Velhos e novos tempos

 

Machado de Assis descreveu muito sutilmente a passagem da Monarquia para a República. Num trecho de Esaú e Jacó, o narrador assinala como o proprietário de uma padaria, que havia mandado fazer um cartaz intitulado “Confeitaria do Império”, ao perceber a movimentação política, e por se achar em reforma, quando houve a proclamação da República, suspendeu a afixação da nova placa. É como se a mudança de regime fosse apenas uma mudança de nomes, ou de gabinetes. O escritor não entra em maiores detalhes sobre a alteração do regime, dando a entender que, num primeiro momento, a alteração da forma de governo não afetou a vida das pessoas comuns. É célebre também a expressão, divulgada por um jornalista da época, “que o povo assistiu a tudo abestalhado”. (Aristides Lobo, Diário popular de São Paulo, 15 de novembro de 1889).

Há quem discorde. Em A República consentida (RJ: FGV/Edur, 2007), a historiadora Maria Thereza Chaves de Mello mostra o desgaste da Monarquia, nos últimos tempos, e como a instituição se revelava cada vez mais anacrônica. Após a abolição, bandos de capoeiristas, denominados de “Guarda negra”, espécie de milícia, procuravam intimidar os republicanos, por meio de arruaças, ameaças e agressões físicas. Isto revela o descontrole e desespero do regime, apegando-se a seus últimos privilégios, e talvez, precipitando sua queda.

É paradoxal essa ligação da Monarquia com a escravidão. Por um lado, o Império parece estar intimamente ligado ao escravismo. Por outro, por meio de leis sucessivas, como aquela que determinou o fim do tráfico negreiro, a lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexuagenários, a escravidão caminhava para o seu fim, o que efetivamente ocorreu com a Lei Áurea, em 1888. A questão é: por que a Monarquia não sobreviveu (a não ser em um ano) ao fim da escravidão, sendo que ela própria contribuiu para a extinção desta última? Que espécie de perversa aliança uniu antigos proprietários de escravos aos partidários da República? Foi uma aliança estratégica ou conjuntural, última vingança dos senhores de escravos?

Que a mentalidade escravocrata não se extinguiu com a Abolição é bem sabido. Mostram-no as políticas de imigração, para substituição do trabalho escravo pelo dos colonos, pelo “branqueamento da raça”, promovido às custas da marginalização da antiga mão-de-obra gratuita, e o surgimento das primeiras favelas. Da noite para o dia, os escravos remanescentes ficaram sem teto para morar e sem meios de sustento. Esta a causa da miséria, desigualdade e grande violência com as quais se deparam ainda no século XXI, as grandes cidades brasileiras. (Cf. José Murilo de Carvalho, Cidania no Brasil – O longo caminho).

A mentalidade do senhor de escravos se manteve na mentalidade dos primeiros empresários e dirigentes, no trato com os empregados, domésticos – que eram e ainda são usados e abusados –, ou de fábricas, do campo, em toda parte. O século XX assistiu a uma luta pelo reconhecimento dos direitos dos trabalhadores. O auge do trabalhismo se deu entre os anos 40 e 60. Depois, houve retrocesso durante a época da ditadura. As greves no ABC, em São Paulo, ajudaram a retomar essas reivindicações, em plena ditadura militar. O assassinato do operário José Fiel Filho – bem como a do jornalista Wladimir Herzog – foram os sinos de dobre da ditadura.

Hoje, o trabalhismo novamente recuou, exatamente no momento em que o Partido dos Trabalhadores se consolida no poder, após dois mandatos sucessivos do líder do movimento operário, Lula, e a posse da sucessora por ele indicada, Dilma Rousseff. Por que recuou? Porque o capitalismo, no Brasil, continua cada vez mais selvagem. A gana da burguesia, média ou alta, faz com que o comércio trabalhe dia e noite, finais de semana e feriados, indistintamente. Nas indústrias, o ritmo é igualmente frenético. A oferta abundante de mão-de-obra faz com que os trabalhadores aceitem essa situação sem protestar, pois sabem que no momento seguinte ao de sua demissão outro imediatamente assumirá seu lugar. Ele perde o poder de barganha.

A burguesia, por outro lado – e utilizo aqui o termo em sentido lato, abrangendo classe média e alta indistintamente – não se preocupa em consumir em qualquer dia da semana, justamente porque lhe falta, assim acredito, a dimensão do que significa o trabalho do outro. Ela se irrita porque espera alguns minutos a mais na fila, ao fazer compras no supermercado no domingo, mas em momento algum se questiona se o trabalhador atrás do balcão, ou da máquina registradora, preferia estar em casa, com sua família, descansando. Num mundo em que o público se privatiza e o privado se torna público, perde-se também a dimensão da alteridade, dado o individualismo exacerbado. Explico melhor: o indivíduo torna-se exponencial, atingindo todas as esferas de convivência, indistintamente, e perdendo, assim, sua personalidade, uma vez que a sua em nada se diferencia da dos demais, na medida em que não se reconhece a diferença.

A questão toda, por trás desse texto, preocupação já manifestada em outros artigos deste espaço, é: quais foram os avanços efetivos, em termos qualitativos, desde a Proclamação da República? Foram muitos: manteve-se a Federação, à custa de repressão violenta a movimentos separatistas ou de revolta (Canudos, Contestado etc.), houve avanços no direito dos trabalhadores, a democracia se firma cada vez mais. Mas continuam muitos problemas também: desigualdade, moradia, saneamento, educação, saúde… É claro que seria preciso qualificar cada um desses setores, avaliando avanços e deficiências, mas este é um assunto que fica para outra ocasião.

Sugestões de leitura:

MACHADO DE ASSIS, Esaú e Jacó, Virtualbooks, disponível em http://virtualbooks.terra.com.br/freebook/port/download/Esau_e_Jaco.pdf .

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil – O longo caminho. 14ª ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

_______. D. Pedro II – Ser ou não ser. São Paulo: Cia. das Letras, 2007.

_______. Os bestializados. 6ª. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

MELLO, Maria Thereza Chaves de. A República consentida. Rio de Janeiro: FGV/Edur, 2007.

SCHWARCZ Lilia Moritz. As barbas do Imperador – Dom Pedro II, um monarca nos trópicos. 2ª. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.

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Um comentário em “Velhos e novos tempos

  1. Esmeraldina disse:

    Texto sutil e ao mesmo tempo instigante de reflexão atual. Do que pareceu-me, inicialmente, uma discussão recorrente, surpreendeu-me (positivamente), refletir em termos de alteridade, a “dimensão do que significa o trabalho do outro”. Mas, principalmente, pensar no avanço, estagnação ou retrocesso do (in) evitável “progresso”. Muito bom texto. Ótima reflexão!

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