Os tribalistas

DSC_0171

(Foto de Luiz Felipe Sahd, 23/06/2013)

Creio que para compreender melhor os movimentos que tomaram as ruas do Brasil desde o início de junho é necessário atentar também para sua face “estética”, aí entendidos seus gostos musicais, expressão corporal, vestimentas etc. Em particular, no caso da música, se observarmos algumas letras, não tão novas nem tão antigas, percebe-se um movimento de contestação já em andamento. Gostaria de tomar como exemplo duas delas: “Já sei namorar”, do CD Os tribalistas (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte) e “Minha alma”, de O Rappa. Começo pelo clip de “Já sei namorar”.

http://www.youtube.com/watch?v=smwj7ISnwXM

 

Nota-se um desejo de sair, trata-se de afirmar que já se chegou à idade adulta, mas que os padrões da antiga geração não satisfazem mais:

“Já sei namorar

Já sei beijar de língua
Agora, só me resta sonhar
Já sei onde ir
Já sei onde ficar
Agora, só me falta sair”

Nesse sentido, poderia ser tomado como o primeiro sinal de que algo não vai bem, mas essa transição é dita tranquilamente, com segurança. Que o comportamento passivo e tradicional não será mais aceito fica claro na sequência:

“Não tenho paciência
pra televisão
Eu não sou audiência
para a solidão”

É preciso ir às ruas, tomando o que é seu, a começar pelo próprio corpo. É uma geração que já incorporou a revolução sexual, e agora está em outra etapa, de viver confiantemente sua própria sexualidade, como parte de um conjunto. Essa afirmação de auto-determinação ganha contornos atuais, quando se recorre a imagens futebolísticas:

“Já sei namorar
Já sei chutar a bola
Agora, só me falta ganhar
Não tenho juiz
Se você quer a vida em jogo
Eu quero é ser feliz”

Fica claro, também, que a vida vai bem além de um jogo de futebol, seja na frente da televisão, seja em um campo de futebol ou mesmo em uma pelada na rua. Já não há espaço para “peladas”, as ruas foram tomadas por carros, violência e poluição. Trata-se de reconquistar esse espaço, trata-se de buscar a felicidade. Por fim, a utopia de um mundo mais justo, em que “ninguém seja de ninguém” e “todos de todos”, ecoa no estribilho:

“Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também.”

A outra música que quero analisar aqui é a de O Rappa, “Minha alma”. Esta tem um tom mais agressivo, à altura da realidade da periferia, e também apropriada a outro segmento, mais combativo, das mesmas manifestações. Não estou me referindo aos atos de vandalismo, mas ao enfrentamento com a polícia. A repressão, para esse setor, é cotidiana. O clip da música foi bastante difundido, e suas imagens complementam de maneira chocante o seu conteúdo de contestação social. Pode-se assistir ao vídeo no seguinte link:

http://www.youtube.com/watch?v=vF1Ad3hrdzY

Vejamos a letra:

“A minha alma tá armada
E apontada para a cara
Do sossego
Pois paz sem voz
Paz sem voz
Não é paz é medo”

Trata-se, ao mesmo tempo, de uma denúncia e de uma ameaça. A situação chegou ao limite, não é possível mais tolerar, passivamente, a violência recebida, todos os dias, dos traficantes, da polícia, a discriminação, a marginalização. É preciso gritar, é preciso soltar a voz, pois “Paz sem voz/ Não é paz é medo”. A paz não é um valor a qualquer custo, mesmo porque a violência nos escolhe, nos encontra:

“Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
Qual a paz que eu não quero
Conservar
Para tentar ser feliz”

Aqui, a felicidade buscada tem um preço, o preço da prisão, seja por trás ou na frente das grades. Estamos todos presos, presos a uma paz conseguida ao custo do conformismo, da cegueira à injustiça e à desigualdade.

“As grades do condomínio
São para trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que está nessa prisão”

Outra vez, a crítica à passividade, já presente na música anterior, faz-se ouvir:

“Me abrace e me dê um beijo
Faça um filho comigo
Mas não me deixe sentar
Na poltrona no dia de domingo, domingo”

Qualquer coisa é preferível do que ficar sentado “Na poltrona no dia de domingo”, assistindo aos programas de auditório, aos programas sensacionalistas ou amortecedores. A televisão quer incorporar tudo, reduzir todos a espectadores passivos, protestando, indignados, na frente do aparelho, “Procurando novas drogas/ De aluguel nesse vídeo”. Droga televisiva, ou droga nas ruas, ambos vias de escape de uma realidade que não pode ser suportada, que não pode ser encarada. Assim, é preferível encarar as ruas, e os cassetetes, escudos e balas de borracha (ou não) da polícia, a aceitar passivamente essa realidade massacrante:

“Coagido é pela paz
Que eu não quero
Seguir admitindo
É pela paz que eu não quero, seguir”

Não se trata, então, de “vandalismo”, mas de revolta social. É claro que não é o caso de todos. Há efetivamente pessoas mal intencionadas que se aproveitam da confusão para saquear, depredar, agredir, mas o impulso que leva às ruas é legítimo, é expressão de uma realidade que não pode mais ficar oculta, ou ser dissimulada, pela televisão. Os “meios de comunicação de massa” tornaram-se agora, principalmente com as redes sociais, mais democráticos, uma via de mão dupla. Não há mais somente espectadores passivos, mas cidadãos atuantes, inteligentes, e que querem fazer ouvir sua voz. Saibamos ouvi-la.

