Django livre, a redenção de Tarantino

Há filmes que possuem realmente efeito catártico. É o caso de Django livre, de Quentin Tarantino. A violência hiperbólica, marca de Tarantino desde seus primeiros filmes, como Cães de aluguel e Pulp fiction, assume aqui, em seu último filme, caráter redentor. É verdade que isto já ocorria em Bastardos inglórios, quando os vingados eram os judeus. Porém, a liberdade poética que Tarantino toma com a história, nesse último caso, acaba por anular, ou diminuir, em alguma medida, o efeito redentor, mesmo que gostássemos de ver Hitler ser eliminado daquela maneira.

Em Django livre, porém, esse efeito catártico é completo, talvez porque, sendo personagens, de quadrinhos inclusive, a história que contam não é menos real. A crueldade dos senhores de escravos é devidamente castigada. Mesmo com atraso, a mensagem contra o racismo é nítida, e ajuda, no presente, a redimir toda uma parcela da população que ainda sofre, séculos depois, dos malefícios da mentalidade escravocrata.

Tarantino é sabidamente fã de HQs, e cinéfilo a toda prova. As citações são frequentes, e constituem homenagem à história do cinema, e a atores e diretores, começando com John Ford, passando por Sergio Leone, Franco Nero (que faz uma ponta no filme) e Ennio Morricone, que assina a trilha sonora. Assumem às vezes forma de pastiche, mas nem por isso são menos sinceras.

O humor é outra característica de Tarantino, mesmo que esse humor consista, muitas vezes, em levar a violência a um paroxismo que só o riso, nervoso ou não, consegue superar. O filme ilustra, mais uma vez, a tese de Walter Benjamin, de que “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”. Os modos intensamente refinados de Leonardo DiCaprio, o senhor de escravos da fazenda Candyland, contrasta com a extrema brutalidade com que trata seus escravos, suas “peças”, suas “propriedades”. Logo após assistir a uma luta entre escravos, levada até suas últimas consequências — numa evidente alusão à luta livre, em todas suas modalidades – vira-se para seus convidados na mais gentil das maneiras, oferecendo-lhes champanhe e cortesia.

Christoph Waltz, o ator que encenou o nazista extremamente refinado de Bastardos inglórios, volta aqui em papel redentor: alemão, caçador de recompensas e anti-escravocrata. O papel foi escolhido a dedo para libertá-lo da imagem de grande vilão que fez no filme anterior, e que, pour cause, rendeu-lhe o Oscar. Aqui, está mais uma vez magnífico. Por fim, não se pode deixar de mencionar as atuações igualmente marcantes de Jamie Foxx, o protagonista, e Samuel L. Jackson, um ex-escravo “assimilado”.

Deixem os possíveis preconceitos de lado, e assistam ao filme. Mas levem uma toalha para limpar o sangue que escorre da tela. É por uma boa causa.

Luiz Paulo Rouanet