Dias de Getúlio

Termino agora, com muita satisfação, a leitura de Getúlio 1882-1930 – Dos anos de formação à conquista do poder (SP: Cia. das Letras, 2012), primeiro volume dos três previstos da biografia escrita pelo jornalista Lira Neto.

É extraordinária a riqueza de detalhes, o colorido e a fluência da narrativa. Por ela ficamos sabendo, por exemplo, da quantidade de conflitos regionais que o Brasil tem vivido desde a Proclamação da República, para não mencionar o período do Império. Só no Rio Grande do sul, houve pelo menos dois levantes “federalistas”, respectivamente em 1891 e em 1923. O livro explica, em parte, a ascensão do militarismo, num ambiente em que o mundo político era descrito “como um ‘charco lodoso’, onde apenas chafurdavam as ambições e veleidades pessoais” (p. 39). O sistema parlamentar, defendido pelos adversários do “castilhismo” endossado pela família Vargas, era taxado de “sistema pra lamentar” (p. 38)!

A revolta de 1891 é descrita como “a maior e mais sanguinolenta de todas as guerras civis da história brasileira” (p.41). A Revolução Federalista, como veio a ser conhecido esse conflito, verdadeira guerra civil, estendeu-se de 1893 a 1895, deixando “mais de dez mil mortos em combate” (p. 42).

Já o segundo conflito, de 1923, surgiu diante da manobra efetuada pelos partidários de Borges de Medeiros, então Presidente do Rio Grande do Sul. Não tendo coragem de comunicar ao líder, Borges, sua derrota para o adversário Assis Brasil, Getúlio volta à Câmara e faz uma “recontagem” de votos que dá a vitória ao herdeiro de Júlio de Castilhos. Deflagra-se, em seguida, nova revolta federalista, encabeçada por Assis Brasil e seus seguidores. Iniciam-se, na mesma época, os primeiros movimentos do “tenentismo”, o qual desembocaria, anos depois, por vias tortas, na ascensão de Getúlio ao Palácio do Catete, isto é, à Presidência da República. O episódio foi a célebre “Revolta do Forte (de Copacabana)”, da qual escaparam com vida apenas quatro militares: os soldados Manoel Ananias dos Santos e José Rodrigues Marmeleiro, e os tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos (p. 179). Voltando ao movimento federalista, diante do esgotamento dos recursos políticos, os partidários de Assis Brasil decidem partir para a ação.

Revolução. A palavra tão conhecida e tão cara aos gaúchos fora, enfim, pronunciada. O tempo mostrou que ela não ficaria assim, atirada ao vento. O Rio Grande do Sul iria enfrentar uma nova guerra civil, após a comissão de verificação eleitoral, chefiada por Getúlio Dornelles Vargas, declarar Borges de Medeiros vitorioso e decretar a derrota de Assis Brasil. Getúlio talvez jamais tenha imaginado que, àquela altura da vida, aos quarenta anos de idade, isso significaria trocar de novo o terno e gravata pelo uniforme de soldado. (p. 185).

Nesse ponto, há um história ótima, que merece ser contada, a respeito da maneira utilizada, com frequência, para arrebanhar soldados para os dois lados do conflito, e expressiva sobre a concepção de liberdade vigente na época.

Dizia-se que o coronel Francelísio Meireles, chefe republicano do município de Encruzilhada, fora certa noite procurado por um sargento com a informação:

“Coronel, os voluntários estão aí fora”.

“Mande-os para o pátio da prefeitura que amanhã providenciamos o engajamento”, orientou Francelísio.

“Mas desamarro os homens ou deixo amarrados mesmo?”, quis saber o sargento”. (p. 188).

Outra história divertida dá conta das fraudes corriqueiras no processo eleitoral. Era muito fácil, por exemplo, emitir e obter segundas vias dos títulos eleitorais. Conta o autor:

No município de Cachoeira, um cidadão pego votando com a segunda via de um título que não lhe pertencia, foi indagado à queima-roupa:

“Como você se chama?”

Atarantado, o sujeito virou-se para trás e indagou a quem o  havia conduzido à seção eleitoral:

“Como é mesmo o meu nome?” (p. 190).

Em suma, as fraudes eleitorais, o uso e abuso da “imprensa de aluguel” pelas diversas partes em conflito – praticamente não existia “imprensa livre”; haverá hoje? –, sem falar do puro e simples uso da força por parte das autoridades, fornecem um retrato vivo do que foi a Primeira República. A expressão “política do café-com-leite” pode passar a falsa impressão de que se tratou de um período pacífico, mas o que houve, na verdade, foi uma época de governos autoritários, povoada de conflitos regionais e mesmo guerras civis. O governo de Arthur Bernardes, por exemplo, que antecedeu o de Washington Luís, ocorreu inteiramente sob estado de sítio.

Este primeiro volume cobre a trajetória de Getúlio, desde sua ascensão na política riograndense, depois sua eleição a Deputado Federal, quando se tornaria o líder da bancada gaúcha (1923), sua breve passagem pelo Ministério da Fazenda, no governo de Washington Luís (1926), sua eleição para a Presidência do Rio Grande do Sul (1928), sua candidatura derrotada para a Presidência da República e posterior Golpe de 1930. De passagem, fala ainda sobre os principais episódios políticos e militares do período, como a marcha da Coluna Prestes (1924), o assassinato de João Pessoa (26 de julho de 1930), tendo como desfecho a caravana que conduziria Vargas ao poder, no Rio de Janeiro.

Em meio a tudo isso, ficamos conhecendo melhor a personalidade de Vargas, sua calma nas horas mais difíceis, sua ambiguidade, sua precaução e sua consciência de si, evidente no Diário (SP: Siciliano; RJ: FGV, 1995), no qual se apoia bastante o autor para extrair um retrato mais pessoal do líder biografado. Sem esquecer que Getúlio foi ditador do Brasil por um período de 15 anos, com as perseguições, torturas e outras práticas comuns em regimes autoritários, esta biografia acrescenta informações pessoais ausentes nas tentativas mais sérias de biografias de Getúlio, como as de Boris Fausto, Paulo Brandi ou Forster Dulles, mais sintéticas e que se concentraram em aspectos exclusivamente “políticos”. É do Diário que extraio a última frase, sugestiva, e que nos faz aguardar ansiosamente os próximos volumes da biografia de Lira Neto:

Dizem que o destino é cego. Deve haver alguém que o guie pela mão! (Getúlio Vargas, Diário, 20 de novembro de 1930).

Luiz Paulo Rouanet

São João del Rei, 05 de outubro de 2012.

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