Ainda sobre Bin Laden e o 11 de setembro

Tenho dificuldade em acreditar na quantidade de textos e intervenções criticando a ação que resultou na morte de Bin Laden. A meu ver, a ação foi justificada, da forma como o foi, e com o resultado que teve. Não me parece que fosse possível outra ação efetiva, nas circunstâncias. Como disse anteriormente (ver “Jerônimo”, meu post anterior, de 04/05), pedir autorização ao Paquistão significaria praticamente abortar a missão. Não atirar, em ambiente hostil, sem saber exatamente o que se tem pela frente, pode ser sinônimo de suicídio. E por fim, mas não menos importante, é possível entender a motivação de um soldado norte-americano, ao se deparar com o responsável pela morte de mais de três mil de seus compatriotas.

Os que criticam a ação e os meios utilizados, parece-me, minimizam a dimensão do que ocorreu em 11 de setembro de 2011: um ataque covarde a civis, sem aviso prévio, sem declaração de guerra. Alguns chegam a dar certa razão aos terroristas, pois, afinal, “os americanos” foram responsáveis por tantas mortes ao longo da história, nos conflitos em que se envolveram, que “eles” mereciam isso para diminuírem sua prepotência, seu orgulho… É incrível, mas alguns intelectuais brasileiros chegaram a se expressar nesses termos.

Para começar, não existe algo como “os americanos”, como generalização abstrata. É similar a dizer que todos os alemães são ou foram nazistas, ou que “o judeu” é assim ou assado, ou dizer que todo muçulmano é terrorista. O que se pode fazer é identificar este ou aquele governante, este ou aquele comandante militar, este ou aquele político, e assim por diante. John Rawls, em texto emblemático, “Cinquenta anos após Hiroshima”, no qual critica a decisão tomada pelos EUA de lançar a bomba atômica, em 1945, estabelece níveis de responsabilização. Deve-se responsabilizar os governantes e políticos, em primeiro lugar, os comandantes militares e soldados, em segundo lugar, e por último os civis. Por mais que seja difícil, às vezes, separar uma determinada geração de um determinado acontecimento, é preciso fazer um esforço, em nome das gerações futuras, em nome da paz futura, como diria Kant.

Assim, acusar “os americanos” por crimes perpetrados por governantes, políticos ou militares, em certos casos, de gestões anteriores, é equivalente a dar uma surra em um judeu chamado Rosenberg, por causa do Titanic (Por causa do Titanic? Sim, pelo iceberg). Não que haja inocentes. Segundo Albert Camus, ninguém é inocente. Se fizermos um exame mais profundo, concordaremos com isso. Não podemos pressupor vontades santas. Apenas, na medida do possível, procuramos, alguns de nós, quem sabe a maior parte, fazer o melhor possível.

Luiz Melodia, ao chegar atrasado a um show, foi vaiado, e jogaram coisas nele. Ele pediu para não jogarem latinhas de cerveja, porque machucam, e cantou “Cobra coral”, cujos primeiros versos calaram o público: “Eu faço de mim o que eu posso, e de vocês qualquer troço.”. Ou seja, boa parte de nós se esforça para fazer o que é certo. O princípio da tolerância tem que levar em consideração isso, a convicção que tem o agente de que possui a verdade, ou de que está agindo segundo motivações fundamentadas.

Isto não permite que se faça qualquer coisa. Neste ponto, é preciso lembrar a célebre distinção entre moral e direito. A moral diz respeito a decisões de foro íntimo, o direito, a decisões de foro externo. Minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro; em outras palavras, posso fazer o que quiser, desde que minhas ações não afetem a liberdade do outro. Nas palavras de Kant, “O direito é (…) a soma das condições sob as quais a escolha de alguém pode ser unida à escolha de outrem em conformidade com uma lei universal” (Kant, MS A 33, B 33; Metafísica dos Costumes, trad. Edson Bini, Bauru: Edipro, 2003, p. 76). Este é o princípio que rege a vida em sociedade, seja no interior das nações, seja no plano mundial, das relações internacionais.

Então, antes de jogarem latinhas ou coisas piores nos “norte-americanos”, pensem sobre as reais motivações de suas críticas, pensem se não estão sendo parciais, se não está em jogo um antiamericanismo, que é uma falácia, uma vez que não existe algo como “o americano”, que é uma abstração. Em política, é preciso pensar concretamente, caso a caso, em processo de tentativa e erro, e não mediante categorias previamente estabelecidas, juízos de valores pré-determinados. O que se pede, em outras palavras, é fair play.

Luiz Paulo Rouanet

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4 comentários em “Ainda sobre Bin Laden e o 11 de setembro

  1. Luiz Paulo, grato pela reflexão que coloca em evidência certos equívocos já arraigados inclusive no meio acadêmico…

  2. Alcino disse:

    Olá Luiz Paulo. Discordo de parte da sua reflexão. Concordo que há um antiamericanismo irracional e infantil e que não é cuidadoso em criticar os USA. Mas discordo em três pontos: (1) Se devemos concordar com Rawls, que pede para resposabilizemos primeiro os governantes e segundo os líderes militares, então creio que se deve criticar a ação particular empreendida porque contraria qualquer protocolo de ataque em guerra, tanto o fuzilamento sem prisão e jugamento, quanto livrar-se do corpo no mar sem devolvê-lo à família, contrariam normas de guerra. Pode ser ingênuo acreditar em normas de guerra (eu acredito) e defendê-las, mas se o ponto é de justificação, isso é o mais relevante.(2) Se o que foi feito foi queima de arquivo e proteção a lideranças políticas norte-americanas, então foi errado, a menos que concordes com queima de arquivo etc… ou (3) a menos que sejas irracionalmente pró-americanista, o que às vezes sinto em seus textos. Você falou mais disto do que propriamente do fuzilamento do terrorista. Mas é bom em certo sentido ter este contraponto no Brasil. Só lembro que não é bom usar a expresão “americanos”. Nós todos do continente somos americamos. Eles são norte-americanos. Nós sul-americanos. Alguns são centro-americanos (é esse o nome?).

  3. luizrouanet disse:

    Alcino,
    Obrigado por comentar. Sim, talvez eu me contente em aprovar, em tomar uma posição, sem justificar. Do ponto de vista legal, não há dúvida, a ação foge de parâmetros aceitáveis do ponto de vista internacional. Do ponto de vista humano, no entanto, é possível compreender a ação e seu resultado, dentro das condições especificadas: ação em território estrangeiro, sem aprovação, e com condições de resistência incertas. Quanto a um “pró-americanismo” meu, talvez v. esteja certo mais uma vez, mas, como disse, é uma questão de tomar partidos. Mas procuro sempre argumentar, e me manter crítico daquilo que não considero certo. No caso, acho que os EUA agiram certo com o responsável pela morte de mais de três mil compatriotas seus, em um ataque covarde, sem aviso e sem declaração prévia de guerra. Em outros casos, acho que os EUA erraram. Quanto a Hiroshima, v. conhece o texto de Rawls, “Cinquenta anos após Hiroshima”. Minha posição é a de Rawls em relação a isso. Mas lembro que, no texto, ele considera o nazismo e os nazistas o “mal absoluto”. Penso o mesmo em relação a Bin Laden e a Al Qaeda, mas não considero que os EUA sejam o mal absoluto, nem no governo Bush, nem muito menos no governo Obama. Abraço.

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