Conhecimento universal ou específico?

Caros e caras, 

Pascal dizia: “Pouco de tudo. Já que não podemos ser universais, sabendo tudo o que se pode saber sobre tudo, é preciso saber um pouco de tudo. Pois é bem melhor saber alguma coisa de tudo do que saber tudo de uma coisa; essa universalidade é a mais bela. Se pudéssemos ter a ambos, ainda melhor, mas se for preciso escolher, deve-se escolher esta última, e o mundo o sabe e o pratica, pois o mundo é com frequência bom juiz.” (Pensamentos, 41 da Edição Pléyade). Será que o mundo não pensa diferente, hoje?

O que se vê, pelo contrário, na maioria das áreas, é a necessidade de especialização. Para ter a ambos os tipos de saber, é preciso investir numa educação fundamental de excelente nível, talvez no padrão que os chineses estão agora desenvolvendo. Isto implica horários de estudo estendidos. A jornada escolar na China vai até as 18 horas. Não parece que seja somente quantitativo esse empenho educacional, embora haja críticas à “falta de criatividade e de imaginação” de que padeceriam os estudantes chineses. Um pouco como alguns virtuoses em matéria de música para quem, ao ver dos “especialistas”, faltaria sensibilidade. É possível, e longe de mim defender o sistema chinês a qualquer custo mas, neste caso, entre um virtuose com carência de imaginação, e um “criativo” ignorante, a balança pende obviamente para o primeiro.

Em algumas universidades brasileiras, tem se adotado um ciclo básico nos primeiros anos do estudante na universidade, antes que ele(a) efetue a escolha por sua área específica de atuação. É o projeto, por exemplo, da UFABC, que pode ser visto em seu site (http://www.ufabc.edu.br/index.php?option=com_content&view=article&id=21&Itemid=74 ).

Particularmente na área de Filosofia, tem ficado cada vez mais claro a necessidade de especialização. Segundo Thomas Kuhn, este é um sinal de amadurecimento de uma área. Isto é bom ou ruim? Podendo ter a ambos, como disse Pascal, é melhor. Porém, tendo que escolher, o que é melhor, o conhecimento universal ou o específico? Hoje em dia, ao que parece, a área dá preferência ao último, contrariamente ao que o “mundo “ preferia, na época de Pascal. O “mundo” é constituído pelas “honnêtes gens” (pessoas de bem), também chamadas de pessoas universais, que seriam as pessoas d’esprit dos salões parisienses no século seguinte, o XVIII. Trata-se de pessoas cultas, porém, não especializadas. São capazes de discutir de problemas de Geometria a questões teológicas. Diz Pascal:

“As pessoas universais não são chamadas nem poetas, nem geômetras, etc.; mas são tudo isso, e juízes de todos esses. Não as adivinhamos. Falarão do que se falava quando entraram. Não se percebe nelas uma qualidade de preferência a outra, à margem da necessidade de utilizá-las (…).” (Pensées, 39)

É quase com pesar que damos preferência, hoje, ao especialista, em detrimento do generalista. É uma necessidade dos tempos. No cenário atual da Filosofia, parece haver cada vez menos espaço para o último. Especializar-se é uma necessidade, é a marca da “ciência”. Ainda que a Filosofia, a rigor, não possa ser considerada uma ciência – na verdade, ela a compreende, a abarca –, no embate com as outras áreas de saber, a fim de poder firmar-se, tem que publicar em revistas qualificadas, especializadas. Quem quiser fazer uma filosofia mais “geral”, pode fazê-lo, mas fora da academia. Helàs!

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

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