Por que não me ufano do Brasil?

O título não é exatamente original. Como informa Daniel Piza, em seu blog “Por que não me ufano” (http://blogs.estadao.com.br/daniel-piza/por-que-nao-me-ufano/), o conde monarquista (um conde republicano seria de estranhar, não?) Afonso Celso escreveu um livro chamado “Por que me ufano de meu país”. Antes que eu seja acusado de plágio, digo em minha defesa que o título me ocorreu antes de topar com o blog de Daniel Piza. Mas vamos lá. Por que não me ufano do Brasil?

É preciso primeiro definir o termo ufanar. Significa sentir ou demonstrar orgulho de algo, por algo, sentir contentamento, geralmente exagerado. Pois bem, é esta alegria exagerada que não sinto em relação ao Brasil, embora haja motivos para ficar contente com ele por outras razões. Quais são minhas razões, contra e a favor?

Primeiro, as razões a favor: é um país de clima quente, ameno. Encontram-se, em sua grande extensão territorial, todos os extremos, mas é predominantemente clima agradável e fácil de viver (nem todos concordam com isso; vide a esposa de Richard Burton, que detestou o Rio de Janeiro, e a malfadada Carlota Joaquina). Seu povo é cordial (lembrando que, como mostrou Sergio Buarque, a cordialidade não é exatamente uma boa qualidade, mas indica muitas vezes a falta de racionalidade nas relações entre os homens), mais afeito à concórdia do que à discórdia; é o famoso “jeitinho” brasileiro. É um povo predominantemente tolerante, embora o racismo, de fato, subsista, mais de 120 anos depois da abolição da escravidão.

Percebe-se que, mesmo quando quero destacar as qualidades positivas, não consigo deixar de fora o senso crítico. Mas não se trata de cinismo, realmente vejo qualidades muito boas na população e no país, senão, não escolheria morar aqui, não me daria ao trabalho de escrever este texto, como também salientou Daniel Piza.

Em segundo lugar, as razões contra: um dos países mais desiguais do mundo, com maior distância entre o rendimento dos mais ricos e dos mais pobres. Essa desigualdade já foi pior, e diminuiu na última década. Fomos de 33% da população vivendo abaixo da linha da miséria, em 2000, a cerca de 8% em 2010. Em termos absolutos, considerando uma população em torno de 190 milhões de pessoas, ainda representa muita gente (cerca de 15 milhões de pessoas). Porém, estatisticamente é uma redução enorme. Isto permite vislumbrar a erradicação da miséria na próxima década, se as políticas públicas continuarem na mesma direção. No que se refere à desigualdade, porém, o chamado índice Gini, o Brasil ainda é um dos mais desiguais do mundo. Em 2008, o coeficiente Gini era de 0,54, Argentina, 0,49, França 0,37. Quanto mais próximo de zero, menos desigual é o país. A posição do Brasil, no ranking da desigualdade, é oitavo lugar. Essa desigualdade oculta outros problemas sociais do Brasil: falta de saneamento básico na maior parte do país, especialmente nas grandes cidades, atendimento hospitalar e ambulatorial precário, prostituição infantil (gravíssima; muitas vezes, os próprios pais agenciam as crianças na beira das estradas, as vendem), falta de segurança, rodovias em péssimo estado de conservação, etc.

Colocado desta forma, soa como se o governo, em seus três níveis, não fizesse nada. Isto não é verdade, seria uma generalização indevida. Porém, o objetivo deste texto é chamar a atenção para o que precisa ser feito ainda. É muito cedo para nos ufanarmos. Como resolver isso?

Em primeiro lugar, é preciso combater a corrupção, responsável pelo desvio de somas enormes que poderiam ser utilizadas para melhorar o quadro apontado. O Brasil vive bom momento econômico, mas precisa aproveitá-lo para corrigir seus problemas de infra-estrutura. Para diminuir a corrupção, seria preciso descentralizar a administração política e financeira do país, de modo a otimizar a utilização dos recursos. No translado do dinheiro para a União, e no repasse deste, a conta-gotas, para os Estados “amigos”, muito dinheiro se perde. Grande parte da verba também é gasta no pagamento do pessoal. É uma máquina que funciona para sustentar a si própria, como bem mostrou o saudoso pensador anarquista Maurício Tragtenberg (1929-1998).

As reformas política e tributária, tão discutidas, tardam. No plano político, sou a favor da adoção de um sistema distrital misto. Uma parte de nossos políticos deveria ser eleita mediante o voto distrital, a fim de que tenhamos mais controle sobre nossos representantes. Porém, os políticos não devem ficar reféns do eleitor, daí a defesa de um sistema misto.

No plano tributário, seria desejável um repasse menor dos Estados para a União. No plano da sociedade civil, diminuição da tributação e revisão dos encargos trabalhistas, em comum acordo com os trabalhadores, a fim de aumentar a oferta de postos de trabalho e sua remuneração. Em contrapartida, é preciso haver maior qualificação da mão-de-obra. Para isso, é preciso continuar investindo, de maneira crescente e contínua, na educação, em todos os níveis.

Não há soluções milagrosas, únicas, panaceias. Como sugeriu Michael Walzer, em política é preciso proceder mediante processo de tentativa e erro. “Quanto mais duras forem as escolhas, menos provável é que um resultado, e somente um, receba aprovação filosófica. Talvez devamos escolher desta maneira aqui, e dessa maneira lá, desta maneira agora, daquela maneira no futuro. Talvez nossas escolhas devam ser tentativas e experimentais, sempre sujeitas a revisão ou mesmo reversão” (On tolerance, 1997, p. 5).

Este texto não tem pretensão partidária, não constitui ataque a uma administração em particular, mas constitui alerta aos brasileiros realmente interessados em resolver os problemas do país para que, sem ufanismo, encarem os problemas apontados, a fim de tornar este país realmente merecedor de orgulho, não por conta de uma competição esportiva, mas por conta da capacidade de um povo de erguer-se sozinho e tornar-se, a cada dia que passa, uma nação mais justa.

Luiz Paulo Rouanet