Entre Mazzaropi e Rui Barbosa

As redes sociais ajudam a retomar contatos, ampliar o número de conhecidos, servem como fórum de notícias, de debates, mas… não substituem o contato presencial. Ainda bem.

Hoje tive uma tarde “humana”, presencial. Para começar, visitei um amigo, com quem fiquei de pegar um livro. Tomamos um café, conversamos bastante, e ele me fez ver um ponto de vista diferente a respeito da política no Brasil. Votamos em partidos diferentes nas últimas eleições, embora, assim acredito, nossas posições não sejam opostas. Tínhamos razões diferentes para votar em quem votamos. Mas o teor da conversa foi a corrupção. Ele me mostrou, com dados, com informações, que há muito mais por trás dos escândalos aparentes, que estes, muitas vezes, são utilizados para esconder esquemas maiores, envolvendo número maior de pessoas, instituições e valores também muito maiores. Na verdade, toda a política no Brasil está impregnada de corrupção, toda atividade de gestão lida, em maior ou menor medida, com ela. O fato de um determinado escândalo vir à tona em determinada ocasião, responde, muitas vezes, a interesses de grupos contrários. Há verdade no que ele disse, e isto me fez repensar a opção política que fiz nas últimas eleições. Reafirmo que tive motivos para votar como votei, mas seus argumentos me fizeram olhar o conjunto de outra maneira.

Depois, saindo de sua casa, fui cortar o cabelo, com o “seu” Jair. É um barbeiro popular, que cobra barato e é muito bom no que faz. Fisicamente, nos gestos e na fala, lembra Mazzaropi. Fala “Nós pode”, “Nós foi” e por aí vai, mas sua fala é integrada no contexto de sua vida e de sua comunidade. Já o convidaram por duas vezes para ser vereador em sua cidade, mas recusou, pois preferia manter sua vida honesta, ganhando o dinheiro com seu ofício.

Isto me remeteu, naturalmente, à recente polêmica sobre a cartilha popular, de que tratei em meu texto anterior. Ainda mantenho minhas posições, mas penso que é preciso mais cuidado antes de considerar “certo” ou “errado” determinado modo de falar. É preciso tomar cuidado para não magoar as pessoas a partir daquilo que se considera “certo”, pois é experiência comum que aquilo que hoje consideramos certo podemos, amanhã, rever, e vice-versa. Ainda acho que o professor, enquanto educador, não deve incentivar esse uso, mas é preciso cuidado, sim, para não alimentar o preconceito. Nesse sentido, se não mudei de posição, pelo menos tendo a atenuar minhas críticas anteriores. Ainda acho que, no capítulo 6 da cartilha Por um mundo melhor, a autora, Heloísa Ramos, se expressou mal ao dizer “Pode dizer ‘os livro’? Pode.” Ou a aceitar como modo válido “Nós pega os peixe.”. Isto não quer dizer que eu vá sair utilizando mesóclises e um jargão a la Rui Barbosa, como na célebre anedota em que  Rui surpreende um ladrão de galinhas e em seu linguajar característico, interpela o meliante: “Óóóó, verme que da luz infecta nasceste! Como ousas invadir minha propriedade, propriedade esta de Rui Barbosa, um dos grandes da República, na calada da noite, em pacífica e obtusa hora, a fim de furtar-me um simples galináceo? Óóóó, (…)”. Ao que o rapaz, perplexo, teria respondido: “Seu Rui, afinal das contas, já que a fome é muitona; eu levo ou não levo a galinha?” (http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=5468) . Não sei se a história é verídica, mas revela a inadequação da linguagem utilizada por Rui Barbosa para a ocasião.

A questão que se mantém é: existe ou não uma linguagem de referência? Assim é na Itália, onde o dialeto da Toscana, de Dante, foi considerado o oficial, embora não tenha abolido os demais dialetos. O mesmo se dá na Alemanha, onde praticamente não se fala o Ort Deutsch, a não ser com estrangeiros e em ocasiões formais. Mas é a referência. Só isso. O que não se pode é abrir mão dessa referência. O que não significa que a língua não seja dinâmica, e sujeita às variações linguísticas de seu uso comum.

