Escravidão contemporânea

Caros e caras,

Nesta época de festas, de final de ano, fica cada vez mais patente uma mutação contemporânea da escravidão: o trabalho no comércio. As lojas ficam abertas em domingos e feriados, para atender à sanha consumista da população, com horários bastante “flexíveis” (sempre para mais). Pode-se perguntar: o que vem antes, o desejo de consumir compulsivamente ou o desejo de vender intempestivamente? É um sistema que se retroalimenta.

Acho que um bom começo seria limitar severamente o trabalho em domingos e feriados, restringindo-o aos serviços essenciais. Se houver um supermercado ou loja aberto é evidente que as pessoas irão deixar para fazer suas compras nesses horários. Se souberem que o comércio não abrirá, se programarão para fazê-lo nos horários regulares.

Outro dia fui ao supermercado em um domingo, já que estava aberto. Filas e filas de clientes com pequenas compras de última hora, ou simplesmente supérfluas, e funcionários exaustos. Perguntei à moça da caixa registradora até que horas eles trabalhariam, e ela não soube responder, e teve que perguntar para dois outros funcionários. O terceiro respondeu: até as 22 horas (eram 16 horas). Os funcionários nem sequer sabiam até que horas iriam trabalhar em um domingo!

Quem trabalha em Shoppings também sabe desse regime. Trabalha-se seis dias por semana, e com apenas um domingo livre ao mês!

É preciso limitar rigidamente e multar severamente os estabelecimentos que não se adequarem. Haverá um protesto inicial, inclusive dos comerciários, que alegarão estar perdendo dinheiro, ou postos de trabalho, mas trata-se de uma questão de dignidade humana! Esse consumo é excessivo e inflacionário, não faz bem à economia, é artificial. Com o tempo, essas medidas exerceriam um poder educativo sobre a população, que aprenderia a distinguir consumo de consumismo. Como disse Marcuse, o problema do capitalismo não é que aquilo que ele apresenta como atrativo não seja atrativo: muitas vezes o é; o problema é o acesso desigual aos bens e serviços.

Podemos tornar nossa sociedade mais justa estabelecendo condições de trabalho menos aviltantes. De nada adianta termos liberdade ou igualdade formais, se na prática esses direitos não são exercidos. Há um termo cunhado pelo sociólogo Lúcio Kowarick que expressa bem a situação dos comerciários: “expropriação urbana”. Há tempos, o economista Roberto Macedo também falou a respeito da situação dos estagiários, alcunhando-os de “escraviários”. Faça um teste: digite “escraviários” no Google. Acho que o mesmo termo poderia se aplicar, em muitos casos, ao trabalhador do comércio.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

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Esta entrada foi postada em Geral.

2 comentários em “Escravidão contemporânea

  1. Raphael Ferreira disse:

    Se Keynes nascesse nos dias de hoje não teria dúvidas, classificaria o homem como bens de capital; uma vez que aderiramos definitivamente aos meios produditivos como se fossemos coisas. Nesses surtos de compras de fim de ano, mais vale contrar trabalhadores temporários e pagar as horas extras, e até indenização por ultrapassa-las, do que fechar as portas. Nesse sentido a legislação trabalhista é muito branda.

  2. Accro disse:

    Um post bem “afrancesado” Luiz… Muito bom!! Não terá choque cultural algum… rss..

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