Público e privado

 

 Caros e caras,

Dizia o Barão de Itararé: “O problema do Brasil é que os ricos pensam que a coisa pública é privada”… Eu acrescentaria: não só os ricos. Parece que um dos grandes problemas do Brasil, além da saúva e da saúde, é justamente essa falta de distinção entre o que é meu, em caráter privado, e o que é nosso, é coletivo. Ou melhor: o que é meu, este é bem definido, agora, o que é de todos, é nosso… Falta uma dimensão, a do coletivo, da coisa pública (res publica).

Esta falta de distinção fica mais evidente entre os políticos, que estão na vitrine da mídia, do Congresso, mas não podemos esquecer que, queiramos ou não, eles nos representam. Tiririca foi eleito com mais de um milhão de votos, e arrastou com ele muita gente. Não dá para separar, agora, e dizer, “eles”, os políticos, roubam, enquanto nós, o povo, somos honestos e trabalhadores. Nós nos deixamos engabelar, participamos do jogo, e agora, não podemos reclamar. Podemos, sim, exigir reformas políticas, mas isto, é outra história, e depende exatamente daqueles políticos que elegemos.

No plano privado, prevalece, ainda, a lei de Gerson, levar vantagem em tudo. Isso não quer dizer que não haja cidadãos honestos. Talvez mesmo, a grande maioria seja honesta. O problema é que, enquanto nação, enquanto público eleitor, somos ainda muito desorganizados, dispersos, talvez ocupados demais com nossa sobrevivência, com a necessidade de pagar impostos, ou mesmo propinas, para realmente nos preocuparmos com o que faz o político que nos representa.

Qual o caminho para resolver essa situação? Para começar, uma reforma política, com a instalação de um sistema misto, distrital e proporcional. Certa vez, conversei com o jurista Fábio Konder Comparato, e ele se posicionou contra os sistemas mistos: deveria ser uma coisa ou outra, proporcional ou distrital. Não concordo. A política é complexa, nossa sociedade é complexa e o país grande. É preciso combinar ambos os sistemas. Qual o benefício disso? Através do voto distrital, teríamos mais controle sobre nossos candidatos, poderíamos acompanhar com mais facilidade o que fazem com nosso voto. Através do sistema proporcional, os Estados seriam representados, mas, diferentemente do que ocorre hoje, levando em conta a população dos Estados, até um limite máximo pré-fixado. Assim, por exemplo, o grande número de representantes que teria o Estado de São Paulo, por esse sistema, seria compensado, em nível nacional, pela quantidade de Estados da Federação.

Defendo, também, a multiplicação de instâncias de deliberação. O voto não pode ser o único mecanismo de escolha democrática. Ele tem que se o resultado de uma discussão, como se viu em alguns referendos recentes. A meu ver, não importa tanto o resultado, mas o processo de discussão, que legitima o resultado. É claro, vedado resultados que sejam anticonstitucionais, que firam cláusulas pétreas da Constituição. É a isto que se chama Democracia deliberativa.

Quanto à distinção entre privado e público, esta só pode ser ensinada mediante o exemplo, e mediante a educação formal, em que se ensine crianças e adolescentes a defenderem suas posições de maneira argumentativa. Somente assim teremos uma nação à altura do que queremos, e podemos ser, sem ufanismo, mas com muito trabalho duro pela frente.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

Coração tranquilo

Caros e caras,

A melhor coisa é começar o ano com uma perspectiva inteiramente diferente. É como limpar o histórico das navegações, limpar o disco rígido e reformatar. Ah, importante: instalar um bom anti-vírus!

Metáforas computacionais à parte, é como estou me sentindo, livre, desimpedido. Não estou mais na PUC-Campinas, por motivos diversos. De certo modo, houve um acordo: eu estava cheio da instituição e ela, provavelmente, cheia de mim. Depois de dez anos, é um saldo razoável.

Isto me abre novas perspectivas. Para começar, tenho perspectivas de um pós-doc no segundo semestre, na França. Já estou com a carta de aceite e falta ir atrás de financiamento. Lá, trabalharei na área de Filosofia Política.

Será um ano sabático. Há poucos dias, antes de meu desligamento, eu pensava justamente isso, como seria bom tirar um ano sabático. Cuidado com os seus desejos, pois eles se realizam! Tenho agora essa oportunidade diante de mim. Será um período de estudo, reflexão e abertura de mente. Acredito que vou crescer muito com essa saída.

Fico aberto a concursos e outras oportunidades, mas sem precipitação.

Completei 22 anos de trabalho como professor universitário. Hora de fazer um balanço, respirar fundo e seguir em frente. Ainda tenho outros tantos pela frente.

Agradeço a todas as manifestações de apoio que recebi, de alunos, ex-alunos, colegas e amigos em geral. Saio de cara limpa, consciência tranquila. Afinal, “Tudo é uma questão de manter, a mente quieta, a espinha ereta, e o coração tranquilo”!

http://www.youtube.com/watch?v=_8R8uLzt_QQ&feature=related

Abs. a todos e um feliz Natal!