Sobre o populismo linguístico

Passados alguns dias do início da polêmica em torno da cartilha popular, volto ao assunto, porque ele continua na pauta, e merece ser tratado. Reli passagens da cartilha em questão, a fim de verificar se eu não estava sendo preconceituoso. Após examiná-la, não se pode mais falar de preconceito, pois já tenho uma posição a respeito: trata-se de populismo linguístico. Destaco o seguinte trecho:

Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro?’.”

Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação,

você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente

diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras

estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as

formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante

adequada da língua para cada ocasião. (Heloísa Ramos, Por um mundo melhor, p. 15)

Uma coisa é reconhecer que existem vários usos linguísticos, que o uso culto da língua se aplica mais em situações formais; outra, é aceitar o erro de português como sendo equivalente ao uso “culto” da língua. Isto é populismo linguístico. Ao dizer a meu estudante que ele pode falar “os livro”, renuncio ao meu papel de professor, de educador. Estou dizendo que ele não precisa ir à escola, pois ali ele não vai aprender nada que ele não saiba. Isto vai reforçar sua sensação de perda de tempo.

Outra questão é a das estruturas mentais envolvidas no uso mais elaborado da língua. Ao reduzir, por exemplo, o número de tempos verbais e formas de conjugação, retiro-lhe a possibilidade de efetuar certos raciocínios, como o hipotético. Se desconhecer o modo subjuntivo, não poderá formular, a não ser com certa dificuldade, sentenças condicionais. Por exemplo: “Se eu estudasse mais, teria mais chances de passar no concurso.” Muito comum, também, é dizer: “Você quer que eu faço isso?”, quando o correto seria “Você quer que eu faça isso?”.

Da mesma forma, dizer que “Nós pega o peixe.” é aceitável é um absurdo. Veja o exemplo da cartilha:

Existe outro tipo de concordância:

a que envolve o verbo. Observe seu

funcionamento:

Na norma culta, o verbo concorda,

ao mesmo tempo, em número (singular/

plural) e em pessoa (1.ª/2.ª/3.ª) com o ser envolvido na ação que ele

indica.

O menino pegou o peixe.

menino à singular

pegou à singular

Os meninos pegaram o peixe.

meninos à plural

pegaram à plural

O menino pegou o peixe.

menino à 3.ª pessoa

pegou à 3.ª pessoa

Eu peguei o peixe.

eu à 1.ª pessoa

peguei à 1.ª pessoa

 

Na variedade popular, contudo, é comum a concordância

funcionar de outra forma. Há ocorrências como:

Nós pega o peixe.

nós à 1.ª pessoa, plural

pega à 3.ª pessoa, singular

Os menino pega o peixe.

menino à 3.ª pessoa, ideia de plural (por causa do “os”)

pega à 3.ª pessoa, singular .(op.cit., pp. 15-16)

Isto é anti-pedagógico, é mesmo imoral. Estou dizendo ao aluno que ele não precisa se educar, que não precisa formar as frases de maneira adequada. Para ilustrar essa mentalidade, permito-me contar uma história pessoal. Certa vez, ao entrar em uma sala de professores de uma instituição universitária privada, mostrei aos colegas uma prova que eu havia corrigido, que continha, entre outros, os seguintes erros: “bolça”, “interece” e muitos outros. Eu havia dado a nota três para a avaliação, e corrigido com tinta vermelha. Então, uma professora, da área de Pedagogia, perguntou-me: “Mas você levou em consideração o conteúdo?”. Ao que respondi: “Desculpe, mas bolsa com ç não tem conteúdo.”

Imagine o mesmo aluno, não corrigido, enviando uma carta manifestando “interece” por uma “bolça” de estudos. Qual a chance, de zero a dez, de ele obter a bolsa? Na época, eu diria que zero, hoje, tenho minhas dúvidas. O que me lembra também uma anedota:

A professora entra na sala de aula com as provas corrigidas, e então o Joãozinho, ansioso, levanta a mão e pergunta: “Fessora, fessora, que nota eu tirei?”. Ela responde: “Eu vou dar uma dica: a nota começa com z.” E Joãzinho responde: “Já sei, já sei! Unzoito?!”.

