Revolução digital

Caros e caras,

Sei que é bastante arriscado comentar acontecimentos tão recentes como a Revolução no Egito, mas quero correr esse risco.

Os acontecimentos que resultaram na renúncia do ditador Hosni Mubarak estão diretamente ligados ao uso da Internet. Pela primeira vez se percebe o alcance desta nova ferramenta. Os analistas, entre os quais me incluo, já previam maior democratização posssibilitada pela difusão dos meios de comunicação digitais, mas nenhum deles, me parece, acreditava que seu alcance fosse tão grande. No máximo, serviriam de meio de pressão, entre outros, para democratização do processo decisório e pela difusão de informações. Já se viu mostras do poder da Internet em manifestações no Irã e em outros países, mas agora, quase que de maneira espontânea, ela acabou fazendo a diferença, no caso do Egito. Uma manifestação que começou no dia 25 de janeiro, data convocada por ser o dia da polícia. O protesto, na verdade,  começou em julho de 2010, quando o estudante Khaled Said foi espancado até a morte por policiais. O movimento, originado no meio estudantil, contava com cerca de 700 pessoas no início da manifestação. Dispunha de uma página no Facebook, “Somos todos Khaled Said”, criada pelo diretor de marketing do Google para o Oriente Médio, Wael Ghonim, o qual também foi preso durante os protestos. A manifestação convocada previa adesão de cerca de 5 mil pessoas, e foi feita a partir de pontos isolados na periferia da cidade, entre os bairros mais pobres. Aos poucos foi arrebanhando mais pessoas, incluindo a classe média, chegou a dez mil e depois a 30 mil manifestantes. Muitas dessas pessoas compareceram porque ficaram sabendo do movimento através da Internet.

O movimento democrático que resultou na queda do regime no Egito (e começou antes, na Tunísia, ameaça se alastrar pelo Norte da África e possivelmente outras regiões) parece ser constituído, principalmente, por jovens que respeitam os valores básicos da religião em que foram criados (sobretudo o islamismo), mas que estão abertos às inovações tecnolológicas do mundo não islâmico, e aspiram também à maior liberdade que se usufrui nesses países. As imagens dos protestos mostram, por exemplo, mulheres com túnicas revestidas mescladas com roupas ocidentais, como Jeans e camisetas estampadas. Isto mostra a possibilidade de convivência do islamismo com valores políticos democráticos, e o anseio de sua população mais jovem de se integrar à juventude mundial, com a qual convivem por meio digital. A meu ver, esta juventude não aceitará facilmente a tentativa de implantação de novo regime ditatorial, mesmo que islâmico. Por outro lado, os militares também não permitirão essa guinada fundamentalista. Aliás, os militares no Egito deram mostras, até o momento, de estarem imbuídos de um espírito de modernidade, antenados com as mudanças e suscetíveis às aspirações da população. Seu apoio foi essencial para que a Revolução se desse com um número mínimo de mortes. Também atribuo essa mudança de postura ao maior acesso à informação possibilitado pela Internet. Kant estava certo: a saída é o Esclarecimento. É fundamental que haja liberdade de expressão, segundo a máxima da publicidade: para que seja legítima, uma ação tem que poder ser anunciada publicamente.

Então, para resumir meu raciocínio, o que estamos assistindo no Norte da África é a um movimento de libertação que está mais próximo do espírito de Maio de 1968 do que da Revolução do Irã, de 1979. Trata-se da recusa de cerceamento. E repito que a Internet desempenhou um papel fundamental aí, pois uma vez descoberta a possibilidade de comunicação irrestrita, de se experimentar a liberdade de expressão e de acesso à informação, não é mais possível aceitar o jugo de regimes obscurantistas, que visam ocultar as informações e manipular os cidadãos.

Os últimos regimes ditatoriais do planeta estão se preparando para as mudanças. Alguns, estão se rendendo a elas, como é o caso de Cuba, que está implantando Internet a cabo na ilha. Isto mostra que o regime está disposto a conviver com o risco, mas também com as possibilidades, oferecidas pela Internet. Os sinais de abertura são evidentes, como o fim da censura à blogueira Yohany Sanchez. Já na China as coisas serão mais difíceis. Um dos últimos regimes totalitários do planeta não se mostra disposto a se render sem luta a esse grande movimento de libertação virtual chamado de Internet.

Abs. a todos,

Luiz Paulo Rouanet

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s