Sobre o populismo linguístico

Passados alguns dias do início da polêmica em torno da cartilha popular, volto ao assunto, porque ele continua na pauta, e merece ser tratado. Reli passagens da cartilha em questão, a fim de verificar se eu não estava sendo preconceituoso. Após examiná-la, não se pode mais falar de preconceito, pois já tenho uma posição a respeito: trata-se de populismo linguístico. Destaco o seguinte trecho:

Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro?’.”

Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação,

você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente

diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras

estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as

formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante

adequada da língua para cada ocasião. (Heloísa Ramos, Por um mundo melhor, p. 15)

Uma coisa é reconhecer que existem vários usos linguísticos, que o uso culto da língua se aplica mais em situações formais; outra, é aceitar o erro de português como sendo equivalente ao uso “culto” da língua. Isto é populismo linguístico. Ao dizer a meu estudante que ele pode falar “os livro”, renuncio ao meu papel de professor, de educador. Estou dizendo que ele não precisa ir à escola, pois ali ele não vai aprender nada que ele não saiba. Isto vai reforçar sua sensação de perda de tempo.

Outra questão é a das estruturas mentais envolvidas no uso mais elaborado da língua. Ao reduzir, por exemplo, o número de tempos verbais e formas de conjugação, retiro-lhe a possibilidade de efetuar certos raciocínios, como o hipotético. Se desconhecer o modo subjuntivo, não poderá formular, a não ser com certa dificuldade, sentenças condicionais. Por exemplo: “Se eu estudasse mais, teria mais chances de passar no concurso.” Muito comum, também, é dizer: “Você quer que eu faço isso?”, quando o correto seria “Você quer que eu faça isso?”.

Da mesma forma, dizer que “Nós pega o peixe.” é aceitável é um absurdo. Veja o exemplo da cartilha:

Existe outro tipo de concordância:

a que envolve o verbo. Observe seu

funcionamento:

Na norma culta, o verbo concorda,

ao mesmo tempo, em número (singular/

plural) e em pessoa (1.ª/2.ª/3.ª) com o ser envolvido na ação que ele

indica.

O menino pegou o peixe.

menino à singular

pegou à singular

Os meninos pegaram o peixe.

meninos à plural

pegaram à plural

O menino pegou o peixe.

menino à 3.ª pessoa

pegou à 3.ª pessoa

Eu peguei o peixe.

eu à 1.ª pessoa

peguei à 1.ª pessoa

 

Na variedade popular, contudo, é comum a concordância

funcionar de outra forma. Há ocorrências como:

Nós pega o peixe.

nós à 1.ª pessoa, plural

pega à 3.ª pessoa, singular

Os menino pega o peixe.

menino à 3.ª pessoa, ideia de plural (por causa do “os”)

pega à 3.ª pessoa, singular .(op.cit., pp. 15-16)

Isto é anti-pedagógico, é mesmo imoral. Estou dizendo ao aluno que ele não precisa se educar, que não precisa formar as frases de maneira adequada. Para ilustrar essa mentalidade, permito-me contar uma história pessoal. Certa vez, ao entrar em uma sala de professores de uma instituição universitária privada, mostrei aos colegas uma prova que eu havia corrigido, que continha, entre outros, os seguintes erros: “bolça”, “interece” e muitos outros. Eu havia dado a nota três para a avaliação, e corrigido com tinta vermelha. Então, uma professora, da área de Pedagogia, perguntou-me: “Mas você levou em consideração o conteúdo?”. Ao que respondi: “Desculpe, mas bolsa com ç não tem conteúdo.”

Imagine o mesmo aluno, não corrigido, enviando uma carta manifestando “interece” por uma “bolça” de estudos. Qual a chance, de zero a dez, de ele obter a bolsa? Na época, eu diria que zero, hoje, tenho minhas dúvidas. O que me lembra também uma anedota:

A professora entra na sala de aula com as provas corrigidas, e então o Joãozinho, ansioso, levanta a mão e pergunta: “Fessora, fessora, que nota eu tirei?”. Ela responde: “Eu vou dar uma dica: a nota começa com z.” E Joãzinho responde: “Já sei, já sei! Unzoito?!”.

