Sem olhos em Gaza

Aproprio-me do título do romance de Aldous Huxley (baseado em poema de John Milton), porque a frase não me sai da cabeça desde que assisti a um vídeo que mostra a prisão, por policiais israelenses, de uma criança árabe de cerca de 11 anos. O vídeo não expõe os motivos, se é que há, da detenção, mas informações dos movimentos de Direitos Humanos dão conta de que há cerca de 700 crianças árabes presas em Israel, sofrendo todo tipo de abusos (http://www.uruknet.info/?p=69438). Não quero tomar esse vídeo como fato absoluto, mas acho que no mínimo ele exige reflexão.

Em primeiro lugar, assistam ao vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=EbWrHXST20M

As imagens são chocantes, não é? A primeira pergunta que me veio à cabeça foi: O que está acontecendo em Israel? Será que a direita está governando o país sozinha? É claro que poderia se rebater pegando um vídeo brasileiro, por exemplo, o clip do Rappa, “Minha alma (a paz que eu não quero)” [ http://www.youtube.com/watch?v=vF1Ad3hrdzY&feature=fvw ] e perguntar a mesma coisa em relação ao Estado brasileiro: somos governados por um governo de Direita? A resposta provavelmente seria não, mas sim que há elementos autoritários incrustados na máquina estatal, ainda mais quando esta é corrupta.

No caso de Israel, é-se tentado a pensar em uma política sistemática de intimidação, mantendo-se a população árabe em constante terror. Faltam dados para afirmar isso. Deve-se, sim, na medida em que Israel é um Estado democrático, cobrar explicações de seus governantes. A pressão da opinião pública deve ser a grande arma para conter os excessos dos governantes.

O vídeo de Israel suscita também outro tipo de reflexão: os valores antigos não se aplicam mais. Não podemos julgar a partir de juízos universais, como: “os comunistas são”, ou “os judeus são”, “os árabes são”, etc. É preciso qualificar. Então, há uma direita em Israel, que hoje tem laços de afinidade com a direita na Europa e em outros lugares. Isto não significa, por outro lado, que os árabes estejam, hoje, automaticamente alinhados com a esquerda. E é preciso fazer cobranças políticas, separadas das aspirações religiosas de ambos os lados.

É preciso, mais do que nunca, separar religião e política, que por muito tempo estiveram associadas, especialmente no mundo árabe. As recentes revoltas no Norte da África e países do Oriente Médio têm mostrado uma população insatisfeita com a dominação teocrática. Em nome da religião, governos autoritários têm se mantido no poder há décadas. Em Israel, o governo tem cedido demais aos grupos ultra-ortodoxos, defensores da tese da Eretz Israel, a “Grande Israel” bíblica. No entanto, os protestos que têm se espalhado por toda a região não parecem ter tanto a ver com religião, mas com aspirações democráticas legítimas.

No caso em questão, é preciso cobrar das autoridades de Israel explicações para a prisão desses meninos, inaceitável para os padrões de qualquer sociedade contemporânea que se pretenda civilizada. E é preciso perguntar: onde está a esquerda de Israel, o que ela está fazendo? Sua voz, se é que existe, não está sendo ouvida. Somente o diálogo, o respeito aos Direitos Humanos, a liberdade de expressão podem criar condições para uma paz futura na região.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

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Revolução digital

Caros e caras,

Sei que é bastante arriscado comentar acontecimentos tão recentes como a Revolução no Egito, mas quero correr esse risco.

Os acontecimentos que resultaram na renúncia do ditador Hosni Mubarak estão diretamente ligados ao uso da Internet. Pela primeira vez se percebe o alcance desta nova ferramenta. Os analistas, entre os quais me incluo, já previam maior democratização posssibilitada pela difusão dos meios de comunicação digitais, mas nenhum deles, me parece, acreditava que seu alcance fosse tão grande. No máximo, serviriam de meio de pressão, entre outros, para democratização do processo decisório e pela difusão de informações. Já se viu mostras do poder da Internet em manifestações no Irã e em outros países, mas agora, quase que de maneira espontânea, ela acabou fazendo a diferença, no caso do Egito. Uma manifestação que começou no dia 25 de janeiro, data convocada por ser o dia da polícia. O protesto, na verdade,  começou em julho de 2010, quando o estudante Khaled Said foi espancado até a morte por policiais. O movimento, originado no meio estudantil, contava com cerca de 700 pessoas no início da manifestação. Dispunha de uma página no Facebook, “Somos todos Khaled Said”, criada pelo diretor de marketing do Google para o Oriente Médio, Wael Ghonim, o qual também foi preso durante os protestos. A manifestação convocada previa adesão de cerca de 5 mil pessoas, e foi feita a partir de pontos isolados na periferia da cidade, entre os bairros mais pobres. Aos poucos foi arrebanhando mais pessoas, incluindo a classe média, chegou a dez mil e depois a 30 mil manifestantes. Muitas dessas pessoas compareceram porque ficaram sabendo do movimento através da Internet.

