Black Blocs, Copa e referendo

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(Foto Luiz Felipe Sahd)

A Copa está aí, é um fato. O dinheiro foi e ainda está sendo investido, agora não há mais como recuar. Fui contra a realização da Copa, mas agora é tarde para detê-la. No entanto, as manifestações de 2013, e os recentes atos dos Black Blocs me fazem repensar a questão a uma nova luz.

Em primeiro lugar, passou o momento para impedir a realização da Copa. Não será agora, com atos violentos, depredação, intimidação que se impedirá sua realização. Na verdade, essas manifestações não apresentam mais caráter democrático. Nem sequer representam a vontade da maioria da população. O que se vê são eventos isolados, com poucos manifestantes – comparados com os milhões das manifestações de junho de 2013 – e com apoio cada vez menor por parte da população.

No entanto, tanto as manifestações do ano passado quanto os eventos recentes podem levantar a questão de um mecanismo de consulta mais amplo, este sim verdadeiramente democrático. Em que medida o governo poderia ter prevenido ou diminuído a intensidade e o tamanho das manifestações caso tivesse submetido a decisão sobre a realização da Copa – e da Olimpíada – se tivesse efetuado um referendo a respeito? Que isto sirva de lição, e de advertência, aos atuais e aos futuros governantes: a população não aceita mais ficar à margem das decisões, ela quer participar, o mero voto a cada dois anos não é suficiente para dar vazão à sede de participação da população brasileira!

Quanto aos Black Blocs, estes perderam sua legitimidade. Na verdade, se quiserem mudar sua imagem, precisam investir numa campanha de relações públicas, sem falar em mudar efetivamente sua maneira de agir. Alguns deles parecem garotos mimados. Atacam a polícia, depredam patrimônio público e privado, apelam para a violência explícita, com explosivos, armas – brancas ou não – agressões, e quando há um revide da força policial, correm para os pais, para os defensores públicos, alegando violência policial. Alguém que reage à polícia, seja com arma branca ou não, deve estar preparado para uma reação, que nem sempre é proporcional, no calor da luta. Além do rapaz que foi baleado e está em estado crítico – no momento em que escrevo -, caso no qual deve ser apurado se a ação da polícia foi adequada, mesmo que o rapaz tenha reagido com um estilete, há o caso de um que foi espancado no Hotel Lindsor (ver http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,policia-chegou-batendo-em-todo-mundo-conta-estudante-vinicius-duarte,1123219,0.htm). Bom, além de ter atirado pedra contra PM, ele ainda parece ter agredido com um soco o sargento que tentava detê-lo. No entanto, a família pensa em processar o Estado. Como eu dizia, parece o garoto que provoca alguém maior e depois corre para o irmão mais velho ou para o pai para se defender.

Creio que essas ações revelam excesso, primeiro, dos Black Blocs, e em segundo lugar, da polícia, que parece despreparada para lidar com movimentos civis, dando a todos o mesmo tratamento. Como quer que seja, o foco deste artigo é que: 1) os manifestantes precisam repensar suas estratégias: a violência, a depredação, além de não serem democráticos, não levam a nada, não produzem resultados práticos; 2) os governantes precisam desenvolver mecanismos de consulta popular mais amplos, e mais ágeis – a Internet propicia isto – em casos que afetem o país todo, como é a decisão de sediar dois eventos caros num curto período de tempo, quando as necessidades do país são tantas. Consultada, a população pelo menos poderia dizer que concordou, ou não, com a realização desses eventos, o que esvaziaria essas manifestações, ou pelo menos as conduziria para outros alvos.

Tudo parece se tratar, então, de uma crise democrática. Um país que está crescendo, e amadurecendo, mas que ainda não aprendeu de fato a lidar democraticamente com seus desejos e aspirações.

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