Considerações sobre a conjuntura política pós-eleições

Estas considerações foram apresentadas durante debate ocorrido no XVI Encontro Nacional da ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia), no dia 28/10/2014.
Em primeiro lugar, gostaria de considerar que, independentemente do resultado das últimas eleições presidenciais no Brasil, o país deu mostras, mais uma vez, de maturidade democrática. Mais uma vez porque, desde que a democracia foi reinstaurada, de maneira inicialmente incompleta, com a eleição indireta de Tancredo Neves e, após sua morte antes de tomar posse, a efetivação no cargo de seu vice, José Sarney, líder durante muito tempo da Arena, o partido governista durante a ditadura, passando pela eleição direta do primeiro presidente civil após o golpe – Fernando Collor de Mello – e seu impeachment, com a posse de seu vice, Itamar Franco, tudo isso se deu dentro da ordem legal e democrática. O país tem demonstrado, assim, nos últimos 30 anos, firme compromisso com a democracia.
Em suma, minha posição é que as últimas eleições, de outubro deste ano, demonstraram esse compromisso da nação, como um todo, com a manutenção das regras do jogo democrático. É verdade que houve exaltação, de parte a parte dos militantes ou simpatizantes dos dois principais partidos que chegaram ao segundo turno.
Este momento é de passar por cima das diferenças, numa espécie de “overlapping consensus” (“consenso por sobreposição”), na expressão de John Rawls. É hora de olhar propositivamente para o que deve ser feito.
Isto não significa que governo e oposição trabalharão juntos, de mãos dadas, como deu a entender Marina Silva em determinado momento da campanha, no primeiro turno. Significa que, cada um em seu papel, oposição e governo procurarão enfrentar os problemas que realmente existem: pequeno ou quase nulo crescimento econômico do país – o pior entre os BRICS -, a inflação, ainda pequena, mas preocupante, o déficit do balanço comercial, o superendividamento de parcela expressiva da população, leve aumento do desemprego, principalmente entre jovens, para citar apenas alguns pontos.
Por seu lado, a oposição deve focar nesses pontos, de maneira específica, clara, articulada, e cobrar o governo para que repense seu modelo econômico de modo a fazer face a esses problemas. E exigir a apuração das denúncias de corrupção, especialmente envolvendo a Petrobrás. Não se pode perder esse patrimônio: a Petrobrás, em 2013, era a companhia mais endividada do mundo, considerando seu faturamento. É preciso recuperá-la.
Por outro lado, o governo deve rever sua estratégia de crescimento, ainda que acoplada a seus propalados – e efetivos, também – objetivos sociais, a fim de gerar um “desenvolvimento sustentável”, não só do ponto de vista ambiental – grande ausente do discurso dos dois principais candidatos que chegaram ao segundo turno, mas central na plataforma da candidata derrotada Marina Silva -, como também social. É preciso atender à dupla necessidade de diminuição da pobreza – neste ponto, o país avançou bastante; a meta, agora, é combater a pobreza moderada – e um desenvolvimento que leve em conta a vida das futuras gerações, e não me refiro apenas à espécie humana, mas de todas as espécies com as quais convivemos.
Por fim, não se trata de propor panaceias, mas de se partir da realidade visando ampliar e consolidar conquistas, que foram muitas, aplicando o que John Rawls chamava de “realismo utópico”: trata-se de estender as condições do realisticamente possível.

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Meio ambiente: o que estamos dispostos a fazer?

Vivemos, aparentemente, numa época individualista, imediatista, para ficar apenas nesses dois adjetivos. Isto se manifesta, especialmente, em nossa relação com o meio ambiente. Entendo por meio ambiente não só a “natureza”, aquela entidade cada vez mais distante, e identificada em nosso imaginário a florestas e oceanos, mas o ambiente que nos cerca, inclusive o humano. Não é outro o significado do termo “sustentabilidade”, o qual prevê relação entre o homem e o meio ambiente tal que propicie tanto a preservação das espécies da fauna e da flora, como das condições apropriadas para o florescimento da vida humana saudável.

Para começar com o individualismo, vivemos em uma sociedade na qual as pessoas se comportam como se estivessem isoladas umas das outras, quando é bem o contrário que ocorre. Todas as nossas ações têm consequências, vivemos em um sistema “complexo”, para falar como Morin (Morin, 1977). Pode-se pensar na imagem da água. Ao jogarmos uma pedra na água, ela provoca ondas, em círculos concêntricos, afetando todas as moléculas à sua volta. O Tsunami é um exemplo em macro-escala desse fenômeno. Um exemplo mais simples, e poético, vem do monge vietnamita Thich Nhat Hanh: “Uma flor nunca pode existir isoladamente. Uma flor conta com muitos elementos não flores para poder se manifestar” (Hahn, 2009, p. 38).