Piadas à parte, esta atitude populista é preocupante. Isto não quer dizer que quem fala errado (e quem não fala? todos erramos) seja menos cidadão, que deva ser discriminado, é óbvio que não. Mas ao tutelarmos esse aluno, futuro cidadão, podemos estar lhe tirando suas chances de efetivamente se elevar socialmente. Isto sim é preconceito elitista, isto sim é manter o status quo da sociedade. Pelo contrário, devemos, enquanto professores, educadores, fornecer-lhe as condições para poder ascender socialmente, exercer ocupações mais complexas, mais bem remuneradas e que lhe forneçam maior realização pessoal e profissional.

Para quem desejar ler o capítulo na íntegra, confira em: http://www.advivo.com.br/sites/default/files/documentos/v6cap1.pdf .

Abraços,

Luiz Paulo Rouanet

Ainda sobre Bin Laden e o 11 de setembro

Tenho dificuldade em acreditar na quantidade de textos e intervenções criticando a ação que resultou na morte de Bin Laden. A meu ver, a ação foi justificada, da forma como o foi, e com o resultado que teve. Não me parece que fosse possível outra ação efetiva, nas circunstâncias. Como disse anteriormente (ver “Jerônimo”, meu post anterior, de 04/05), pedir autorização ao Paquistão significaria praticamente abortar a missão. Não atirar, em ambiente hostil, sem saber exatamente o que se tem pela frente, pode ser sinônimo de suicídio. E por fim, mas não menos importante, é possível entender a motivação de um soldado norte-americano, ao se deparar com o responsável pela morte de mais de três mil de seus compatriotas.

Os que criticam a ação e os meios utilizados, parece-me, minimizam a dimensão do que ocorreu em 11 de setembro de 2011: um ataque covarde a civis, sem aviso prévio, sem declaração de guerra. Alguns chegam a dar certa razão aos terroristas, pois, afinal, “os americanos” foram responsáveis por tantas mortes ao longo da história, nos conflitos em que se envolveram, que “eles” mereciam isso para diminuírem sua prepotência, seu orgulho… É incrível, mas alguns intelectuais brasileiros chegaram a se expressar nesses termos.

Para começar, não existe algo como “os americanos”, como generalização abstrata. É similar a dizer que todos os alemães são ou foram nazistas, ou que “o judeu” é assim ou assado, ou dizer que todo muçulmano é terrorista. O que se pode fazer é identificar este ou aquele governante, este ou aquele comandante militar, este ou aquele político, e assim por diante. John Rawls, em texto emblemático, “Cinquenta anos após Hiroshima”, no qual critica a decisão tomada pelos EUA de lançar a bomba atômica, em 1945, estabelece níveis de responsabilização. Deve-se responsabilizar os governantes e políticos, em primeiro lugar, os comandantes militares e soldados, em segundo lugar, e por último os civis. Por mais que seja difícil, às vezes, separar uma determinada geração de um determinado acontecimento, é preciso fazer um esforço, em nome das gerações futuras, em nome da paz futura, como diria Kant.

Assim, acusar “os americanos” por crimes perpetrados por governantes, políticos ou militares, em certos casos, de gestões anteriores, é equivalente a dar uma surra em um judeu chamado Rosenberg, por causa do Titanic (Por causa do Titanic? Sim, pelo iceberg). Não que haja inocentes. Segundo Albert Camus, ninguém é inocente. Se fizermos um exame mais profundo, concordaremos com isso. Não podemos pressupor vontades santas. Apenas, na medida do possível, procuramos, alguns de nós, quem sabe a maior parte, fazer o melhor possível.

Luiz Melodia, ao chegar atrasado a um show, foi vaiado, e jogaram coisas nele. Ele pediu para não jogarem latinhas de cerveja, porque machucam, e cantou “Cobra coral”, cujos primeiros versos calaram o público: “Eu faço de mim o que eu posso, e de vocês qualquer troço.”. Ou seja, boa parte de nós se esforça para fazer o que é certo. O princípio da tolerância tem que levar em consideração isso, a convicção que tem o agente de que possui a verdade, ou de que está agindo segundo motivações fundamentadas.

