Sobre o direito de mentir

Immanuel Kant escreveu um texto intitulado “Sobre o pretenso direito de mentir dos governantes”. Não vou examiná-lo aqui, mas gostaria de partir dessa frase para analisar, por alto, a polêmica a respeito do WikiLeaks, isto é, sobre a divulgação de informações por parte do site montado pelo australiano Julian Assange.

Em primeiro lugar, é óbvio, para mim, que os governantes têm o direito de mentir. Aliás, todos têm o direito de mentir. Porém, têm que arcar com as consequências, caso esta mentira seja descoberta, ou prejudique alguém. Isto está mais próximo do Princípio da responsabilidade, de Hans Jonas, que, aliás, desenvolve a moral kantiana. Se, por um lado, não é possível universalizar a máxima “Todos devem mentir”, porque isto inviabilizaria as relações sociais, o mesmo pode ser dito a respeito da máxima oposta, “Todos devem dizer a verdade”. Pode-se imaginar, por exemplo, as confusões e conflitos provocados em um casal em que um dos cônjuges, ou ambos, dissessem sempre a verdade: “Amor, eu tou gorda?” – “Está”… No mínimo, aumentaria drasticamente o número de divórcios. Num plano mais sério, dizer a verdade pode, em muitos casos, ser uma crueldade, ou mesmo um crime. Por exemplo, se eu comunicar a alguém que está doente em fase terminal, essa informação pode acelerar o processo de morte, devido à depressão. Não preciso continuar os exemplos, todos podem imaginar o caos que seria se todos dissessem a verdade. Parece-me o suficiente que eu acredite numa pessoa por princípio, até ter indícios de que ela está me mentindo. Isto já seria suficiente, a meu ver, para assegurar uma convivência minimamente harmônica em sociedade.

Voltando ao caso do WikiLeaks, o que Assange se propôs, no início, foi divulgar informações de ações lesivas de grandes corporações ou governos. Por exemplo, o fato de um determinado laboratório utilizar cobaias humanas na África (como retratado no livro O Jardineiro fiel, de John Le Carré e no filme homônimo, dirigido por Fernando Meirelles. Trata-se, nesse caso, de um serviço prestado ao público. Agora, ele divulga informações de diplomatas, membros de governos etc. Aí, já não estou bem certo da utilidade pública e conveniência de tal divulgação. Por exemplo, Hillary Clinton me parece estar fazendo um bom trabalho, melhor do que sua antecessora no cargo, Condoleezza Rice. Qual a utilidade de se saber o que ela pensa sobre a Presidente da Argentina, ou sobre Chavez? Enquanto não se refletir em ações ilegais, cobertas ou encobertas, não vejo a relevância e a pertinência dessa divulgação. O problema é que, agora que a porteira se abriu, não é possível mais fechá-la.

O critério de relevância jornalística deveria ser aplicado agora, mas isso depende do bom senso, ou da falta dele, por parte de quem divulga. Não é o mesmo que censura. É claro que interesses políticos e econômicos poderosos podem influir para que uma determinada notícia seja veiculada ou não. Aliás, esta falta de critérios tem afetado em geral toda a Internet, incluindo mídia eletrônica, pois se coloca lado a lado notícia sobre a fracassada Convenção do Clima, em Cancún, no México, com a “notícia” sobre a queda de uma modelo da passarela. É claro que se a modelo fosse a Gisele Bündchen, aí sim seria notícia… O que estou dizendo é que, com o tempo, a novidade do site de Assange tende a se dissipar, a não ser que ele realmente estabeleça critérios mais claros do que é e o que não é notícia, do que pode, ou deve, ser divulgado. Já surgiu uma dissidência, por parte de um ex-colaborador de Assange, que está montando um site rival, nos mesmos moldes.

Então, para resumir, creio que o WikiLeaks é uma novidade passageira. O fato mais relevante, a respeito, é a perseguição montada pelos governos e corporações que se sentiram atingidas, ou temem sê-lo, pelas atividades de Assange. Ao fazê-lo, porém, talvez lhe dêem mais publicidade do que merece. Não que não tenham méritos sua ousadia e sua postura anticonvencional, que levou a repensar a questão do controle das informações na Internet. Quanto às acusações por motivos sexuais, isto cabe à justiça examinar, mas tudo leva a crer que se trata de uma acusação oportunística. É preciso aguardar.

Uma última coisa: vivemos numa época de imediatismo, e de narcisismo, devido à grande facilidade de comunicação proporcionada pela Internet e pelos meios de comunicação contemporâneos. Não se trata de um julgamento moral, mas de uma constatação. É um fenômeno que merece atenção. Como sempre, o problema talvez esteja no exagero.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

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