Goulart, memória e esquecimento

Terminei de ler o monumental (713 páginas) João Goulart – Uma biografia, de Jorge Ferreira (RJ: Civilização Brasileira, 2011). O livro é fantástico: completo, cobre todo o período de vida adulta de Jango, desde seus primeiros contatos com Getulio, por meio do pai, fazendeiro em São Borja. Jango tinha então 17 anos, e já havia se destacado como estancieiro, tendo rapidamente desenvolvido um pequeno dote paterno. Com 16 anos, dispunha de avião próprio. Eis o relato do primeiro encontro de Jango com Getulio, o que certamente contribuiu para a carreira política futura do jovem aprendiz:

“Em 1934, Getulio Vargas foi a São Borja. Vicente [o pai de Jango], com o objetivo de homenagear o presidente, mas antes de tudo o vizinho e amigo, ofereceu-lhe um churrasco. Em certo momento, Jango, com apenas 17 anos, tomou a palavra e fez um discurso enaltecendo o governo e a figura do presidente. Vargas, surpreso com a fala do jovem, perguntou a Vicente: ‘Quem é este guri?’ O velho estancieiro respondeu que se tratava de seu filho: ‘Chama-se João, mas aqui na fronteira todo mundo só o chama de Jango’. A seguir, o pai chamou-o para cumprimentar Getulio. Tomado pela timidez, Goulart, olhando para o chão, limitou-se a estender a mão para o presidente, sem nada dizer. Vargas, afável, disse-lhe: ‘Tu vais ser político, Jango? Pois devias. Tu falas bem’. (Ferreira, p. 39).

O pai respondeu que o filho seria estancieiro. De certo modo, era assim que o próprio Jango se via, até mesmo nos momentos mais difíceis de sua presidência, trinta anos depois. Além disso, sentia-se bem na companhia do povo, sinceramente, sem afetação, dizendo preferir um churrasco na companhia de gente simples do que banquetes.

Teve rápida ascensão na política gaúcha. Contribuiu para a fundação e consolidação do PTB, então autêntico partido trabalhista. Tinha temperamento conciliador, embora não hesitasse em ser mais duro com adversários ou rivais políticos. Nessa época, aproximou-se de Leonel Brizola, engenheiro bastante politizado e aguerrido, tornando-se seu cunhado, por meio do casamento de Brizola com Neusa, sua irmã. Ao longo dos anos, desenvolveram uma parceria, não isenta de rupturas. Chegaram a ficar quase dez anos afastados, após o golpe militar de1964. O radicalismo de Brizola não poupou o presidente na hora que mais precisou de apoio, embora, é preciso lembrar, a atuação do cunhado tenha sido decisiva para garantir a posse de Jango, após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961.

O que vale destacar é que o livro de Jorge Ferreira, apesar de seu tamanho, constitui uma síntese da bibliografia antiga e recente sobre o tema, e permite reavaliar não só o personagem histórico de João Goulart, como todo o período envolvido, desde o suicídio de Vargas, em 1954, até a morte de Jango, em 1976, passando pelo duro período pré e pós-1964. No que concerne aos acontecimentos que desembocaram em março de 1964, Ferreira julga que o radicalismo de direita e esquerda conspirou para a supressão da democracia, embora, é claro, a responsabilidade maior deva ser atribuída aos militares que desfecharam o golpe e os políticos e empresários que o apoiaram, sem esquecer da imprensa. O clima era de radicalização, e haveria um desfecho, para a direita ou para a esquerda. O caráter moderado de Jango ficou à mercê dessas forças. Assim resume o autor: “O estilo Jango já não surtia efeito, parecia estar ultrapassado. No confronto entre esquerda e direita, o regime liberal-democrático entrou em colapso” (Ferreira, p. 687).

O livro também ajuda a desfazer mitos. Um deles, ainda propalado, é o de que Jango teria sido assassinado. Embora houvesse planos, efetivamente, de eliminar as principais lideranças políticas do período pré-golpe, em operação desencadeada no bojo da Operação Condor, que envolvia militares e para-militares de várias ditaduras da região (Argentina, Brasil, Uruguai, principalmente), não parece ter sido o caso de Jango. Em relação a Lacerda – sim, apesar de não ser um político de esquerda, estava na mira dos militares, devido à sua influência, e à chamada Frente Ampla, que envolvia Jango, Juscelino e Lacerda – e Juscelino, as suspeitas são fortes nesse sentido. Jango, porém, já sofria de problemas cardíacos desde muito antes (em 1962, desmaiou durante visita ao México), bebia, fumava, estava deprimido com o exílio e mal conseguia subir uma rampa, no período final). Houve um preso comum, Mário Barreiro Neira, que afirmou estar envolvido em conspiração para troca de medicamentos e envenenamento do ex-presidente, mas nada foi provado. Eis a conclusão de Ferreira a esse respeito:

“Não nos faltam testemunhos de pessoas e comprovações médicas de que Jango era cardiopata, sofria de hipertensão arterial e tinha um estilo de vida bastante prejudicial à saúde. Com todo esse histórico, ele ainda adotou a agressiva dieta proteica [Dr. Atkins] meses antes de morrer. Todas as evidências, portanto, conduzem à tese de que Jango morreu de infarto agudo do miocárdio. Pode-se, no entanto, fazer tal afirmação com absoluta precisão? Não, porque não houve autópsia.” (Id., p. 673).

O autor também rebate as críticas que foram feitas ao governo de Goulart, nos anos 60, de um suposto populismo, “burguês” ou “pequeno-burguês”, de caráter conciliador etc. Houve sim, em sua opinião, um projeto reformista e nacionalista sério, o qual, se levado a cabo, transformaria efetivamente o país em potência, projeto que foi sabotado pelos dois lados extremos do espectro político, à direita e à esquerda. Uns, porque não desejavam mudanças, e foram apoiados nisso pelos Estados Unidos, outros, porque consideravam as mudanças insuficientes. De um modo ou de outro, não é possível repetir a história, a não ser como farsa. O que se pode fazer é estudar o período, e nele, a grande figura que foi João Goulart, a fim de aprender algumas lições que nos sirvam para o presente e para o futuro.

Luiz Paulo Rouanet

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