Isto não permite que se faça qualquer coisa. Neste ponto, é preciso lembrar a célebre distinção entre moral e direito. A moral diz respeito a decisões de foro íntimo, o direito, a decisões de foro externo. Minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro; em outras palavras, posso fazer o que quiser, desde que minhas ações não afetem a liberdade do outro. Nas palavras de Kant, “O direito é (…) a soma das condições sob as quais a escolha de alguém pode ser unida à escolha de outrem em conformidade com uma lei universal” (Kant, MS A 33, B 33; Metafísica dos Costumes, trad. Edson Bini, Bauru: Edipro, 2003, p. 76). Este é o princípio que rege a vida em sociedade, seja no interior das nações, seja no plano mundial, das relações internacionais.

Então, antes de jogarem latinhas ou coisas piores nos “norte-americanos”, pensem sobre as reais motivações de suas críticas, pensem se não estão sendo parciais, se não está em jogo um antiamericanismo, que é uma falácia, uma vez que não existe algo como “o americano”, que é uma abstração. Em política, é preciso pensar concretamente, caso a caso, em processo de tentativa e erro, e não mediante categorias previamente estabelecidas, juízos de valores pré-determinados. O que se pede, em outras palavras, é fair play.

Luiz Paulo Rouanet

Jerônimo

“Jerônimo” (ou “Geronimo”, em inglês) foi a senha utilizada para informar a Casa Branca de que o alvo, quer dizer, Bin Laden, havia sido apanhado (morto ou vivo). Mesmo nessa hora, os americanos conservam seu humor característico, que aparece nos filmes de ação. O nome da operação, “Ali Babá”. O gosto é discutível, mas não é nisto que quero me centrar.

Como quer que seja, quero discutir aqui as circunstâncias e a maneira pela qual foi morto o terrorista mais procurado do mundo nos últimos dez anos.

Em primeiro lugar, não sejamos ingênuos: é óbvio que os EUA não queriam que Osama sobrevivesse, pois certamente comprometeria muita gente da administração atual e passada, serviços diplomáticos, de inteligência etc., uma vez que sabidamente recebeu apoio e treinamento da CIA no início de sua trajetória, a fim de combater os russos no Afeganistão.

Em segundo lugar, imaginem a seguinte situação: você localiza o provável esconderijo do homem mais procurado do mundo. Depois de meses de preparação decide invadir, sem ter certeza de que ele está realmente lá, sem saber o que vai encontrar em termos de armas e resistência. Nessa situação, v. tem que seguir seus instintos e seu treinamento.

Vamos pensar o contrário, per absurdum: os EUA avisam ao governo do Paquistão, e pede autorização para entrar e capturar Bin Laden. Na hipótese, implausível, de que o governo paquistanês concorde, e não avise ao terrorista, o comando segue para o objetivo, uma fortaleza cercada de arame farpado e com meios de defesa ignorados. Um agente consegue entrar no local, após ter um helicóptero derrubado (falha mecânica? alvejado?) e, após troca de tiros com os guardas, finalmente encontra Bin Laden. Não sabe se conseguirá sair com ele dali vivo, se os terroristas aliados conseguirão resgatá-lo. Nessa situação, o agente deveria ler os direitos de Bin Laden e algemá-lo?

Não sei vs., mas não consigo imaginar essa situação. É um caso bem diferente do sequestro de Eichmann, em Buenos Aires, pelas forças israelenses. Eichmann estava em bem menos evidência, a situação era totalmente diferente.

Então, parece-me intelectualismo, ou ingenuidade, querer cobrar dos EUA que seguissem todos os padrões de conduta no caso em questão. O mundo amanheceu melhor sem Osama. Isto põe fim ao terrorismo, ou às guerras empreendidas pelos EUA no Afeganistão e em outros lugares? Infelizmente não. No caso do Afeganistão, é bom lembrar que a invasão teve um efeito colateral positivo, que foi a derrubada do Talibã, este sim representante do mal, do obscurantismo, do machismo e de todos os ismos que se possa imaginar, e que, infelizmente também, está ameaçando voltar.

Fui contra a invasão do Iraque, e do Afeganistão, antes que isso acontecesse (ver meu Paz, justiça e tolerância no mundo contemporâneo, São Paulo, Loyola, 2010). Porém, uma vez feito isso, Saddam Hussein tinha que sair, o Talibã tinha que cair e Osama Bin Laden tinha que morrer. A morte de Saddam foi mais digna do que a de Bin Laden? Duvido disso.