Luiz Paulo Rouanet

Sobre o direito de mentir

Immanuel Kant escreveu um texto intitulado “Sobre o pretenso direito de mentir dos governantes”. Não vou examiná-lo aqui, mas gostaria de partir dessa frase para analisar, por alto, a polêmica a respeito do WikiLeaks, isto é, sobre a divulgação de informações por parte do site montado pelo australiano Julian Assange.

Em primeiro lugar, é óbvio, para mim, que os governantes têm o direito de mentir. Aliás, todos têm o direito de mentir. Porém, têm que arcar com as consequências, caso esta mentira seja descoberta, ou prejudique alguém. Isto está mais próximo do Princípio da responsabilidade, de Hans Jonas, que, aliás, desenvolve a moral kantiana. Se, por um lado, não é possível universalizar a máxima “Todos devem mentir”, porque isto inviabilizaria as relações sociais, o mesmo pode ser dito a respeito da máxima oposta, “Todos devem dizer a verdade”. Pode-se imaginar, por exemplo, as confusões e conflitos provocados em um casal em que um dos cônjuges, ou ambos, dissessem sempre a verdade: “Amor, eu tou gorda?” – “Está”… No mínimo, aumentaria drasticamente o número de divórcios. Num plano mais sério, dizer a verdade pode, em muitos casos, ser uma crueldade, ou mesmo um crime. Por exemplo, se eu comunicar a alguém que está doente em fase terminal, essa informação pode acelerar o processo de morte, devido à depressão. Não preciso continuar os exemplos, todos podem imaginar o caos que seria se todos dissessem a verdade. Parece-me o suficiente que eu acredite numa pessoa por princípio, até ter indícios de que ela está me mentindo. Isto já seria suficiente, a meu ver, para assegurar uma convivência minimamente harmônica em sociedade.

Voltando ao caso do WikiLeaks, o que Assange se propôs, no início, foi divulgar informações de ações lesivas de grandes corporações ou governos. Por exemplo, o fato de um determinado laboratório utilizar cobaias humanas na África (como retratado no livro O Jardineiro fiel, de John Le Carré e no filme homônimo, dirigido por Fernando Meirelles. Trata-se, nesse caso, de um serviço prestado ao público. Agora, ele divulga informações de diplomatas, membros de governos etc. Aí, já não estou bem certo da utilidade pública e conveniência de tal divulgação. Por exemplo, Hillary Clinton me parece estar fazendo um bom trabalho, melhor do que sua antecessora no cargo, Condoleezza Rice. Qual a utilidade de se saber o que ela pensa sobre a Presidente da Argentina, ou sobre Chavez? Enquanto não se refletir em ações ilegais, cobertas ou encobertas, não vejo a relevância e a pertinência dessa divulgação. O problema é que, agora que a porteira se abriu, não é possível mais fechá-la.

O critério de relevância jornalística deveria ser aplicado agora, mas isso depende do bom senso, ou da falta dele, por parte de quem divulga. Não é o mesmo que censura. É claro que interesses políticos e econômicos poderosos podem influir para que uma determinada notícia seja veiculada ou não. Aliás, esta falta de critérios tem afetado em geral toda a Internet, incluindo mídia eletrônica, pois se coloca lado a lado notícia sobre a fracassada Convenção do Clima, em Cancún, no México, com a “notícia” sobre a queda de uma modelo da passarela. É claro que se a modelo fosse a Gisele Bündchen, aí sim seria notícia… O que estou dizendo é que, com o tempo, a novidade do site de Assange tende a se dissipar, a não ser que ele realmente estabeleça critérios mais claros do que é e o que não é notícia, do que pode, ou deve, ser divulgado. Já surgiu uma dissidência, por parte de um ex-colaborador de Assange, que está montando um site rival, nos mesmos moldes.

Então, para resumir, creio que o WikiLeaks é uma novidade passageira. O fato mais relevante, a respeito, é a perseguição montada pelos governos e corporações que se sentiram atingidas, ou temem sê-lo, pelas atividades de Assange. Ao fazê-lo, porém, talvez lhe dêem mais publicidade do que merece. Não que não tenham méritos sua ousadia e sua postura anticonvencional, que levou a repensar a questão do controle das informações na Internet. Quanto às acusações por motivos sexuais, isto cabe à justiça examinar, mas tudo leva a crer que se trata de uma acusação oportunística. É preciso aguardar.

