O papel da memória

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Hoje gostaria de falar sobre a memória, e o seu papel na vida da sociedade. É ela que garante, ou deveria garantir, a continuidade entre as gerações, a transmissão de valores essenciais para a preservação daquilo de bom que a civilização é capaz de proporcionar, bem como os caminhos a evitar. Certa vez, um ancião me disse: “Se encontrar um obstáculo, não o enfrente! Volte para trás, pule, desvie-se dele, mas não o enfrente.”. O que, muitas vezes, pode soar como máximas de conformismo são, na verdade, máximas de prudência, ditadas pela experiência. O mesmo se aplica a uma frase que ouvi de um médico idoso, há muito tempo: “Você precisa aprender a engolir sapos.”. A frase veio solta, ao final de uma consulta, sem qualquer relação aparente com o motivo da consulta.

Pois bem. É assim que vejo o papel das antigas gerações. Elas têm, elas precisam – isto lhes é vital, também, pois confere sentido às suas próprias existências – transmitir aquilo que aprenderam, a fim de aplainar, a fim de tornar o mundo um pouquinho melhor, se possível. Para isso, precisam encontrar ouvidos atentos ao que têm a dizer, e isto nem sempre ocorre.

Existem certas experiências, ligadas a certos grupos, ou a certos momentos históricos, que não encontram outra maneira de serem transmitidas a não ser pelos depoimentos, orais ou escritos, daqueles que as vivenciaram. Existem certas coisas, certos fatos que só quem viveu determinadas situações está em condições de transmitir. O testemunho, pois é disso que se trata, exerce muitas vezes um impacto bem superior à mera descrição “objetiva” de acontecimentos históricos, os quais, por si sós, seriam literalmente inacreditáveis. Casos extremos, como o Shoá (Holocausto), o demonstram fartamente – que se recorde apenas, para ficar em dois exemplos, os livros de Primo Levi, em especial É isto um homem?, e os Diários de Annie Frank. Mas podemos pensar em outras situações, como a ditadura de Pinochet, no Chile. Eu tinha plena consciência, e conhecimento, do duro caráter da repressão na América Latina, e em particular no Chile e na Argentina, durante os duros anos 70 do século passado. Mas foi o depoimento de um guia turístico, no Chile, que me passou os elementos que tornavam mais concreta, mais sensível, esse conhecimento teórico. Disse-me ele:

Ouvia-se todas as noites, quando havia toque de recolher, guinchos de pneus sendo freados, e logo em seguida correria, rajadas de metralhadora, e já sabíamos o que havia acontecido… Nessa época, eu era subtenente da Aeronáutica, e servia no aeroporto. Todas as noites chegavam caminhões com 40 ou 50 pessoas, que eram embarcadas em aviões Hércules que já esperavam na pista, com rampa abaixada e motores ligados. O grupo, em geral liderado por um sargento e composto de recrutas, embarcava os prisioneiros no avião. Lá, eles eram amarrados a cadeiras de rodas, degolados e em seguida seus corpos eram atirados ao mar. Os aviões retornavam vazios. Certa noite, o sargento não foi, e me ligaram dizendo para assumir os procedimentos, pois eu já os conhecia. Eu me recusei. Fui submetido a Corte Marcial, degradado, minha espada foi quebrada na frente de toda a tropa e fui expulso da corporação. Passei anos, depois disso, olhando em baixo da cama à procura de bombas, temendo por minha vida, mas não me arrependo do que fiz. (Depoimento de E., em Santiago, Chile, 2012).

De forma menos dramática, penso que cabe a todos nós a tarefa de transmitir às novas gerações experiências que tivemos, e que em alguns casos, como disse, constituem a única forma de acesso a determinada situação. Por exemplo, minha formação em Filosofia, na USP, contém histórias que não são exclusivamente minhas, mas que fazem parte, uma parte pequena, certamente, da história do Departamento. Histórias como as narradas, por exemplo, por Paulo Eduardo Arantes (O departamento francês de ultramar) ou por Scarlett Marton (A irrecusável busca de sentido). Trata-se de experiência no sentido pleno (Erfahrung), empregada por Walter Benjamin, contraposto à mera vivência (Erlebnis).

As antigas gerações têm o dever moral de educar as novas gerações, e essa educação passa, também, pela transmissão de sua experiência de vida. A experiência integra o conhecimento. Não existe conhecimento meramente “teórico”, pois se entenderia, então, teórico em um sentido demasiado estreito. A teoria pressupõe a prática, como origem e como resultado. Nesse sentido, cabe citar Aristóteles: “(…) se alguém possui, sem experiência, o conhecimento teórico, e conhece o universal, mas ignora seu conteúdo particular, errará muitas vezes na cura, pois é o singular que pode ser curado” (Met. A, 20-23).

Assim, as antigas gerações, entre as quais já me incluo, na medida em que estou na “metade do caminho”, não podem se omitir diante da tarefa de transmitir esses valores às novas gerações, de transmitir, sim, valores morais, valores profundamente vividos, “seus”. “Torna-te o que és!”, dizia Nietzsche. Para isso, talvez seja preciso, pelo menos uma vez na vida, jogar fora todos os valores, a fim de recolher aquilo que realmente merece, e torná-los “teus” valores, valores que, por isso mesmo, devem ser transmitidos.

Sugestões de leituras:

ARIÈS, Philippe. Um historiador diletante. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

ARANTES, Paulo. Um departamento francês de ultramar. São Paulo: paz e Terra, 1994.

FAUSTO, Boris. Histórias de um historiador de domingo. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

FRANK, Anne. Diário de Anne Frank.  18 a. ed. Trad. Alves Calado. Rio de Janeiro, Record, 2003.

LEVI, Primo. É isto um homem? São Paulo: Rocco, s/d.

MARTON, Scarlett. A irrecusável busca de sentido. Cotia – SP/Ijuí – RS: Ateliê Editorial/UNIJUÍ, 2004.

PIERRON, Jean-Philippe. Transmissão – Uma filosofia do testemunho. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Loyola, 2010.

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