Mas as pessoas parecem se esquecer disso. Isto está presente na modalidade: “Eu pago meus impostos, então tenho direito de fazer isso” (por exemplo, ter cinco carros na garagem, em uma família de 4  pessoas). O irônico é que muitos desses que dizem “pagar os impostos”, de fato sonegam, sempre que podem. “Mas todos fazem isso…”, seria a resposta padrão nesses casos. O que vemos, na prática, são carros – muitos carros – com uma pessoa só. As pessoas nesses carros xingam-se reciprocamente por não conseguirem chegar a tempo, devido ao excesso de carros.

Usualmente, culpa-se o governo, o “outro”, pelos problemas enfrentados no cotidiano. Por exemplo, elas podem se queixar da sujeira nas ruas, esquecendo do papel ou outros objetos jogados pela janela, e apontando a corrupção, a falta de educação das pessoas, os moradores de rua como responsáveis por esse estado de coisas. Não se toma o cuidado, em geral, de olhar para dentro de si mesmo, para seu comportamento cotidiano, a fim de fazer, pelo menos, sua parte. A reação adversa ao rodízio de carros, ou ao uso de sacolas recicláveis, faz parte dessa mentalidade. Em outros termos, todos têm consciência de que algo não vai bem, no plano ambiental, mas poucos estão dispostos a colaborar, com suas atitudes, seus pequenos gestos, a mudar efetivamente o meio.

Precisamos nos habituar a cultivar um estado mental calmo, a mudança começa por aí. O meio ambiente será reflexo do estado mental das pessoas, que irá se refletir nas relações com animais, com a natureza, o que reverterá para uma melhoria de nossas condições de vida.

No que concerne ao imediatismo, este é o desejo de que as coisas que queremos se realizem agora, no curto prazo. Não estamos dispostos a abrir mão de certos “confortos”, de certos hábitos, a fim de melhorar, no médio, e até no longo prazo, as condições de vida para todos. Aqui, a frase de Keynes – “a longo prazo, estaremos todos mortos” – adquire novo sentido: de fato, nós, a nossa geração, possivelmente não estará viva no longo prazo, mas nossos filhos, e os filhos deles, assim esperamos, estarão. Mas, em que condições? É hora de pensar não só numa perspectiva imediata, para nossa época, mas para um futuro próximo. Devemos fazer-nos a pergunta: que mundo legaremos a nossos descendentes? (Cf. Perret, 2011). Por falar nisso, recomendo o belo filme estrelado por George Clooney (“Os descendentes”), candidato ao Oscar deste ano.

Então, para darmos uma chance ao meio ambiente, a nós mesmos e a nossos filhos, precisamos mudar desde já nossa mentalidade. Para combater o individualismo, devemos nos lembrar que fazemos parte de um todo, e que nossas ações se refletem nas ações à nossa volta. Se somos agressivos no trânsito, sujamos a calçada ou deixamos de pagar os impostos – lembrando, com Kant, que podemos discutir a pertinência ou legitimidade de determinado imposto, mas não deixar de pagá-lo – estamos colaborando para a piora de nosso meio. Pelo contrário, se ajudamos o próximo, se somos gentis, se cumprimos nossas obrigações, estamos contribuindo para uma melhora de nosso ambiente. Para combater o imediatismo, é preciso pensar nas próximas gerações, pensar que não estamos sozinhos: no espaço, dado que ainda dividimos o planeta com outros seres vivos, e no tempo, considerando que nossas ações terão impacto na vida das gerações futuras.

Indicações:

Livros:

Hahn, Thich Nhat. Corpo e mente em harmonia – Andando rumo à iluminação. Trad. Gisele Senne de Moraes. Petrópolis: Vozes, 2009.

Morin, Edgar. La méthode. 1. La Nature de la Nature. Paris: Seuil, 1977.

Perret, Bernard. O capitalismo é sustentável? Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Cia. das Letras, 2011.

Kant, Immanuel. Resposta à pergunta: “O que é o Esclarecimento?”. Trad. Luiz Paulo Rouanet. Brasília: Casa das Musas, 2008.

Filme:

Os descendentes. Dir. Alexander Payne. EUA, 2012.