Anomia social

Anomia social

 

O Brasil vive hoje um estado de anomia social. O que significa isso? Significa que vivemos numa sociedade na qual não existem leis, ou elas existem e não são cumpridas. Isto se manifesta em todas as esferas da vida social, mas faz-se sentir especialmente num setor: o da segurança.

A sensação de insegurança que se tem nas grandes cidades, e também nas pequenas, é real. Estatísticas mostram que o número de latrocínios se multiplicou drasticamente no primeiro trimestre de 2014. No que se refere ao Estado de São Paulo, por exemplo, houve aumento de 33% em relação ao primeiro trimestre do ano passado (fonte: O Estado de São Paulo, 25/4/2014 http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,sp-registra-recorde-historico-de-roubos,1158590,0.htm).

Desconfio, porém, que o aumento dos roubos seguidos de morte – descontados, portanto, os roubos que não resultaram em mortos, mesmo que tenham sido realizados com armas, isto é, com violência – não resultam somente de fatores econômicos. Uma vez que o país tem tido crescimento, embora pequeno, e diminuiu radicalmente a porcentagem de pessoas em situação de pobreza absoluta – de 33% em 2000 a cerca de 4% atualmente –, é de se concluir que esse aumento se deve a outros fatores.

Minha tese, que pode soar moralista, é que o aumento da violência se deve a questões éticas ou, melhor dizendo, a uma questão de ethos. Há, evidentemente, uma crise de valores. O crescimento econômico não tem sido acompanhado de uma melhoria de setores básicos, como os de saúde, segurança e educação. Os protestos de junho de 2013 se relacionavam em grande parte a essas questões.

Isto talvez se deva, em parte, ao modelo econômico adotado, que tem privilegiado o aumento do consumo, gerando uma sensação de aumento da inclusão. No entanto, na medida em que não se investe adequadamente nos setores de infraestrutura, esse aumento da renda se revela ilusório. Reproduzimos, internamente, o erro de nossos antigos colonizadores portugueses, que retiraram o ouro do Brasil e o transferiram para outros países, em especial a Inglaterra, encontrando-se ao final falidos e sem nada de concreto. O que restou do outrora poderoso império ultramarino português?

Há poucos dias, houve o assassinato do coronel Paulo Malhães, militar aposentado que admitiu ter torturado e matado várias pessoas, durante a ditadura militar, no âmbito da “política de repressão” do Estado. Cerca de um mês depois de ter dado seu chocante depoimento na Câmara dos Deputados, foi encontrado morto em seu sítio, depois de uma invasão, cujos motivos se ignoravam. Supôs-se que houvesse motivações políticas. Teria um grupo de ex-guerrilheiros, ou parentes de vítimas, ou pessoas a seu mando, executado o coronel? Depois das primeiras investigações, no entanto, tudo leva a crer que se tratou mesmo de latrocínio, cometido pelo ex-caseiro e seus irmãos. Não está descartada a participação de membros da família do coronel. Não parece haver, portanto, motivos políticos. Trata-se de mais um caso a engrossar as estatísticas de latrocínios. (Cf. O Estado de São Paulo, 30/4/2014 http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,caseiro-de-coronel-confessa-participacao-em-crime,1160324,0.htm).

Quando disse tratar-se de uma questão de ethos, refiro-me a certos princípios ou valores básicos que parecem estar em falta em nossa sociedade. Por exemplo, a ideia de que matar, roubar, são coisas erradas, seja em qual nível for. Por um lado, não parece haver coerção suficiente para forçar as pessoas a seguirem as leis. Por outro, e talvez mais importante, as pessoas não parecem estar convencidas da necessidade de se cumprir as leis. E isto, a meu ver, é o mais grave. Se não houver essa convicção, polícia nenhuma do mundo será capaz de forçar as pessoas a seguirem as leis. É o velho problema que Rousseau chamava de problema da quadratura do círculo em política: “como dar leis mesmo a um povo de demônios?”.

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