Comentando FHC

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso publicou, há poucos dias, artigo em que analisa o papel da oposição no Brasil. O texto saiu na Revista Interesse Nacional, e pode ser acessado no link: http://interessenacional.uol.com.br/artigos-integra.asp?cd_artigo=101 .

Antes de comentá-lo, queria dizer que jamais tive filiação partidária, seja ao PSDB, seja ao PT ou a qualquer outro partido. Participei de campanhas, de boca-de-urna, fui fiscal de votação, mas o fato é que jamais dei esse passo de filiação. Essa independência, que tem o seu preço, também tem suas vantagens, como a possibilidade de emitir opinião sem temor de ferir suscetibilidades político-partidárias.

Indo ao ponto, procurarei analisar o texto de Fernando Henrique em seus aspectos principais.

Na introdução, o autor lembra o contexto da luta pela democracia, em plena ditadura militar, e o papel do MDB nessa luta, como alternativa à luta armada. Ele lembra que o Presidente Médici, que governou o país num dos períodos mais duros da ditadura, com tortura e assassinato de militantes da esquerda, tinha apoio popular, que chegou a 75% em determinado momento. Isto para lembrar que a luta pela democracia, dentro das (limitadas) regras institucionais, parecia alternativa mais viável do que a luta armada, embora não isenta de riscos.

Com o fim da ditadura, o “alvo” da oposição fica menos claro. A oposição, de maneira geral, tem dificuldade de montar uma agenda propositiva. Foi assim na oposição sistemática (para não usar outra palavra) promovida pelo PT durante do Governo do PSDB, e na oposição tíbia do PSDB ao atual Governo do PT.

Por fim, Fernando Henrique assinala a mudança de perfil de Lula para Dilma, de uma postura mais populista, ou carismática, para uma mais técnica e diplomática. Porém, do ponto de vista da oposição, isto pode dificultar sua tarefa, conforme ele admite.

No item “Refazendo caminhos”, aponta algo que considero muito importante, que é a responsabilidade da oposição em não ser apenas “do contra”. O erro cometido pela oposição a seu governo, em suas palavras,

não diminui a importância de fincar a oposição no terreno político e dos valores, para que não se perca no oportunismo nem perca eficácia e sentido, aumentando o desânimo que leva à inação. É preciso, portanto, refazer caminhos, a começar pelo reconhecimento da derrota: uma oposição que perde três disputas presidenciais não pode se acomodar com a falta de autocrítica e insistir em escusas que jogam a responsabilidade pelos fracassos no terreno “do outro”.

Isto para evitar que a população pense, com muita razão, aliás, que todos os políticos são iguais, e que “tudo muda para permanecer o mesmo”, nas palavras do Príncipe de Lampedusa.

Fernando Henrique lamenta a fraqueza de seus correligionários, que não souberam defender com suficiente ímpeto a modernização do país promovida em seu período, cedendo demasiado facilmente aos argumentos estatizantes de seus adversários políticos. A privatização promovida, em sua visão, foi necessária, e não se lembra de seus êxitos.

Os efeitos positivos da quebra dos monopólios, o do petróleo mais que qualquer outro, levando a Petrobras a competir e a atuar como empresa global e não como repartição pública, não foram reivindicados como êxitos do PSDB. O estupendo sucesso da Vale, da Embraer ou das teles e da Rede Ferroviária sucumbiu no murmúrio maledicente de “privatarias” que não existiram.

Porém, não é o momento de se lamentar: “Inês é morta”. Agora, é preciso construir um caminho, formar uma agenda positiva que sirva como alternativa ao que é apresentado pelo governo petista, não como oposição sistemática, mas como projeto próprio que possa ser apresentado ao eleitor, em vez de críticas “ao que está aí”.

