O filósofo e o lobo

Terminei de ler O filósofo e o lobo, de Mark Rowlands (Rio de Janeiro: Objetiva, 2010). É interessante para quem gosta de animais e de filosofia, nessa ordem. Não é brilhante, mas também não é pretensioso. É o relato da convivência de um professor de Filosofia com um lobo. Não se trata de uma descrição literária, ou de um diário, mas de reflexões a respeito de sua convivência por cerca de dez anos com Brenin, o lobo. É entremeada por comentários a respeito da diferença entre cães (ou lobos) e primatas, e outras observações mais ou menos filosóficas.

Rowlands é conhecido por seus trabalhos sobre Filosofia da Mente e Ciência Cognitiva. Também escreveu a respeito das relações entre seres humanos e animais, e defende uma espécie de visão contratualista a respeito dos direitos dos animais. Deixou de comer carne vermelha, por uma questão de coerência. É o que acontece comigo também: já estou convencido pelos argumentos dos vegetarianos, mas não faço questão de coerência! Quer dizer, não pretendo ser santo, apenas me esforço para ser um cara melhor. Porém, isto não foi suficiente, até agora, para que eu abolisse completamente de minha dieta a carne vermelha.

O livro consiste numa trip do filósofo que, com 20 e poucos anos, comprou um lobo, e tornou-se ele mesmo quase um lobo, misantropo. Levava o animal às aulas, e, consequentemente, só deu aulas em lugares que aceitaram essa condição. Não é um livro para todos, pois já pede uma simpatia inicial com animais e com a filosofia. Também não vai agradar àqueles que colocam a filosofia em primeiro lugar, pois filosoficamente o livro não tem nada de original, a não ser algumas teorias a respeito da especificidade dos lobos e dos primatas, o cuidado com os animais, a maneira de pensar dos lobos e assim por diante.

Para mim, foi uma boa leitura de férias. Serviu para me desligar um pouco dos acontecimentos do final do ano passado, uma pausa antes de iniciar novo rumo profissional. A comparação entre o filósofo e o lobo serve também como metáfora. O filósofo precisa se isolar, a fim de ter uma visão de conjunto, poder avaliar os seres humanos à distância, sem deixar de ser um deles. Todos nós precisamos, assim acredito, de um tempo de recolhimento, de meditação. O mais próximo que tive disso foi minha estadia na UNESP, de Assis-SP, quando iniciei minha carreira. Passei sete anos felizes lá, lendo, amadurecendo, tendo experiências e preparando minha Dissertação de Mestrado. Em vários momentos da vida, precisamos desse tempo. A essa luz, fica mais fácil compreender a expressão de Hobbes: “O homem é lobo do homem” (no estado de natureza).

Creio que a experiência de Mark Rowlands com o lobo também representou esse tempo de crescimento, embora de maneira mais radical. Hoje, é um professor razoavelmente conhecido, com artigo a seu respeito na Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Mark_Rowlands) , residente em Miami, casado. A experiência de ter um lobo em casa poderia ter terminado de maneira trágica, mas felizmente isto não ocorreu: o mais assustado foi um homem que invadiu seu quintal, na Irlanda, por acaso, e teve a surpresa de ser imobilizado por um lobo e chutado por um filósofo! Era um ex-marido bêbado, que batia na esposa, então, não foi nenhum mal, e também se safou com pequenas escoriações.

Há comentários a respeito da vida comum das pessoas, sua busca por felicidade, suas preocupações domésticas, que revelam certa intolerância do autor, e também sua misantropia, exacerbada por sua convivência com Brenin. Talvez agora, em sua nova fase pessoal, com filho a caminho, seja levado a reconsiderar alguns de seus juízos mais duros.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

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Esta entrada foi postada em Livros.

Um comentário em “O filósofo e o lobo

  1. Clariça disse:

    Gostei!!! me interessei pelo livro… é mais um para minha lista de 2011 …

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