Piadas à parte, esta atitude populista é preocupante. Isto não quer dizer que quem fala errado (e quem não fala? todos erramos) seja menos cidadão, que deva ser discriminado, é óbvio que não. Mas ao tutelarmos esse aluno, futuro cidadão, podemos estar lhe tirando suas chances de efetivamente se elevar socialmente. Isto sim é preconceito elitista, isto sim é manter o status quo da sociedade. Pelo contrário, devemos, enquanto professores, educadores, fornecer-lhe as condições para poder ascender socialmente, exercer ocupações mais complexas, mais bem remuneradas e que lhe forneçam maior realização pessoal e profissional.

Para quem desejar ler o capítulo na íntegra, confira em: http://www.advivo.com.br/sites/default/files/documentos/v6cap1.pdf .

Abraços,

Luiz Paulo Rouanet

Anúncios

2 comentários em “Sobre o populismo linguístico

  1. Luiz Paulo, discordo. Só das passagens citadas fica claro que a autora ensina a norma culta e mostra as variações linguísticas realmente existentes, inclusive chamando atenção para o risco de usar a vairação diferente da norma culta! Fiquei preocupado porque você disse que não leu o livro ou mesmo o capítulo. Já vi vários professores da USP que, depois de lerem o livro todo, avaliarem que ele faz o que deve fazer, o que pedem os pcns da lei de educação, que é ensinar a norma culta como uma forma oficial para certos lugares/tempos apropriados (jornalismo, ciência, universidade, escola, diplomacia) e mostrar que outras variantes podem ser usadas em outros ambientes/tempos (literatura, linguagem popular, família).
    Veja por exemplo a entrevista em:

    Isso não anti-pedagógico, muito menos imoral (porque seria imoral? não entendi!)
    Sua avaliação do populismo linguístico parece (parece) ser preconceituosa! Mas eu não li o livro nem o capítulo, nem partes dele, exceto as que vc mencionou.

    • luizrouanet disse:

      Alcino,
      Não considero meu texto preconceituoso, porque me dei ao trabalho de ler, pelo menos, o capítulo 6 da referida obra, “Por um mundo melhor”, da profa. Heloísa Ramos. Então, não se trata de preconceito, mas de uma avaliação após análise, ou seja, um conceito. Mesmo considerando que ela trata da norma culta, o que me incomodou no texto foi colocar num mesmo patamar expressões evdentemente ERRADAS, do ponto de vista da concordância, por exemplo, com a utilização da língua na chamada norma culta. Os exemplos destacados mostram isso: “Pode falar ‘os livro’? Pode.” ISTO considero anti-pedagógico. É algo bem diferente de afirmar que, embora em muitas regiões, a população fale assim, isto não significa que é correto e deve ser recomendado do ponto de vista gramatical. Outro exemplo, este, a meu ver, gritante, é aceitar que “Nós pega o peixe” pode ser utilizado.
      Isto não significa que as pessoas que falam assim, e são muitas, não mererçam nosso respeito, como cidadãs. Elas merecem e não devem, em nenhuma hipótese, ser ridicularizadas. Como mostrei em meu outro texto, “Entre Mazzaropi e Rui Barbosa”, ridículo seria falar como Rui Barbosa numa situação que evidentemente não comportaria esse uso esdrúxulo da língua.
      Por fim, Alcino, eu pergunto, v. é meu amigo ou amigo da onça?Já deixei claro, em outros posts deste blog, em qual candidato votei nas últimas eleições: José Serra. Expliquei meus motivos e não pretendo voltar a isso. Mas minha posição foi informada e justificada. Hoje, não sei se ainda votaria nele, provavelmente não. Ok? Abraço,
      Luiz Paulo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s