A estranha derrota de Marc Bloch

Terminei de ler o livro “A estranha derrota”, de Marc Bloch (trad. Eliana Aguiar, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011, 170 pp.). O livro me fascinou, pela capacidade de reflexão durante os acontecimentos da Segunda Guerra, na França ocupada. Marc Léopold Benjamin Bloch nasceu em 1886, em Lyon, e foi fuzilado pelos nazistas, em Saint-Didier-de-Formans, em 1944. Combateu como soldado francês nas duas Grandes Guerras, tendo chegado à patente de Capitão. Foi um grande historiador, que nos legou, entre outros, a obra prima “Os reis taumaturgos”.

Em seu livro, publicado postumamente, ele alia a visão do soldado com a do historiador de ofício – aliás, seu último livro, também publicado postumamente, se chamou “Apologia da História ou O ofício do historiador”, publicado pela Zahar em 2002 –, a fim de traçar um retrato do período que se sucedeu entre o início das hostilidades com os alemães e a capitulação. Combateu como soldado regular, depois, com a invasão uniu-se às forças francesas na Inglaterra; retornou clandestinamente à França, refugiando-se na França não dominada pelos alemães. Exerceu o cargo de Professor em Estrasburgo, de onde tentaram retirá-lo por meio do Estatuto dos judeus mas permaneceu no cargo devido aos serviços excepcionais prestados à pátria. Por fim, a partir de 1943 entrou totalmente na clandestinidade, trabalhando com a Resistência, até sua prisão, tortura e morte nas mãos dos nazistas. Foi um homem notável.

Como se espera de um historiador, traçou amplo retrato das causas recentes e remotas que ajudam a explicar a derrota da França em 1940. Isto se deu em parte devido à excessiva burocracia e à gerontocracia da estrutura militar francesa, cheia de si, pouco aberta às mudanças, sem capacidade de efetuar as rápidas adaptações que exigiam o novo tipo de guerra implementado pelos alemães (a Blitzkrieg, guerra relâmpago). Não havia, da parte da elite francesa, uma verdadeira convicção de que os nazistas representavam, de fato, o “mal absoluto” a ser combatido com toda a força e todos os recursos da nação. Bloch não poupa tampouco os cidadãos comuns, os militantes partidários, representantes políticos: toda a nação teve sua parcela de responsabilidade pelos erros que levaram à rápida derrota em 1940.

Marc Bloch não se isenta dessa responsabilidade, sendo bastante duro consigo mesmo e com sua geração:

“Pertenço a uma geração cheia de má consciência. Voltamos da última guerra [1914-1919], é bem verdade, bastante cansados. Tínhamos também, depois daqueles quatro anos de pausa forçada pelo combate, uma pressa enorme de retomar os instrumentos de nossos diversos ofícios, na bancada onde os havíamos abandonado à ferrugem: queríamos recuperar em bocados duplos o trabalho perdido. Essas são as nossas desculpas. Não acredito mais, há muito tempo, que sejam suficientes para nos inocentar.” (p. 154)

Porém, Bloch foi certamente severo em excesso consigo mesmo. Tendo lutado em ambas as guerras, como se disse, recebeu cinco recomendações de serviço, por bravura em combate, diligência, competência, que fez constar ao lado de seu testamento. Sua vida deve servir de exemplo, mostra de que não basta ser intelectual em seu gabinete, ou no conforto de uma lareira, mas que é preciso sair a campo, interagir com a sociedade, dando novo significado à frase de Marx: “Os filósofos até hoje se limitaram a interpretar o mundo, é hora de transformá-lo”. Nesse sentido, afirma Bloch: “Temos grandes sábios, mas não existem técnicas menos científicas do que as nossas. Lemos, quando lemos, para nos tornarmos cultos, o que é muito bom. Mas não pensamos que podemos e devemos, ao agir, buscar a ajuda de nossa cultura”.

O texto de Bloch contém ensinamentos inestimáveis, instrumentos para avaliar nossa própria futilidade, seduzidos e fascinados pelos novos instrumentos de comunicação, mas, em muitos casos, sem saber muito bem o que fazer com eles. Como diz o autor: “para fazer o novo é preciso, antes de mais nada, instruir-se” (p. 137). A educação, portanto, ocupa um lugar fundamental, mas não uma educação “museológica”, e sim uma educação voltada para o presente e para o futuro. Para fazê-lo, contudo, é preciso conhecer o passado. Ainda Bloch: “É inútil afirmar que o passado não comanda inteiramente o presente. Sem ele, o presente se torna ininteligível” (p. 141).

E para terminar, concluo com esta bela reflexão que nos remete, justamente, à nossa relação com os meios de comunicação, à realidade do homem unidimensional, incapaz de ir além do momento presente: “O passado recente é para o homem médio uma tela confortável: esconde as distâncias da história e suas trágicas possibilidades de renovação”. Meditemos sobre isso e oremos por Marc Bloch, judeu não praticante, historiador de ofício, cidadão francês!

Luiz Paulo Rouanet

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