A revolta dos bombeiros e o fim da história

Desde o início do movimento dos bombeiros, no Rio, que culminou na invasão de um quartel por forças do BOPE e a prisão de 439 bombeiros, o episódio me remeteu à Revolta da Chibata, ocorrida em 1910 na mesma cidade. É claro que há diferenças importantes, como o fato de que os bombeiros, a que se saiba, não são submetidos a castigos humilhantes, ou mesmo torturas, além das obrigações militares a que estão sujeitos. Mas há semelhanças também. Para começar, irei resumir os principais aspectos da Revolta da Chibata, apoiando-me em Edmar Morel, A revolta da chibata (5ª. ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2010).

Em 22 de novembro de 1910, um marinheiro, Marcelino Rodrigues Menezes, recebeu 250 (SIC) chibatadas, castigo comum, mas que ultrapassava as 25 permitidas por lei. A punição da chibata foi abolida imediatamente após a Proclamação da República, mas voltou logo em seguida, com decreto assinado pelo Marechal Deodoro da Fonseca e referendado por Rui Barbosa, então seu redator oficial. Mais tarde, durante a Revolta da Chibata, Rui Barbosa se posicionaria em favor dos marinheiros revoltados.

O castigo imposto a Marcelino desencadeou uma revolta já planejada, que aguardava a primeira punição desse tipo que ocorresse. Na mesma noite, pelo menos três navios de grande porte, os encouraçados “Minas Gerais” e “São Paulo”, seguido do cruzador “Bahia’, depois o encouraçado “Deodoro’ e praticamente todos os navios da esquadra foram dominados por suas tripulações. Alguns oficiais foram mortos, outros expulsos dos navios e enviados às praias. A exceção foram os contratorpedeiros, que pouco poderiam fazer contra o esmagador poder de fogo dos revoltosos. Foram disparadas salvas de advertência e um comunicado enviado por rádio, solicitando a abolição dos castigos aviltantes e das péssimas condições de alimentação e tratamento a bordo. Ameaçavam bombardear a cidade. O comunicado jamais foi divulgado pelo Governo. Destaco os seguintes trechos:

“Ilmo. e Exmo. Sr. Presidente da República Brasileira.

Cumpre-nos comunicar a V. Exa. como Chefe da Nação Brasileira:

Nós, Marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá, e até então não nos chegou; rompemos o negro véu que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo.”

Pediam educadamente ao Presidente da República “reformar o código imoral e vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo e outros castigos semelhantes; aumentar o nosso soldo (…).”

E anunciavam, por fim: “Tem V. Exa. o prazo de doze horas, para nos mandar-nos (SIC) a resposta satisfatória, sob pena de ver a Pátria aniquilada”.

Tiveram as exigências atendidas, em um primeiro momento, incluindo a anistia, que não foi real. A repressão foi brutal. “A verdade é que a anistia, que fora concedida pelo governo num momento de pânico e de medo, nunca chegou realmente a ser aplicada. Refeito do susto, o governo prendeu, deportou, massacrou os participantes da revolta, com requintes de barbaridade e de vingança tardia.” (Evaristo de Moraes, Prefácio ao livro de Edgar Morel, A revolta da chibata, op. cit., p. 50).

Os presos, entre os quais não se incluíam apenas marinheiros, mas prostitutas, mendigos, vadios, “indesejáveis” em geral, foram massacrados primeiro na Ilha das Cobras, depois nas praias de Niterói e os restantes enviados para a Amazônia. Dezenas dos revoltosos foram mortos com cal ou fuzilados. Suspenso o estado de sítio, em 3 de maio de 1911, o governo divulga esta cínica nota: “Armado com o estado de sítio não teve o governo necessidade de praticar violência contra quem quer que fosse, respeitando, de acordo com a promessa do manifesto inaugural, todos os direitos e liberdades e absteve-se sequer de constranger seus mais tenazes opositores” (Idem, op. cit., p. 45).

Hora de voltar à atual Revolta dos bombeiros. Cem anos depois, vêm protestar por melhores salários, condições mais dignas de vida. Revoltaram-se. Invadiram um quartel, juntamente com mulheres e filhos. A meu ver, isto revelava a intenção pacífica do movimento, pois nenhum pai leva seus familiares a um evento que sabe que pode descambar para a violência. Foram brutalmente reprimidos. Pelo menos uma gestante abortou. Foram presos durante vários dias, em condições que não podem ter sido as melhores. Foram soltos, mas respondem a processo em liberdade. Clamam agora pelo atendimento às exigências anteriores, e pela anistia. O movimento é justo. Ninguém sobrevive decentemente com R$ 900,00 reais, muito menos em uma cidade como o Rio de Janeiro.

Por isto, espera-se do Governador Sérgio Cabral que, sem descurar da necessidade de manter a disciplina da tropa, limite as punições, e reconheça a justiça do que reivindicam os bombeiros, concedendo-lhes, ainda a anistia. É isto o que espera a população, não só do Rio de Janeiro, como do país inteiro.

O Projeto, ora em tramitação, que mantém a possibilidade de renovação do sigilo de documentos oficiais ad aeternum, significa, na prática, que os governos, os pretéritos, o atual e os futuros, não precisarão divulgar atrocidades como as acima descritas, na Revolta da Chibata, como aquelas perpetradas durante a Guerra do Paraguai, durante os processos de recrutamento forçado no Ceará etc. Significa, em outras palavras, o fim da História.

Luiz Paulo Rouanet

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2 comentários em “A revolta dos bombeiros e o fim da história

  1. Gostei do artigo e das relações professor!
    Escreva mais sobre o sigilo dos documentos oficiais e o fim da história, isso é pano para muita manga, não é?

    Abraços,
    Thiago Minnemann

    • luizrouanet disse:

      Oi Thiago,
      Obrigado!
      Não sou historiador profissional, mas é claro que é um absurdo o sigilo “eterno”, como está sendo pretendido, especialmente por parte de um ex-Presidente como Collor, que renunciou para não ser impedido, episódio que o também ex-Presidente José Sarney qualifica como um “acidente” que não deveria ter ocorrido. Impedir a divulgação ad aetternum de documentos é o mesmo que decretar o fim da história. Mesmo nos EUA, esse limite é de 100 anos, ao que eu saiba. É lamentável que a Presidente Dilma se associe a essas pessoas.
      Abraço,
      Luiz Paulo.

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