Os limites do possível

John Rawls (1921-2002) dizia que a “Filosofia política é realisticamente utópica quando estende o que normalmente se pensa como os limites do realisticamente possível” (The Law of PeoplesDireito dos povos). Acrescentava também, em outro texto (“Cinquenta anos após Hiroshima”), “É tarefa do estudante de filosofia olhar para as condições permanentes e os interesses reais de uma sociedade democrática justa e boa”. Parto dessas duas frases para pensar, aqui, quais os limites e as tarefas do filósofo político.

Em primeiro lugar, ele não deve se ater ao que está dado, embora deva partir dele. Em outros termos, seu ponto de partida é realista: ele não pode ignorar as condições concretas da sociedade em que vive, e a qual analisa. Porém, ele não pode tomar essa realidade como seu horizonte último, ou único, pois em caso contrário ele se torna cúmplice do real, adepto do status quo, conservador por definição. Isto significa, ainda, que ele não pode, em nenhuma circunstância, abdicar de seu senso crítico. Às vezes, porém, por uma questão de prudência, ele deve saber também que não deve se manifestar em todas as ocasiões, a qualquer momento e a pretexto de qualquer coisa.

Collucio Salutati (1331-1406) foi um humanista que se dedicou à política e manteve, durante anos, um diário político, sem intenção de publicá-lo. Trata-se de exemplo notável de alguém que soube manter-se avesso à sedução da fama, talvez em nome do exercício efetivo do poder. Seu contemporâneo mais famoso, Nicolau Maquiavel (1469-1527), fez a escolha oposta, com as consequências que se sabe. Morreu no ostracismo, mas deixou uma obra que é até hoje referência obrigatória nos cursos de Política.

Eis a escolha: falar e ser politicamente silenciado, ou calar-se e ter uma possibilidade de futuro político? Talvez não haja incompatibilidade entre o falar e o agir político, mas há ocasiões em que o calar é manter a possibilidade do futuro ou, nas palavras de Rawls, “estender os limites do realisticamente possível.

Em segundo lugar, o estudante de filosofia – e não somos todos sempre estudantes? – deve “olhar para as condições permanentes e os interesses reais de uma sociedade democrática justa e boa”. É claro que aí já há uma escolha política, a escolha pela democracia. Até que me provem o contrário, a democracia continua sendo “a pior forma de governo, com exceção de todas as outras” (Churchill). Não concebo outra forma de governo que conviva melhor com a diferença de opiniões, de crenças, com a diversidade étnica e cultural, em uma palavra, com o pluralismo. Aqui, mais uma vez, Rawls vem em meu socorro: devemos aceitar o “fato do pluralismo”, ou seja, o fato de que, cada vez mais, vivemos numa sociedade plural do ponto de vista étnico, cultural, religioso, político etc. Robert Nozick disse certa vez que não conseguia conceber uma sociedade na qual pudessem conviver, por exemplo, Mahatma Gandhi, Elizabeth Taylor e Adolph Hitler. Com exceção de Hitler, que se estivesse vivo deveria estar preso, é perfeitamente possível conceber tal sociedade, e essa sociedade é justamente a sociedade democrática.

É claro, a democracia não é única, não é unívoca, e tampouco está isenta de problemas. É um sistema que necessita de aperfeiçoamento constante, mas este é justamente seu principal valor. Assim, a tarefa do estudante de filosofia, e por conseguinte, do filósofo político, é pensar as condições permanentes para essa sociedade democrática justa e boa. É uma tarefa que não termina nunca, funciona mediante um processo de tentativa e erro (Michael Walzer) e depende, fundamentalmente, do comprometimento de seus cidadãos para sua manutenção e aperfeiçoamento. E, para isso, a crítica é fundamental.

Confesso temer que, por trás do discurso aparente da “liberdade de expressão”, seja dada corda para que os opositores se enforquem, pois, como disse Gilberto Carvalho, no primeiro dia do governo, “Estou dizendo para a oposição: ‘Calma, não se agitem demais. Temos uma carga pesada. Não brinca muito que a gente traz.” (Folha de São Paulo, 03/01/2011).

E então, Salutati ou Maquiavel?

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

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Um comentário em “Os limites do possível

  1. Creio que uma possível resposta rawlsiana seria “Salutati E Maquiavel”: como nos ensina o Kohelet, há tempo para falar e há tempo para ficar calado. Se o “Direito dos Povos” defende uma postura realística utópica em oposição ao realismo maquiaveliano de um Samuel Huntington (“The clash of civilizations”) e a utopias pós-hegelianas como “End of History” de um Francis Fukuyama, Rawls foi um verdadeiro mestre da esquiva (“avoidance”), inclusive no sentido de evitar, como propunha Salutati, o aconselhamento de propostas públicas para governantes e políticos. Mesmo assim, Rawls recebeu uma condecoração oficial do governo democrata americano, a National Humanities Medal…

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