É claro que a morte de Bin Laden, neste momento, é muito conveniente também para as pretensões eleitorais de Obama, para sua reeleição. Que assim seja! É um governo democrata, que tem procurado avançar no campo social, ambiental, mas tem sido atrapalhado pelos falcões, pelos republicanos. Agora, ganha terreno entre eles.

Osama bin Kadafi

A rapidez das notícias hoje em dia coloca em xeque o poder da mídia tradicional, especialmente a impressa, de dar conta da enxurrada de acontecimentos que, às vezes, nos bombardeiam. Não por acaso, os jornais estão apostando nos novos formatos, nos novos aparelhos de difusão de informação, como i-pads, i-phones, mensagens de Twitter, Facebook etc. Isto não significa que a mídia impressa irá desaparecer, mas seu papel pode ser outro, o de conter análises mais profundas, com tempo de checagem de fontes e correção de erros.

Neste momento, recebemos, no intervalo de menos de 24 horas, duas notícias de impacto: o bombardeio de palácio do ditador líbio Muamar Kadafi, no qual teriam morrido um de seus filhos, Saif al-arab Kadafi e três de seus netos, e o anúncio da morte do terrorista Osama Bin Laden. Estes dois acontecimentos, aparentemente, não têm relação, mas em um olhar mais amplo, podem sinalizar a mudança de direção do vento no combate ao terrorismo internacional.

Kadafi, como se sabe, deu suporte ao terror na década de 1970, sendo relacionado a pelo menos dois atentados a aviões, um deles em Lockerby, na Escócia, além de dar abrigo a terroristas procurados. Depois, quando foi morto um de seus filhos, em bombardeio semelhante por parte dos EUA, mudou o discurso, e passou a ser tolerado e mesmo apoiado pelos países ocidentais. O mesmo se deu com Arafat, antigo terrorista, que também mudou de discurso, mas passou seus últimos anos em um bunker, milionário, acusado de desviar dinheiro dos palestinos. Bin Laden, nessa época, também foi treinado e apoiado pelos EUA, para ajudar a combater os soviéticos.

O mundo mudou, mas a política dos EUA demorou a perceber isso, e a se adaptar a uma era pós-guerra fria.

A opinião mundial mudou mais uma vez. Agora, com a difusão da Internet, fica cada vez mais difícil fazer política de bastidores, pois a transparência é muito maior, e as informações não podem mais ser escondidas, como mostrou o WikiLeaks. Agora, os governos são obrigados, muito mais do que antes, a seguir a opinião pública, pois dependem de seus votos. Nunca a democracia teve um poder tão grande como agora, na era da comunicação à distância, na era da Internet. Esta foi a grande invenção que levou o mundo à transformação: tudo o mais decorre de sua utilização, independente do nome do programa que se utilize, dos aparelhos que se tenha.

Falta a China, que tem mantido seus firewalls e continua a repressão, como mostra a prisão do artista Ai Weiwei, em 03 de abril de 2011. Creio que os hackers poderiam voltar suas baterias para a derrubada do muro virtual que impede os chineses de aderirem a essa Revolução mundial. Mas tem que ser um movimento no estilo de Gandhi, da não-violência, como foi feito na Praça da Paz Celestial, pois o exército chinês é muito forte, e nenhuma nação está interessada em abrir nova frente, especialmente contra uma grande potência. Assim como ninguém teria, por enquanto, cacife para levar autoridades americanas a julgamento por crimes de guerra, também não há poder hoje capaz de impedir o governo chinês, pela força, de mudar sua postura. A luta tem que ser inteligente, utilizando armas virtuais, armas intelectuais, as únicas de que deveria se servir o Esclarecimento.

Quanto a Osama Bin Laden, já vai tarde! Dez anos depois, morre o sujeito que inaugurou o século XXI, como mentor dos atentados às torres gêmeas, em Nova York, que mataram entre 3 e 5 mil pessoas e deram ao terrorismo uma escala mundial jamais vista. Ironicamente, ele pode ter desencadeado o processo que, hoje, leva à derrubada de regimes tirânicos em várias partes do mundo árabe: os talibãs, no Afeganistão, Saddam Hussein, no Iraque, pela força das armas, e Ben Ali, na Tunísia, Hosni Mubarak, pela pressão da população e, próximos na lista, Muamar Kadafi, na Líbia, e Assad, na Síria. É ou não uma revolução?