Anomia social, novamente

Há algum tempo postei aqui um texto sobre anomia social (https://algumafilosofia.wordpress.com/2014/05/01/anomia-social/). Volto ao tema, pois o comportamento de muitos indivíduos na sociedade – ignoro, agora, as estatísticas – revela a ausência de valores básicos, como o respeito à vida e o princípio da não-agressão, especialmente no que se refere aos mais frágeis. Por que digo isso?

Como espectador ocasional, destaco três cenas de agressões mostradas pelos jornais da TV. Minha intenção não é chocar ninguém, mas discutir esses casos como indicativos de uma patologia social mais abrangente.

Cena 1: a câmera mostra um carro parando em uma garagem e, logo, depois, um outro encostando a seu lado. Somos informados, pela jornalista que narra a notícia que se trata da sequência de uma briga de trânsito. Do segundo carro, desce um sujeito grandalhão, de chinelos, que dá a volta e atinge o idoso por trás, com uma pancada bastante violenta. O idoso cai no chão e permanece deitado. A senhora que acompanha o senhor atingido parte para cima do agressor, que a ignora, volta a seu veículo e vai embora. O atacante, da cidade de Joinville – SC, foi identificado e deve responder a processo.

Cena 2: Um funcionário do metrô de São Paulo atinge com uma bofetada uma mulher com quem discutia e a quem tinha retirado do vagão após esta se recusar a levantar do chão, onde estava sentada. O homem é contido pelos colegas e outros presentes. Informa-se que o funcionário foi afastado de suas funções.

Cena 3: Ao atravessar uma avenida movimentada em Campinas – SP, um idoso de 90 anos é abordado por um homem que segura o seu braço e anuncia o assalto: caso não atenda a suas exigências, o homem ameaça jogá-lo no meio dos carros. O idoso alega estar sem dinheiro, leva o assaltante até o seu apartamento e lhe paga em cheque! Este caso é verídico, pois ocorreu com pessoa próxima a mim.

Analisemos agora estas situações. O que há de comum entre elas? Trata-se, nos três casos, de situações de violência na qual uma das partes é claramente mais forte do que a outra. O crime é cometido sem possibilidade de defesa, e por motivo torpe ou banal.

Parece-me que falta, nos três casos, o chamado “contensor social”, que é aquele mecanismo que impede que a maioria de nós saia agredindo ou matando aos outros no dia a dia. Pode-se dizer que esse “contensor” funciona razoavelmente, uma vez que não nos matamos habitualmente nas ruas. Esta violência é uma exceção. Mesmo assim, é algo que tem aumentado em volume e intensidade nos últimos anos.

A intenção deste artigo é justamente discutir essa anomalia e refletir sobre as maneiras de se evitar que ela se intensifique. Não parece provável que o motivo desta falta de valores seja a educação básica. Parece-me, e aqui assumo uma postura que pode ser considerada conservadora, que faltam valores que usualmente são transmitidos, ou deveriam ser transmitidos, no meio familiar. Trata-se do tipo de conselho que um pai, ou uma mãe, deve dar a seus filhos: “Nunca bata em mulher”; “Respeite os mais velhos”; “Proteja os mais fracos”, e assim por diante.

Pergunto-me se, por trás desse fenômeno, que continuo chamando de “anomia social”, não está uma crise de valores . Não me refiro aqui, necessariamente à mítica família mononuclear, mas a qualquer núcleo familiar estruturado: a identidade sexual ou de gênero dos participantes da família não importa. O que importa é que haja esta convivência entre adultos responsáveis e crianças em fase de formação. Que haja um acompanhamento dos pais, no sentido psicológico do termo (parents, parenthood), que devem perguntar como foi o dia da criança, que problemas ela enfrentou, o que fez durante o dia etc. É nesses momentos que o adulto pode aconselhar a criança, e ajudar a formar valores que, de outra forma, não surgirão. Uma das causas da psicopatia é a ausência desse vínculo parental. Precisamos decidir se queremos criar cidadãos ou, pelo contrário, deixar que a sociedade se torne, cada vez mais, louca.

Feliz Natal e um melhor 2018 para todos!

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O tempo como principal mercadoria do capitalismo

O tempo é o bem mais precioso de que dispomos. É este bem que determina nossa vida, quem somos, como vamos desenvolver essa vida, com quem nos relacionamos, qual a qualidade de nossa existência. É a administração desse bem que nos define como pessoas. É esse bem que é cobiçado pelo capitalismo, ou como quer que se chame o sistema no qual se insere, hoje, a maior parte da humanidade.
Quando crianças, este tempo nos pertence, até certo ponto. Vivemos, por assim dizer, no presente. Apreciamos cada momento: encantamo-nos com as formigas, com as borboletas, com os pássaros, brincamos com cachorros, gatos, pulamos no rio, no mar, na piscina. Não nos sentimos culpados por “desperdiçar” nosso tempo.
Será que é mesmo um desperdício? Ou será que o desperdício é aquele que tempo que gastamos, durante a maior parte de nossa vida, fazendo algo que não nos agrada, ou cuja exigência não partiu de nós mesmos? A alienação consiste, propriamente, na perda do controle desse tempo. Ele não mais nos pertence, mas pertence ao mundo. Passamos grande parte de nossa vida “ativa” realizando tarefas que nos são impostas de fora. Trabalhamos, em geral, para sustentar gastos que não teríamos se não tivéssemos de trabalhar. Além disso, o capitalismo, que consiste na somatória dessas vontades alienadas, procura inserir novas “necessidades”, aumentando assim a dependência que temos desse trabalho.
É claro, é preciso viver, é preciso comer, morar, locomover-se. O difícil é distinguir as necessidades que são realmente essenciais daquelas que são impostas pelo capital, e que são usualmente absolutamente superficiais e desnecessárias. Há a necessidade, por exemplo, de se atualizar, de buscar informações para entender o mundo em que se vive. Esta, eu qualificaria de necessidade essencial, ao lado das primeiras citadas neste parágrafo. Sem elas, por exemplo, não seria possível escrever este texto. Obviamente, não é uma necessidade que se supre de uma hora para a outra, mas leva, muitas vezes, uma vida para se construir. Já se disse (Aristóteles) que a filosofia necessita do ócio. Trata-se deste ócio que permite um distanciamento do tempo alienado, que permite a re-flexão. É preciso, como já sabiam os gregos, conhecer-se a si mesmo, voltar-se para dentro de si para reencontrar os elementos que são realmente essenciais para o bem viver.
O bem viver, este, afinal, o objetivo da vida. Assim o consideraram alguns filósofos que foram também sábios, e que não foram tantos assim: Sócrates, Epicuro, Agostinho. Talvez se possa pensar em alguns outros, mas estes são os prógonos. Os demais, Platão e Aristóteles incluídos, são epígonos. O que não retira sua importância, obviamente, pois era preciso compreender o que aqueles pioneiros intuíram. Porém, a mensagem essencial era bem mais simples: é preciso buscar a felicidade. Para isso, é preciso ter controle sobre o próprio tempo. E é isto que o atual sistema no qual vivemos procura, constantemente, retirar-nos.
Recuperemos o tempo. Para fazer isso, precisamos nos desligar de tudo aquilo que não seja realmente essencial, que seja imposto, que seja necessidade artificial. O objetivo primário é atender às necessidades básicas de alimentação e moradia. Em seguida, vêm as necessidades com vestuário, educação, cultura, saúde. Quanto ao resto, devemos nos perguntar: é realmente importante? Vale a pena “gastar” o meu tempo com isso? Ou representa, justamente, a alienação daquele tempo que nos é essencial para bem viver?