Uma última coisa: vivemos numa época de imediatismo, e de narcisismo, devido à grande facilidade de comunicação proporcionada pela Internet e pelos meios de comunicação contemporâneos. Não se trata de um julgamento moral, mas de uma constatação. É um fenômeno que merece atenção. Como sempre, o problema talvez esteja no exagero.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

Escravidão contemporânea

Caros e caras,

Nesta época de festas, de final de ano, fica cada vez mais patente uma mutação contemporânea da escravidão: o trabalho no comércio. As lojas ficam abertas em domingos e feriados, para atender à sanha consumista da população, com horários bastante “flexíveis” (sempre para mais). Pode-se perguntar: o que vem antes, o desejo de consumir compulsivamente ou o desejo de vender intempestivamente? É um sistema que se retroalimenta.

Acho que um bom começo seria limitar severamente o trabalho em domingos e feriados, restringindo-o aos serviços essenciais. Se houver um supermercado ou loja aberto é evidente que as pessoas irão deixar para fazer suas compras nesses horários. Se souberem que o comércio não abrirá, se programarão para fazê-lo nos horários regulares.

Outro dia fui ao supermercado em um domingo, já que estava aberto. Filas e filas de clientes com pequenas compras de última hora, ou simplesmente supérfluas, e funcionários exaustos. Perguntei à moça da caixa registradora até que horas eles trabalhariam, e ela não soube responder, e teve que perguntar para dois outros funcionários. O terceiro respondeu: até as 22 horas (eram 16 horas). Os funcionários nem sequer sabiam até que horas iriam trabalhar em um domingo!

Quem trabalha em Shoppings também sabe desse regime. Trabalha-se seis dias por semana, e com apenas um domingo livre ao mês!

É preciso limitar rigidamente e multar severamente os estabelecimentos que não se adequarem. Haverá um protesto inicial, inclusive dos comerciários, que alegarão estar perdendo dinheiro, ou postos de trabalho, mas trata-se de uma questão de dignidade humana! Esse consumo é excessivo e inflacionário, não faz bem à economia, é artificial. Com o tempo, essas medidas exerceriam um poder educativo sobre a população, que aprenderia a distinguir consumo de consumismo. Como disse Marcuse, o problema do capitalismo não é que aquilo que ele apresenta como atrativo não seja atrativo: muitas vezes o é; o problema é o acesso desigual aos bens e serviços.

Podemos tornar nossa sociedade mais justa estabelecendo condições de trabalho menos aviltantes. De nada adianta termos liberdade ou igualdade formais, se na prática esses direitos não são exercidos. Há um termo cunhado pelo sociólogo Lúcio Kowarick que expressa bem a situação dos comerciários: “expropriação urbana”. Há tempos, o economista Roberto Macedo também falou a respeito da situação dos estagiários, alcunhando-os de “escraviários”. Faça um teste: digite “escraviários” no Google. Acho que o mesmo termo poderia se aplicar, em muitos casos, ao trabalhador do comércio.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

Conto de som e fúria

Caros e caras,

Fui assistir, na quinta-feira (01/12), ao filme Você vai conhecer o homem dos teus sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, EUA/Espanha, 2010). Sou suspeito pra falar dos filmes de Woody Allen, pois gosto até dos que são medianos, o que não é o caso aqui. Este é um filme sutil. Não consegui definir se é uma comédia ou um drama, pois há elementos de ambos. Acho que poderia chamá-lo de “comédia de costumes”, no sentido francês de comédie, ou seja, teatro.

A inspiração Shakespereana é explícita desde o começo: trata-se de um “um conto de som e fúria, narrado por um tolo, e significando nada!” (“a tale told by an idiot, full of sound and fury. signifying nothing”, Macbeth, Ato 5, Cena 5). No melhor estilo do: ouça quem quiser. Posso dizer que não me arrependi. Allen é um filósofo da alma humana, dos conflitos morais limítrofes de crimes. Este é o tema central de sua obra: a fraqueza moral do ser humano, confrontado com escolhas às vezes banais, e com consequências trágicas, ou tragicômicas. É este ridículo da condição humana que o diretor consegue explorar como ninguém. Pode-se relacionar este filme a outros do autor como: Hannah e suas irmãs (1986), Crimes e pecados (1989), Match Point (2005), O sonho de Cassandra (2007), para citar apenas alguns.

Neste último filme (sem contar o que está gravando com participação de Carla Bruni) conta com a atuação de Anthony Hopkins, Antonio Bandeiras e Naomi Watts, entre outros, Não gosto de contar o enredo dos filmes, assim como não gosto, em geral, de ler resenhas a respeito de filmes que ainda não vi, que geralmente contam muito mais do que deveriam. Então, não vou entrar nos detalhes da trama. Basta dizer que a história envolve um homem em crise de idade (Hopkins), um escritor em crise criativa e conjugal e uma mãe com tendências místicas. O filme é admiravelmente conduzido, e é, sim, um conto cinematográfico.

Pode não ser para o gosto de todos, então, não vou dizer: assista que v. vai gostar. Porém, se já é fã de Woody Allen, então posso dizer seguramente que não vai se decepcionar. É tão bom quanto o anterior, Tudo pode dar certo, apenas com um tom mais amargo.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet