A nova intolerância

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O século XX foi um século que assistiu a algumas das mudanças mais drásticas da história da humanidade, e de maneira mais rápida. Para dizê-lo brevemente, foi um século que experimentou duas guerras mundiais, o desenvolvimento de tecnologias radicalmente novas – a energia nuclear, quer para fins bélicos, quer para fins pacíficos –, o aperfeiçoamento de tecnologias de comunicação à distância (rádio, telex, televisão e Internet), o surgimento de formas de governo inéditas – em especial, o totalitarismo, quer em suas versões comunistas, quer em suas versões nazifascistas etc. Qualquer tentativa de dar conta desse século tão extremo – não por acaso, Hobsbawm, em sua tentativa de compreendê-lo, o apelidou de “Era dos extremos” – é parcial.

A perspectiva que adoto aqui é a de que o século XX foi o novo século da intolerância, só que, desta vez, não mais uma intolerância de caráter religioso, mas uma intolerância de cunho racial e ideológico. Como disse ainda Hobsbawm:

Esse é um dos preços que se paga por viver num século de guerras religiosas, que têm na intolerância sua principal característica. Mesmo os que propalavam o pluralismo de suas não-ideologias acreditaram que o mundo não era grande o bastante para uma coexistência permanente com religiões seculares rivais. Confrontos religiosos ou ideológicos como os que povoaram este século erguem barricadas no caminho do historiador. A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. (Hobsbawm, 1995, pp. 14-15).

Por que esta introdução? Porque tratarei aqui de uma dessas formas de intolerância, a ideológica, que infelizmente continua a assombrar o século XXI. Isto se manifestou por ocasião da recente visita ao Brasil da blogueira cubana Yoani Sánchez. Depois de mais de uma década impedida de deixar seu país, quando finalmente o fez, e escolheu por primeiro destino nosso país, a escritora foi perseguida, atacada, impedida de realizar o lançamento de seu livro em mais de um local. Em suma, foi vítima de perseguição política.

O livro de Yoani Sánchez, De Cuba, com carinho (São Paulo: Contexto, 2009), a cujo lançamento somente agora a autora pôde comparecer, traz uma seleção de postagens de seu blog Generación Y. Este é um dos mais acessados do mundo e rendeu a Yoani prêmios, que ela também não pôde receber. Em janeiro de 2009, atingiu a marca de 14 milhões de acessos! Em seu país, as pessoas não podem lê-la diretamente, na Internet, já que esta tem seu acesso controlado.

Transparece, por trás da leveza de seus textos, a amargura de quem teve sistematicamente, desde pequena, seus direitos mais básicos negados. Ela se considera “covarde”: “meu blog é um exercício de covardia: dizer na rede tudo aquilo que não me atrevo a expressar na vida real” (Sánchez, 2009, p. 3). Covarde? Formada em Letras, defendeu a tese: “Palavras sob pressão: um estudo da literatura da ditadura na América Latina”. Covardia que lhe custou a carreira acadêmica. Por algum motivo inexplicável, a banca viu alguma analogia entre suas análises e aquilo que ocorria na ilha.

Não é a CIA quem a protege, mas seus leitores: “Toda pessoa que lê meus escritos me protege, e só a proteção desses leitores me permitiu chegar até aqui ( “Anatomia de uma ‘Y’”, p. 4). Para postar, a blogueira tem que se virar para conseguir burlar a vigilância estatal:

(…) nossas incursões no terreno da Internet estão marcadas pela ilegalidade. As transgressões acontecem quando alguém compra uma senha no mercado negro para acessar a rede, ou usa uma conexão oficial para entrar em páginas bloqueadas. Eu pertenço a este último grupelho de criminosos, pois há dez anos me dedico a ganhar a vida como professora de espanhol e guia turística, sem ter licença para isso (p. 8).

Apesar disso, o “bacilo da opinião livre” se espalha:

Criamos cópias de nossos blogs para leitores que nunca poderiam conectar-se à teia de aranha mundial, Em shows, exposições, praças públicas, distribuímos nossos textos, sabendo que essa pequena difusão tem como contrapartida um desejo oficial de nos silenciar. Cada cópia entregue é como a inoculação de um vírus de consequências imprevisíveis: o bacilo da opinião livre, a infecção que contraem uns ao ver outros se expressando sem máscaras. Uma sociedade cheia de diques e controles é especialmente suscetível a essa gripe blogueira, sobretudo se a vacina contra ela se baseia nos desgastados métodos de outrora: a difamação, as acusações de que somos fabricados pela CIA e a tentativa de fazer parecer que não somos do “povo”.

Às vezes, o cansaço diante da repressão, o desespero em ver, em seu tempo de vida, ou mesmo para a geração de seu filho, as mudanças desejadas, fazem com que ela quase lance a toalha. Em um de seus melhores textos, “Miopia e astigmatismo”, diz: “Atiro as lentes de meu otimismo pela minha sacada, talvez haja alguém lá embaixo que ainda prefira usá-las, que ainda queira distorcer a realidade com elas” (p. 62). Esse ceticismo, ou melhor, esse realismo, também se manifesta em relação às supostas mudanças do regime: “Trocar os instrumentos não significa muito se a sinfonia interpretada e o velho maestro da orquestra continuam sendo os mesmos” (p. 66).

Criticar o regime adotado em Cuba não significa, é preciso deixar isto claro, elogiar o sistema que existe em outras partes. As separações são impostas pelos regimes, de um lado e de outro, de cima a baixo do planeta. Cabe a nós, cidadãos do mundo, romper essas barreiras, através de nossos textos, nossas manifestações em praças públicas, em Wall Street – aliás, por onde andam esses manifestantes: presos ou simplesmente esquecidos pela mídia? –, em movimentos de “indignados”, em primaveras, árabes ou não, enfim, da forma que pudermos. Em caso contrário, continuaremos a perpetuar a injustiça e a cultivar a intolerância. Encerro por aqui, desejando aos intolerantes de plantão ou de patrulha que por acaso tiverem chegado até este ponto que pelo menos reflitam a respeito: não é hora de acabar com a intolerância, de conferir à liberdade seu sentido pleno?

Leituras sugeridas:

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos – O breve século XX (1914-1991). Trad. Marcos Santarrita. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

SÁNCHEZ, Yoani. De Cuba, com carinho. Trad. Benivaldo Araújo e Carlos Donato Petrolini Jr. São Paulo: Contexto, 2009 (em versão impressa e virtual).

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O papel da memória

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Hoje gostaria de falar sobre a memória, e o seu papel na vida da sociedade. É ela que garante, ou deveria garantir, a continuidade entre as gerações, a transmissão de valores essenciais para a preservação daquilo de bom que a civilização é capaz de proporcionar, bem como os caminhos a evitar. Certa vez, um ancião me disse: “Se encontrar um obstáculo, não o enfrente! Volte para trás, pule, desvie-se dele, mas não o enfrente.”. O que, muitas vezes, pode soar como máximas de conformismo são, na verdade, máximas de prudência, ditadas pela experiência. O mesmo se aplica a uma frase que ouvi de um médico idoso, há muito tempo: “Você precisa aprender a engolir sapos.”. A frase veio solta, ao final de uma consulta, sem qualquer relação aparente com o motivo da consulta.

Pois bem. É assim que vejo o papel das antigas gerações. Elas têm, elas precisam – isto lhes é vital, também, pois confere sentido às suas próprias existências – transmitir aquilo que aprenderam, a fim de aplainar, a fim de tornar o mundo um pouquinho melhor, se possível. Para isso, precisam encontrar ouvidos atentos ao que têm a dizer, e isto nem sempre ocorre.

Existem certas experiências, ligadas a certos grupos, ou a certos momentos históricos, que não encontram outra maneira de serem transmitidas a não ser pelos depoimentos, orais ou escritos, daqueles que as vivenciaram. Existem certas coisas, certos fatos que só quem viveu determinadas situações está em condições de transmitir. O testemunho, pois é disso que se trata, exerce muitas vezes um impacto bem superior à mera descrição “objetiva” de acontecimentos históricos, os quais, por si sós, seriam literalmente inacreditáveis. Casos extremos, como o Shoá (Holocausto), o demonstram fartamente – que se recorde apenas, para ficar em dois exemplos, os livros de Primo Levi, em especial É isto um homem?, e os Diários de Annie Frank. Mas podemos pensar em outras situações, como a ditadura de Pinochet, no Chile. Eu tinha plena consciência, e conhecimento, do duro caráter da repressão na América Latina, e em particular no Chile e na Argentina, durante os duros anos 70 do século passado. Mas foi o depoimento de um guia turístico, no Chile, que me passou os elementos que tornavam mais concreta, mais sensível, esse conhecimento teórico. Disse-me ele:

