O tempo como principal mercadoria do capitalismo

O tempo é o bem mais precioso de que dispomos. É este bem que determina nossa vida, quem somos, como vamos desenvolver essa vida, com quem nos relacionamos, qual a qualidade de nossa existência. É a administração desse bem que nos define como pessoas. É esse bem que é cobiçado pelo capitalismo, ou como quer que se chame o sistema no qual se insere, hoje, a maior parte da humanidade.
Quando crianças, este tempo nos pertence, até certo ponto. Vivemos, por assim dizer, no presente. Apreciamos cada momento: encantamo-nos com as formigas, com as borboletas, com os pássaros, brincamos com cachorros, gatos, pulamos no rio, no mar, na piscina. Não nos sentimos culpados por “desperdiçar” nosso tempo.
Será que é mesmo um desperdício? Ou será que o desperdício é aquele que tempo que gastamos, durante a maior parte de nossa vida, fazendo algo que não nos agrada, ou cuja exigência não partiu de nós mesmos? A alienação consiste, propriamente, na perda do controle desse tempo. Ele não mais nos pertence, mas pertence ao mundo. Passamos grande parte de nossa vida “ativa” realizando tarefas que nos são impostas de fora. Trabalhamos, em geral, para sustentar gastos que não teríamos se não tivéssemos de trabalhar. Além disso, o capitalismo, que consiste na somatória dessas vontades alienadas, procura inserir novas “necessidades”, aumentando assim a dependência que temos desse trabalho.
É claro, é preciso viver, é preciso comer, morar, locomover-se. O difícil é distinguir as necessidades que são realmente essenciais daquelas que são impostas pelo capital, e que são usualmente absolutamente superficiais e desnecessárias. Há a necessidade, por exemplo, de se atualizar, de buscar informações para entender o mundo em que se vive. Esta, eu qualificaria de necessidade essencial, ao lado das primeiras citadas neste parágrafo. Sem elas, por exemplo, não seria possível escrever este texto. Obviamente, não é uma necessidade que se supre de uma hora para a outra, mas leva, muitas vezes, uma vida para se construir. Já se disse (Aristóteles) que a filosofia necessita do ócio. Trata-se deste ócio que permite um distanciamento do tempo alienado, que permite a re-flexão. É preciso, como já sabiam os gregos, conhecer-se a si mesmo, voltar-se para dentro de si para reencontrar os elementos que são realmente essenciais para o bem viver.
O bem viver, este, afinal, o objetivo da vida. Assim o consideraram alguns filósofos que foram também sábios, e que não foram tantos assim: Sócrates, Epicuro, Agostinho. Talvez se possa pensar em alguns outros, mas estes são os prógonos. Os demais, Platão e Aristóteles incluídos, são epígonos. O que não retira sua importância, obviamente, pois era preciso compreender o que aqueles pioneiros intuíram. Porém, a mensagem essencial era bem mais simples: é preciso buscar a felicidade. Para isso, é preciso ter controle sobre o próprio tempo. E é isto que o atual sistema no qual vivemos procura, constantemente, retirar-nos.
Recuperemos o tempo. Para fazer isso, precisamos nos desligar de tudo aquilo que não seja realmente essencial, que seja imposto, que seja necessidade artificial. O objetivo primário é atender às necessidades básicas de alimentação e moradia. Em seguida, vêm as necessidades com vestuário, educação, cultura, saúde. Quanto ao resto, devemos nos perguntar: é realmente importante? Vale a pena “gastar” o meu tempo com isso? Ou representa, justamente, a alienação daquele tempo que nos é essencial para bem viver?