença!” adquire agora um contorno mais amplo do que quando a frase foi pronunciada, nos anos 60 do século passado.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

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