Palocci e os poderes ocultos

Não me pronunciei até agora sobre o caso Palocci, porque aguardava o desdobramento dos acontecimentos, e também porque estive envolvido com a polêmica sobre a cartilha do MEC. Agora que saiu a decisão do Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, que manda arquivar as denúncias, é hora de fazê-lo.

É minha opinião que o caso é antes da esfera moral do que a esfera meramente legal. Não há provas, até o momento, de que o enriquecimento súbito de Palocci se deve a ações ilegais. Porém, o seu silêncio, em matéria de tal gravidade, é mais do que suficiente para levantar dúvidas. Não é demais lembrar o ditado: “À mulher de César, não basta ser honesta, é preciso parecer honesta”. E isto, não parece.

Vejamos, um ex-ministro, que entre um mandato e outro, entre um cargo e outro, multiplica o seu patrimônio por mais de vinte vezes, e em seguida, praticamente sem interrupção, deixa a esfera privada e assume um cargo público, no mínimo, levanta suspeitas. Por que não podem ser reveladas a natureza das consultorias realizadas, e as firmas envolvidas? Trata-se de algo que não pode vir a público.

Se Palocci fez a opção pelos negócios privados, então, não deveria assumir cargos públicos, pelo menos não antes de um período de quarentena, o que não houve. Ele saiu da consultoria em dezembro, e assumiu o cargo de Ministro em Janeiro de 2011. O público tem o direito de saber qual a natureza dos negócios do Ministro, que fizeram com que ele aumentasse o patrimônio de maneira tão rápida.

O Procurador-Geral da República mandou arquivar os processos. Então, enquanto pessoa física, e jurídica, a Receita tem o dever de pedir esclarecimentos sobre esses indícios mais do que evidentes de aumento da fortuna. De onde vem o dinheiro?

A decisão do Procurador não deve isentar o cidadão Palocci de prestar esclarecimentos à Receita sobre a fonte de seus dividendos milionários. Em sigilo. Compete à Receita, supondo que ela seja isenta, declarar se os ganhos são compatíveis com exercício de atividade honesta.

De qualquer maneira, as suspeitas levantadas são mais do que suficientes para tornar impraticável a permanência de Palocci no Governo, ainda mais ocupando o cargo de articulador político, pois ele perdeu essa credencial.

Por último, mas não menos importante, é preciso perguntar que forças estão por trás de Palocci, que fazem com que ele permaneça no cargo, apesar de tudo. A Presidente Dilma está revelando fraqueza em todo esse episódio. Se não pode demiti-lo, a fim de preservar o seu governo, é de se perguntar quem está de fato governando o país.

Luiz Paulo Rouanet

Nota: Ontem, 07/6, ao final do dia, foi anunciado que Antônio Palocci pediu demissão do cargo de Ministro da Casa Civil. Para seu lugar, foi nomeada a Senadora Gleisi Hoffmann (PT – PR), pondo fim, aparentemente, à mais grave crise política enfrentada pelo Governo de Dilma Rousseff até agora.

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