Agora vem um ponto em que discordo do que disse o ex-Presidente. Ele afirma que o PSDB deve buscar o seu público, e que este não deve ser “o povão, isto é, (…) as massas carentes e pouco informadas”. É aí que abre o flanco para as críticas de elitismo. Efetivamente, isto é um equívoco. Em primeiro lugar, subestima “o povão”. Não creio que o povo tenha escolhido o presidencialismo porque estava mal-informado, ou que tenha votado em Lula ou tenha dito não à proibição de comercialização de armas, pelo mesmo motivo. As três foram decisões informadas, no sentido de que foram fruto de muitos debates, nas ruas, nos táxis, nas padarias e em toda parte. Já o mesmo não posso dizer das últimas eleições, nas quais foram eleitos deputados pessoas nitidamente sem formação, semi-analfabetas ou com histórico notório de corrupção. A questão, porém, é que não se deve subestimar a capacidade de escolha da população. Além disso, Lula não foi eleito, nos dois mandatos, apenas com voto do “povão”, mas de setores importantes da classe média, setores que o PSDB deveria visar, na opinião de FHC. Este é o grande erro do artigo.

Fernando Henrique aposta na classe média jovem, nos novos yuppies da informática, conectados nas redes sociais de todos os tipos. O que percebo é que esse extrato a que se refere o autor tem acesso a uma quantidade maior de informação do que dispúnhamos, mas já não é afetado, ou não é afeito, às formas tradicionais de comunicação televisiva e impressa: os telejornais e os grandes jornais impressos (que estão desaparecendo ou minguando em quantidade e qualidade). Não sei até que ponto Fernando Henrique avalia bem essa diferença geracional. Ele sabe que o modo de atuação tradicional dos partidos é ineficaz para atingir esses segmentos, mas não sabe de fato como fazer para alcançá-lo. A meu ver, isso pode ser feito utilizando essas ferramentas, mas com conteúdo real, inovador e não convencional.

Fernando Henrique acerta, novamente, quanto aponta a necessidade de “vender o peixe” da oposição e apurar o alvo: por exemplo, insistir no problema do endividamento interno:

Se gritarmos por todos os meios disponíveis que a dívida interna de R$ 1,69 trilhão (mostrando com exemplos ao que isto corresponde) é assustadora, que estamos pagando R$ 50 bilhões por ano para manter reservas elevadas em dólares, que pagamos a dívida (pequena) ao FMI sobre a qual incidiam juros moderados, trocando-a por dívidas em reais com juros enormes, se mostrarmos o quanto custa a cada contribuinte cada vez que o Tesouro transfere ao BNDES dinheiro que o governo não tem e por isso toma emprestado ao mercado pagando juros de 12% ao ano, para serem emprestados pelo BNDES a juros de 6% aos grandes empresários nacionais e estrangeiros, temos discurso para certas camadas da população.

Não acho que o pagamento da dívida externa tenha sido tão desprezível. Do ponto de vista moral, e mesmo político, colocou-nos em outro patamar: deixamos de ser devedores, do ponto de vista externo, para sermos credores, ganhamos visibilidade externa e o brasileiro ganhou em auto-confiança. Mas é preciso, sim, lembrar da dívida interna, que é a utilização dos recursos do país para obter dividendos políticos de curto prazo, com consequências graves para as futuras gerações.

Concordo com ele quando fala que “falta planejamento”. Falta planejamento, por exemplo, para o setor açucareiro, como vemos agora, em uma crise de desabastecimento e elevação dos preços do etanol. É preciso ter, por parte do executivo, políticas de longo prazo, e na forma de subsídios, incentivos, e não punição. Por exemplo, agora o governo fala em sobretaxar o açúcar, para forçar os usineiros a direcionarem sua produção para o etanol. Não seria melhor utilizar o reforço positivo, sem os exageros da política clientelista tão conhecida? O governo atual trata a iniciativa privada como se fosse a grande vilã. Ninguém é inocente, mas a lógica de mercado não funciona com base em boas intenções e, até segunda ordem, vivemos em economia capitalista.

Falta pensamento estratégico por parte da oposição, também. A atuação dos partidos limita-se à esfera eleitoral propriamente dita, e de curto prazo. Atuação político-partidária deve envolver a sociedade, através de palestras, cursos, artigos na imprensa, blogs (de preferência, não financiados pelo dinheiro público) e outros recursos. Os partidos estão a reboque da sociedade, à margem dela, e isto provoca a sensação de que “eles” (os políticos) nada têm a ver conosco, quando, pelo contrário, eles efetivamente nos representem, gostemos ou não da imagem que vemos no espelho.

Luiz Paulo Rouanet