Luiz Paulo Rouanet

Barbárie ou civilização

Barbárie ou civilização?

CIMG1920

Já se disse (Lévi-Strauss) que o Brasil passou da barbárie à decadência, sem passar pela civilização. Dir-se-ia, à luz das recentes manifestações e atos de vandalismo, que o país se encontra na encruzilhada: ou retorna à barbárie, ou caminha para a civilização.

Desde o começo de junho, o país tem assistido a uma onda – e o nome é emblemático, para quem assistiu ao filme de mesmo nome – de protestos e manifestações, tendo por motivação inicial o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, mas estendendo-se rapidamente a outras cidades e incorporando outras reivindicações, algumas pontuais, outras mais vagas.

Creio que o momento culminante, e que serviu como catalizador para que o movimento se espalhasse de maneira viral por outras cidades, foi o protesto da quinta-feira, dia 13/06, que foi violentamente reprimido pela polícia de São Paulo. Mesmo pessoas que se posicionavam contra ele ficaram revoltadas com a reação, considerada desproporcional, da polícia, e aderiram aos protestos. O mesmo aconteceu no Rio, Brasília e hoje atinge quase todos os Estados e principais cidades brasileiras.

Se aceitarmos que, em nosso processo de constituição, não atingimos de fato o estágio da civilização – o que pode ser problemático, mas não irei discuti-lo aqui -, então temos a oportunidade, agora, de refundar o pacto político, reformando as instituições de modo a permitir que elas efetivamente sirvam à causa da população brasileira, sendo instrumentos de avanço social, promoção de igualdade e distribuição de renda, tornando efetivamente o Brasil um país mais justo.

A alternativa, caso se ceda, de um lado, às hordas da destruição, aos criminosos oportunistas que se aproveitam da situação de caos para promover depredações e roubos, e de outro, às massas reacionárias, amorfas que, antes indiferentes, agora aderem de modo cego e indiscriminado, lutando por propostas na maior parte das vezes vagas, a alternativa, digo, é a barbárie.

No primeiro caso, faz-se necessária uma profunda reforma – a menos que se pense numa revolução – do sistema político, incluindo os braços executivo, legislativo e judiciário. Essas instituições encontram-se inchadas, e a consequência é a paralisia. O saudoso pensador anarquista Maurício Tragtenberg dizia que as instituições surgem para servir a uma causa, mas acabam funcionando para sustentarem a si próprias. A sua estrutura cresce tanto que elas passam a operar tendo em vista a própria existência. Então, se isto for verdade, elas precisam ser periodicamente renovadas, ou recriadas.

Tivemos, nesse sentido, alguns momentos fundacionais. A começar, pela própria Independência, precedida pelo “dia do Fico”. Em seguida, a proclamação da República, embora, segundo alguns, este tenha sido mais um pacto de elites do que popular – a população teria assistido “abestalhada” a esses acontecimentos. A Revolução de 30, com a ascensão de Getúlio Vargas e o subsequente Estado Novo, pode ter sido outro desses momentos fundacionais, mais uma vez, porém, de cima para baixo. Considerando que o golpe de 64 atuou mais no sentido da barbárie do que da civilização, outro momento fundacional foi a Constituinte de 1988. O problema estrutural deste último momento é que os deputados, eleitos para elaborar e aprovar a constituição, em seguida transformaram a si próprios em corpo legislativo, o que gerou um vício de origem que pode estar por trás de muitas das dificuldades que hoje enfrentamos.

Então, para resumir, seria preciso refundar as principais instituições do país. Reduzir os seus quadros, a fim de tornar a máquina mais operacional, não significa aderir à tese do “Estado mínimo”. Um Estado com um corpo de funcionários mais reduzido não precisa, por isso, ter uma participação menor nos investimentos em infraestrutura no país: pelo contrário. O enxugamento da máquina pode propiciar um aumento de recursos para as finalidades sociais. A mesma redução, e modernização, teria que ser feita também no Legislativo e no Judiciário. Seria preciso repensar os mecanismos de representação e proporcionalidade, de modo a adaptá-los para o país atual, com suas novas exigências de potência “emergida”, com sua sede de informações e transformações. Em relação ao judiciário, é preciso também reformar suas estruturas, tornando-a mais ágil. É inaceitável que processos se estendam por décadas, extinguindo-se por prescrição ou morte dos réus.

Não se trata, portanto, de uma proposta “liberal”, em qualquer dos sentidos que se queira dar ao termo. Reformista ou revolucionária, a proposta, caso se queira manter o jargão dos anos 60 do século passado, o importante é que é preciso levar a sério as motivações que levaram as pessoas às ruas. Barbárie ou civilização? É este o dilema diante do qual nos encontramos. Ou “aproveitamos” o momento, como disse a Presidente Dilma Rousseff em pronunciamento em rede nacional (21/6), para acelerar as mudanças de que o país precisa, no sentido de reforçar ou criar a infraestrutura necessária nos campos da saúde e da educação, ou cedemos às forças da reação, que no caso, inconscientemente, se aliam às hordas da selvageria e do atraso. Parafraseando Mario de Andrade, poderíamos trocar as “saúvas” pela saúde: “A saúde e a educação, os males do Brasil são.”. A questão da segurança, que também nos preocupa no dia-a-dia – e muito – é decorrente da ausência dessas duas condições, especialmente da segunda.

Luiz Paulo Rouanet