O movimento democrático que resultou na queda do regime no Egito (e começou antes, na Tunísia, ameaça se alastrar pelo Norte da África e possivelmente outras regiões) parece ser constituído, principalmente, por jovens que respeitam os valores básicos da religião em que foram criados (sobretudo o islamismo), mas que estão abertos às inovações tecnolológicas do mundo não islâmico, e aspiram também à maior liberdade que se usufrui nesses países. As imagens dos protestos mostram, por exemplo, mulheres com túnicas revestidas mescladas com roupas ocidentais, como Jeans e camisetas estampadas. Isto mostra a possibilidade de convivência do islamismo com valores políticos democráticos, e o anseio de sua população mais jovem de se integrar à juventude mundial, com a qual convivem por meio digital. A meu ver, esta juventude não aceitará facilmente a tentativa de implantação de novo regime ditatorial, mesmo que islâmico. Por outro lado, os militares também não permitirão essa guinada fundamentalista. Aliás, os militares no Egito deram mostras, até o momento, de estarem imbuídos de um espírito de modernidade, antenados com as mudanças e suscetíveis às aspirações da população. Seu apoio foi essencial para que a Revolução se desse com um número mínimo de mortes. Também atribuo essa mudança de postura ao maior acesso à informação possibilitado pela Internet. Kant estava certo: a saída é o Esclarecimento. É fundamental que haja liberdade de expressão, segundo a máxima da publicidade: para que seja legítima, uma ação tem que poder ser anunciada publicamente.

Então, para resumir meu raciocínio, o que estamos assistindo no Norte da África é a um movimento de libertação que está mais próximo do espírito de Maio de 1968 do que da Revolução do Irã, de 1979. Trata-se da recusa de cerceamento. E repito que a Internet desempenhou um papel fundamental aí, pois uma vez descoberta a possibilidade de comunicação irrestrita, de se experimentar a liberdade de expressão e de acesso à informação, não é mais possível aceitar o jugo de regimes obscurantistas, que visam ocultar as informações e manipular os cidadãos.

Os últimos regimes ditatoriais do planeta estão se preparando para as mudanças. Alguns, estão se rendendo a elas, como é o caso de Cuba, que está implantando Internet a cabo na ilha. Isto mostra que o regime está disposto a conviver com o risco, mas também com as possibilidades, oferecidas pela Internet. Os sinais de abertura são evidentes, como o fim da censura à blogueira Yohany Sanchez. Já na China as coisas serão mais difíceis. Um dos últimos regimes totalitários do planeta não se mostra disposto a se render sem luta a esse grande movimento de libertação virtual chamado de Internet.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

O filósofo e a formiga

Caros e caras,

Estou há algum tempo sem escrever, buscando renovação. O tempo e a lide diária se encarregam de prover novos materiais, sem que os procuremos.

Correndo no bosque, praticando exercícios, meditando. Alongando minha perna, fico um minuto com a perna estendida, parada; depois, mais um minuto na outra perna. Vejo uma formiga que passa carregando uma folha maior do que ela. Ocorreu-me que ela (provavelmente) não se pergunta se ela pode ou não realizar esse trabalho, se terá forças para tanto. Ela apenas realiza a tarefa que a necessidade do formigueiro, e da rainha, impõe. Similar ao princípio japonês do “esforça-te”, que substitui a noção ocidental de “boa sorte”. Os orientais, também observando a natureza, chegaram a essa conclusão muito antes de nós.

De qualquer modo, esta reflexão, a que chego por experiência própria, e não através de livros, sedimenta-se muito mais e reforça minha vontade. A transposição para o cotidiano é clara: não fique se perguntando se pode fazer alguma coisa: faça! Atue com as consequências. É claro, se encontro um adversário muito mais forte do que eu, tenho todo interesse em evitar a luta, mas tenho que estar preparado caso ele resolva me atacar, em um estado de atenção sem intenção. Isto é fruto da meditação e do exercício contínuo. Os gestos são automatizados, internalizados, não devem ser objeto de atenção consciente.

Uma coisa é falar isso, outra é colocá-lo em prática. Daí a necessidade dos exercícios periódicos. Não precisa ser todos os dias, mas é importante que haja regularidade – para mim, de duas a três vezes por semana, acompanhado de corridas e exercícios físicos.

Alguém poderia perguntar se não se trata de tempo demais dedicado à prática de exercícios físicos. Eu responderia, em primeiro lugar, que não se trata “apenas” de exercícios físicos, pois constitui também treinamento mental. Em segundo lugar, não é tanto tempo assim. Para as corridas, gasto em média 30 minutos, entre sair de casa, correr no bosque e me exercitar, duas ou três vezes por semana. Para o Judô e, eventualmente o Kung Fu, dedico cerca de duas horas por dia, em média duas vezes por semana. Em compensação, a disposição física e mental que isto me proporciona permite que me dedique mais concentradamente ao estudo e ao trabalho.

Não se trata de desprezar a cigarra, como na célebre fábula, pois temos que ter nossos momentos de cigarra, de cantoria, de lazer, mas com certeza não devemos também efetuar a inversão de desprezar o trabalho da formiga, pois ali pode estar o segredo.

Ab. a todos,

Luiz Paulo Rouanet