Uma nova chance para a política

 

Uma nova chance para a política 

Gostaria de propor uma aliança. Pode soar ingênuo, mas o atual momento do governo de Dilma Rousseff, no qual ela lida diariamente com denúncias de corrupção e a necessidade de tomar medidas saneadoras, a chamada “faxina”, iniciada no Ministério dos Transportes, pode propiciar a ocasião para um acordo com a oposição. Por que isso? Ficou óbvio, no escândalo envolvendo o setor de transportes, como já devia ter ficado óbvio no chamado “mensalão”, que certas alianças do governo, tendo em vista a governabilidade e a manutenção de maioria no Congresso, são espúrias, e atendem exclusivamente a objetivos fisiológicos. Ora, se o governo tiver essa consciência, pode perceber que seria melhor se aliar com um adversário político tradicional, mas com um histórico baixo de acusações de casos de corrupção – não inexistentes, mas bastante isolados –, e dotado de projeto nacional, o que falta à maior parte dos partidos “nanicos”.

Essa aliança seria estratégica, visando mudar a maneira de fazer política no país. É preciso fazer política não em nome de cargos, mas em nome de um projeto de nação. Ela poderia englobar a ex-candidata à Presidência, Marina Silva, ex-petista e que acaba de deixa o Partido Verde. Poderia incluir elementos insatisfeitos de vários partidos, incluindo o PMDB, ainda o maior partido brasileiro. Seria, portanto, uma aliança suprapartidária e com um objetivo claro: eliminar o fisiologismo como prática política principal. Isto é uma maneira de pensar nas próximas gerações. Como disse John Rawls (1921-2002), “O político pensa nas próximas eleições, e o Estadista nas próximas gerações” E complementa: “Cabe ao estudante de Filosofia pensar nas condições permanentes e nos interesses reais de uma sociedade democrática justa e boa” (“Fifty years after Hiroshima”, in Collected Papers, p. 567).

Quando digo “como prática política principal”, tenho clareza de que a troca por cargos não pode ser totalmente eliminada da vida política. Afinal, como disse Weber, quem quiser entrar para a política tem que saber que está fazendo um pacto com o diabo. Ou ainda: “O diabo é velho, é preciso envelhecer para compreendê-lo”. Porém, isto não significa que a negociação por cargos, ou a barganha, seja, ou deva ser, a atividade principal do político. E no Brasil, parece que se esqueceu disso. Ou pior, nunca se aprendeu de fato outro tipo de política. Está na hora de passar de uma ética do compromisso para uma ética da responsabilidade.

Já se falou, mais de uma vez, em pactos por isto ou por aquilo. Por que não voltar à carga? É preciso, para tanto, que haja confiança entre as partes, ou melhor, entre os partidos. As demonstrações de seriedade do atual governo ao lidar com as denúncias de corrupção serão suficientes para isso? Parece que não. É preciso, também, haver demonstração de austeridade. As contas da União se apóiam, sobretudo, no aumento da arrecadação, sem que haja diminuição visível nos gastos públicos.

Uma eventual aliança entre os dois maiores partidos de “esquerda” no país – e a exemplo de Bolívar Lamounier, não vou tentar definir esquerda neste momento – não significa que eles precisariam abrir mão, no médio prazo, de seus projetos específicos. Trata-se sim de um “consenso por sobreposição”, passando por cima das diferenças particulares que impediriam tal acordo. Cabe às lideranças – e aos quadros – de ambos os partidos discutirem a possibilidade desse acordo, mas não custa sonhar. Este é o fundamento do realismo utópico: procurar estender os limites do realisticamente possível.

Luiz Paulo Rouanet

 

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