Ouvia-se todas as noites, quando havia toque de recolher, guinchos de pneus sendo freados, e logo em seguida correria, rajadas de metralhadora, e já sabíamos o que havia acontecido… Nessa época, eu era subtenente da Aeronáutica, e servia no aeroporto. Todas as noites chegavam caminhões com 40 ou 50 pessoas, que eram embarcadas em aviões Hércules que já esperavam na pista, com rampa abaixada e motores ligados. O grupo, em geral liderado por um sargento e composto de recrutas, embarcava os prisioneiros no avião. Lá, eles eram amarrados a cadeiras de rodas, degolados e em seguida seus corpos eram atirados ao mar. Os aviões retornavam vazios. Certa noite, o sargento não foi, e me ligaram dizendo para assumir os procedimentos, pois eu já os conhecia. Eu me recusei. Fui submetido a Corte Marcial, degradado, minha espada foi quebrada na frente de toda a tropa e fui expulso da corporação. Passei anos, depois disso, olhando em baixo da cama à procura de bombas, temendo por minha vida, mas não me arrependo do que fiz. (Depoimento de E., em Santiago, Chile, 2012).

De forma menos dramática, penso que cabe a todos nós a tarefa de transmitir às novas gerações experiências que tivemos, e que em alguns casos, como disse, constituem a única forma de acesso a determinada situação. Por exemplo, minha formação em Filosofia, na USP, contém histórias que não são exclusivamente minhas, mas que fazem parte, uma parte pequena, certamente, da história do Departamento. Histórias como as narradas, por exemplo, por Paulo Eduardo Arantes (O departamento francês de ultramar) ou por Scarlett Marton (A irrecusável busca de sentido). Trata-se de experiência no sentido pleno (Erfahrung), empregada por Walter Benjamin, contraposto à mera vivência (Erlebnis).

As antigas gerações têm o dever moral de educar as novas gerações, e essa educação passa, também, pela transmissão de sua experiência de vida. A experiência integra o conhecimento. Não existe conhecimento meramente “teórico”, pois se entenderia, então, teórico em um sentido demasiado estreito. A teoria pressupõe a prática, como origem e como resultado. Nesse sentido, cabe citar Aristóteles: “(…) se alguém possui, sem experiência, o conhecimento teórico, e conhece o universal, mas ignora seu conteúdo particular, errará muitas vezes na cura, pois é o singular que pode ser curado” (Met. A, 20-23).

Assim, as antigas gerações, entre as quais já me incluo, na medida em que estou na “metade do caminho”, não podem se omitir diante da tarefa de transmitir esses valores às novas gerações, de transmitir, sim, valores morais, valores profundamente vividos, “seus”. “Torna-te o que és!”, dizia Nietzsche. Para isso, talvez seja preciso, pelo menos uma vez na vida, jogar fora todos os valores, a fim de recolher aquilo que realmente merece, e torná-los “teus” valores, valores que, por isso mesmo, devem ser transmitidos.

Sugestões de leituras:

ARIÈS, Philippe. Um historiador diletante. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

ARANTES, Paulo. Um departamento francês de ultramar. São Paulo: paz e Terra, 1994.

FAUSTO, Boris. Histórias de um historiador de domingo. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

FRANK, Anne. Diário de Anne Frank.  18 a. ed. Trad. Alves Calado. Rio de Janeiro, Record, 2003.

LEVI, Primo. É isto um homem? São Paulo: Rocco, s/d.

MARTON, Scarlett. A irrecusável busca de sentido. Cotia – SP/Ijuí – RS: Ateliê Editorial/UNIJUÍ, 2004.

PIERRON, Jean-Philippe. Transmissão – Uma filosofia do testemunho. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Loyola, 2010.