Sociedade unidimensional

Sem querer reeditar Marcuse, chama-me a atenção, cada vez mais, em minhas viagens, a uniformização da vida. Em toda parte, o comércio local é substituído pelos Shopping Centers: na Venezuela, na Argentina, no Chile e possivelmente em outros países; nos diversos Estados do Brasil, em toda parte, as pessoas se acostumaram a procurar esses locais padronizados de compra. É como se necessitassem daquela segurança psicológica proporcionada pela repetição, a mesma que leva a criança a pedir que se conte todas as noites a mesma história, que ela já sabe de cor. Ela quer ter certeza de que a história não se altera, de que, pelo menos isto, ela controla. Em casos patológicos, qualquer alteração na rotina provoca reações exaltadas e até mesmo violentas, como ocorre em diversas formas de autismo.

Estará nossa sociedade, e refiro-me à sociedade global, tornando-se autista? Afirmar isso, de maneira simplista, seria anti-dialético. O que podemos afirmar, é que há uma tendência a uma homogeneização, a uma padronização dos comportamentos, a uma simplificação dos critérios de avaliação, dos padrões de gosto e assim por diante. Dentro da sociedade, naturalmente há pessoas e grupos que resistem a essa massificação, de maneira intuitiva ou consciente. Os atuais movimentos dos “indignados”, mundo afora, com suas diferenças específicas de país a país, são uma prova disso. O mais recente deles, é aquele movimento “anti-Wall Street”, que se espalha por diversas cidades dos EUA: Nova York, Boston, Los Angeles e outras. É cedo para dizer se existe uma unidade de propósito, se existe mesmo uma meta definida, ou se se trata de um movimento “contra tudo que está aí”. Parece voltado, no entanto, exatamente contra essa forma econômica, a que ainda se dá o nome de capitalismo, responsável exatamente pela morte da diferença, responsável pela massificação da sociedade de consumo, pela esterilização intelectual, moral e cultural das massas.

Tenho cada vez maior resistência a sair para comer fora, quando isto significa comer no Shopping, ou então em um restaurante de má qualidade na rua. Em casa, preservo a ilusão de originalidade, de autenticidade, permito-me a prática da “slow food”, ou pelo menos tento. Não estou isolado deste mundo, não fujo a esta sociedade capitalista, nem acho que tudo o que o capitalismo produz ou representa é ruim em si. Como disse Marcuse, o problema com o capitalismo não está nos bens que ele apresenta como atraentes: eles são realmente atraentes e prazerosos. O problema está na desigualdade de acesso aos bens e serviços que ele oferece. O capitalismo é supostamente democrático: os bens e serviços estão à disposição de todos, basta que tenham dinheiro. Aí, é claro, está o xis da questão. O acesso a cargos e ofícios, para utilizar a linguagem de Rawls, não é o mesmo, não existe igualdade de oportunidades.

Não quero com isso fundar nenhum movimento: eles já existem, e basta seguir aqueles que se coadunam melhor com sua consciência. Evitar o excesso de comida industrializada, comidas de marca, pode ser um começo. Diminuir, senão eliminar, o consumo de determinados tipos de carne, pode ser outro passo, mas aqui, novamente, a consciência de cada um deve ser o guia, pois somente a própria pessoa pode saber aquilo de que ela é capaz de se abster.

Afastar-se do imediatismo da mídia, das redes sociais, pode ser outro passo. Não para cortá-los completamente de sua vida, mas para com elas estabelecer nova relação, relação refletida, com recuo, com cuidado. No que se refere à imprensa, especialmente a eletrônica, a banalidade é sua razão de ser: ela se alimenta de notícias que ela mesma cria, para logo em seguida descartar. As notícias nascem para serem superadas, em jogo incessante. Tudo é notícia, nada é notícia.

No caso das redes sociais, passado o encanto inicial, com a possibilidade agora oferecida de contato em tempo quase real com amigos antigos, conhecidos, amigos novos, novos conhecidos, desconhecidos, futuros ex-amigos, percebe-se a fragilidade dessas relações, a vulnerabilidade a que se sujeita quem expõe sua vida na Internet. Há quem se alimente disso, e há quem seja devorado por isso. Decifra-me ou te devoro, dizia a esfinge, decifra-me e te devoro, diz o Facebook. Cuidado!

Para se refletir, é preciso de tempo, é preciso tempo de leitura, de meditação, de elaboração. O imediatismo é a morte da reflexão. Por esse motivo, quase não temos mais intelectuais, ao mesmo tempo que todos são intelectuais. Cuidado!

Sem querer ser oráculo, apenas compartilho algumas reflexões, ainda pouco sistematizadas, mas em vias de sê-lo. E quem quiser conte outra história!

Luiz Paulo Rouanet