O fim das utopias

Termino de ler Nuestros años verde olivo, de Roberto Ampuero (Santiago, Cl: Debolsillo, 2012, 629 p.; trad. bras. Nossos anos verde-oliva, Benvira, 2012). Trata-se de romance autobiográfico. Jovem estudante no Chile de Allende, membro da Juventude Comunista, JOTA, Roberto foge após o golpe de Pinochet, indo refugiar-se na Alemanha Oriental. Em Leipzig, onde frequenta a Universidade, apaixona-se pela filha de um comandante revolucionário cubano, Cienfuegos. Posto diante do dilema de fugir para o Ocidente, abandonando sua amada, e seguir para Cuba, casando-se com Margarida. Ainda tomado por seus ideais revolucionários, opta por esta última alternativa, , que lhe possibilitaria conhecer a pátria do socialismo real.

O livro narra suas peripécias na ilha de Fidel, desde a vida privilegiada de membro da nomenklatura até a existência de pária, no caminho descendente da perda de suas ilusões juvenis.

O livro é muito bem escrito, e apesar de seu tamanho, lê-se numa sentada. Valeu ao autor o repúdio por parte da esquerda chilena. Roberto Ampuero é hoje autor bem sucedido, com inúmeros títulos, principalmente no campo do romance policial. É Embaixador do Chile no México.

Ao acompanharmos a trajetória de um revolucionário – o que faz pensar, é claro, em Memórias de um revolucionário, de Victor Serge –, desde sua militância engajada até seu desencanto com o regime que vivencia em Cuba, damo-nos conta, com o autor, da equivalência entre os regimes que se querem opostos. Como diz Ampuero, no epílogo (p. 616):

La experiencia del Chile de Pinochet y la Cuba de los Castro, y de la escritura de esta novela, me enseñaron algo adicional: no hay nada que se parezca más a una dictadura de derecha que una dictadura de izquierda, no hay nada más parecido al fascismo que el comunismo, nada más parecido al hitlerismo que el estalinismo. Para el ciudadano corriente, las dictaduras son todas iguales. Para el que aguarda el interrogatorio en un celda de seguridad del Estado da lo mismo si su torturador es de izquierda o derecha, es religioso o ateo, cree en el comunismo o la seguridad nacional, lleva al cinto una Kalashnikov o una Luger, fue formado en la antigua Bucarest o una escuela de la antigua escuela de las Américas de Panamá.

Não há dúvidas de que a ditadura de Pinochet foi das mais ferozes do continente, numa época dura.  Nos primeiros anos da ditadura, aviões da Força Aérea do Chile aguardavam, tarde da noite, motores ligados, portas abertas, a chegada de caminhões com 40 ou 50 prisioneiros, que eram escoltados até os aviões. Estes partiam e regressavam vazios, apenas com o sargento e os recrutas encarregados de jogá-los ao mar. Quem ousasse se rebelar era morto ou expulso do exército. Mas nada justifica a tortura física e psicológica daqueles caídos em desgraça no regime cubano, rotulados, com ou sem razão de “contrarrevolucionários”, mancha para a qual não havia remissão. O mero fato de o regime ter que se sustentar mantendo seus habitantes, nacionais ou estrangeiros, presos, sem possibilidade de sair da ilha, com escassez de gêneros – sob pretexto do embargo norte-americano – mostra a falta de legitimidade do regime. Não há justificativa para a privação da liberdade.

Aparentemente, tem havido avanços. Hoje, o cidadão comum (isto é, que não seja “suspeito” aos olhos do regime, ou atleta de alto desempenho, etc.) pode viajar ao exterior. Tem havido abertura comercial relativa. Tudo indica que Cuba está no compasso de espera — mas já se passaram mais de 50 anos da tomada do poder pelos revolucionários — da morte de Fidel, para que haja uma abertura maior. Porém, não podemos nos iludir sobre Raul Castro, seu irmão, que na década de 60 perseguiu ferozmente aos homossexuais, internando-os em campos de trabalho e submetendo-os a todo tipo de humilhação.

Também cabe pensar o quanto é conveniente, para os E.U.A., manter o embargo sobre Cuba, e manter assim o fantasma da “ameaça comunista” como argumento para manter elevados os gastos militares. Há uma estranha cumplicidade entre os dois países, que resulta na privação de liberdade para os habitantes da ilha.

O livro é um depoimento importante, de alguém que viveu todas as etapas da militância revolucionária. Quem desejar ter outra visão sobre o “Paraíso” do socialismo, deverá ler o livro de Roberto Ampuero, e perguntar-se, com o autor, por que existem tão poucos depoimentos similares.

Luiz Paulo Rouanet