Jerônimo

“Jerônimo” (ou “Geronimo”, em inglês) foi a senha utilizada para informar a Casa Branca de que o alvo, quer dizer, Bin Laden, havia sido apanhado (morto ou vivo). Mesmo nessa hora, os americanos conservam seu humor característico, que aparece nos filmes de ação. O nome da operação, “Ali Babá”. O gosto é discutível, mas não é nisto que quero me centrar.

Como quer que seja, quero discutir aqui as circunstâncias e a maneira pela qual foi morto o terrorista mais procurado do mundo nos últimos dez anos.

Em primeiro lugar, não sejamos ingênuos: é óbvio que os EUA não queriam que Osama sobrevivesse, pois certamente comprometeria muita gente da administração atual e passada, serviços diplomáticos, de inteligência etc., uma vez que sabidamente recebeu apoio e treinamento da CIA no início de sua trajetória, a fim de combater os russos no Afeganistão.

Em segundo lugar, imaginem a seguinte situação: você localiza o provável esconderijo do homem mais procurado do mundo. Depois de meses de preparação decide invadir, sem ter certeza de que ele está realmente lá, sem saber o que vai encontrar em termos de armas e resistência. Nessa situação, v. tem que seguir seus instintos e seu treinamento.

Vamos pensar o contrário, per absurdum: os EUA avisam ao governo do Paquistão, e pede autorização para entrar e capturar Bin Laden. Na hipótese, implausível, de que o governo paquistanês concorde, e não avise ao terrorista, o comando segue para o objetivo, uma fortaleza cercada de arame farpado e com meios de defesa ignorados. Um agente consegue entrar no local, após ter um helicóptero derrubado (falha mecânica? alvejado?) e, após troca de tiros com os guardas, finalmente encontra Bin Laden. Não sabe se conseguirá sair com ele dali vivo, se os terroristas aliados conseguirão resgatá-lo. Nessa situação, o agente deveria ler os direitos de Bin Laden e algemá-lo?

Não sei vs., mas não consigo imaginar essa situação. É um caso bem diferente do sequestro de Eichmann, em Buenos Aires, pelas forças israelenses. Eichmann estava em bem menos evidência, a situação era totalmente diferente.

Então, parece-me intelectualismo, ou ingenuidade, querer cobrar dos EUA que seguissem todos os padrões de conduta no caso em questão. O mundo amanheceu melhor sem Osama. Isto põe fim ao terrorismo, ou às guerras empreendidas pelos EUA no Afeganistão e em outros lugares? Infelizmente não. No caso do Afeganistão, é bom lembrar que a invasão teve um efeito colateral positivo, que foi a derrubada do Talibã, este sim representante do mal, do obscurantismo, do machismo e de todos os ismos que se possa imaginar, e que, infelizmente também, está ameaçando voltar.

Fui contra a invasão do Iraque, e do Afeganistão, antes que isso acontecesse (ver meu Paz, justiça e tolerância no mundo contemporâneo, São Paulo, Loyola, 2010). Porém, uma vez feito isso, Saddam Hussein tinha que sair, o Talibã tinha que cair e Osama Bin Laden tinha que morrer. A morte de Saddam foi mais digna do que a de Bin Laden? Duvido disso.

É claro que a morte de Bin Laden, neste momento, é muito conveniente também para as pretensões eleitorais de Obama, para sua reeleição. Que assim seja! É um governo democrata, que tem procurado avançar no campo social, ambiental, mas tem sido atrapalhado pelos falcões, pelos republicanos. Agora, ganha terreno entre eles.

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