Considerações sobre a conjuntura política pós-eleições

Estas considerações foram apresentadas durante debate ocorrido no XVI Encontro Nacional da ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia), no dia 28/10/2014.
Em primeiro lugar, gostaria de considerar que, independentemente do resultado das últimas eleições presidenciais no Brasil, o país deu mostras, mais uma vez, de maturidade democrática. Mais uma vez porque, desde que a democracia foi reinstaurada, de maneira inicialmente incompleta, com a eleição indireta de Tancredo Neves e, após sua morte antes de tomar posse, a efetivação no cargo de seu vice, José Sarney, líder durante muito tempo da Arena, o partido governista durante a ditadura, passando pela eleição direta do primeiro presidente civil após o golpe – Fernando Collor de Mello – e seu impeachment, com a posse de seu vice, Itamar Franco, tudo isso se deu dentro da ordem legal e democrática. O país tem demonstrado, assim, nos últimos 30 anos, firme compromisso com a democracia.
Em suma, minha posição é que as últimas eleições, de outubro deste ano, demonstraram esse compromisso da nação, como um todo, com a manutenção das regras do jogo democrático. É verdade que houve exaltação, de parte a parte dos militantes ou simpatizantes dos dois principais partidos que chegaram ao segundo turno.
Este momento é de passar por cima das diferenças, numa espécie de “overlapping consensus” (“consenso por sobreposição”), na expressão de John Rawls. É hora de olhar propositivamente para o que deve ser feito.
Isto não significa que governo e oposição trabalharão juntos, de mãos dadas, como deu a entender Marina Silva em determinado momento da campanha, no primeiro turno. Significa que, cada um em seu papel, oposição e governo procurarão enfrentar os problemas que realmente existem: pequeno ou quase nulo crescimento econômico do país – o pior entre os BRICS -, a inflação, ainda pequena, mas preocupante, o déficit do balanço comercial, o superendividamento de parcela expressiva da população, leve aumento do desemprego, principalmente entre jovens, para citar apenas alguns pontos.
Por seu lado, a oposição deve focar nesses pontos, de maneira específica, clara, articulada, e cobrar o governo para que repense seu modelo econômico de modo a fazer face a esses problemas. E exigir a apuração das denúncias de corrupção, especialmente envolvendo a Petrobrás. Não se pode perder esse patrimônio: a Petrobrás, em 2013, era a companhia mais endividada do mundo, considerando seu faturamento. É preciso recuperá-la.
Por outro lado, o governo deve rever sua estratégia de crescimento, ainda que acoplada a seus propalados – e efetivos, também – objetivos sociais, a fim de gerar um “desenvolvimento sustentável”, não só do ponto de vista ambiental – grande ausente do discurso dos dois principais candidatos que chegaram ao segundo turno, mas central na plataforma da candidata derrotada Marina Silva -, como também social. É preciso atender à dupla necessidade de diminuição da pobreza – neste ponto, o país avançou bastante; a meta, agora, é combater a pobreza moderada – e um desenvolvimento que leve em conta a vida das futuras gerações, e não me refiro apenas à espécie humana, mas de todas as espécies com as quais convivemos.
Por fim, não se trata de propor panaceias, mas de se partir da realidade visando ampliar e consolidar conquistas, que foram muitas, aplicando o que John Rawls chamava de “realismo utópico”: trata-se de estender as condições do realisticamente possível.

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Anomia social

Anomia social

 

O Brasil vive hoje um estado de anomia social. O que significa isso? Significa que vivemos numa sociedade na qual não existem leis, ou elas existem e não são cumpridas. Isto se manifesta em todas as esferas da vida social, mas faz-se sentir especialmente num setor: o da segurança.

A sensação de insegurança que se tem nas grandes cidades, e também nas pequenas, é real. Estatísticas mostram que o número de latrocínios se multiplicou drasticamente no primeiro trimestre de 2014. No que se refere ao Estado de São Paulo, por exemplo, houve aumento de 33% em relação ao primeiro trimestre do ano passado (fonte: O Estado de São Paulo, 25/4/2014 http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,sp-registra-recorde-historico-de-roubos,1158590,0.htm).

Desconfio, porém, que o aumento dos roubos seguidos de morte – descontados, portanto, os roubos que não resultaram em mortos, mesmo que tenham sido realizados com armas, isto é, com violência – não resultam somente de fatores econômicos. Uma vez que o país tem tido crescimento, embora pequeno, e diminuiu radicalmente a porcentagem de pessoas em situação de pobreza absoluta – de 33% em 2000 a cerca de 4% atualmente –, é de se concluir que esse aumento se deve a outros fatores.

Minha tese, que pode soar moralista, é que o aumento da violência se deve a questões éticas ou, melhor dizendo, a uma questão de ethos. Há, evidentemente, uma crise de valores. O crescimento econômico não tem sido acompanhado de uma melhoria de setores básicos, como os de saúde, segurança e educação. Os protestos de junho de 2013 se relacionavam em grande parte a essas questões.

Isto talvez se deva, em parte, ao modelo econômico adotado, que tem privilegiado o aumento do consumo, gerando uma sensação de aumento da inclusão. No entanto, na medida em que não se investe adequadamente nos setores de infraestrutura, esse aumento da renda se revela ilusório. Reproduzimos, internamente, o erro de nossos antigos colonizadores portugueses, que retiraram o ouro do Brasil e o transferiram para outros países, em especial a Inglaterra, encontrando-se ao final falidos e sem nada de concreto. O que restou do outrora poderoso império ultramarino português?

Há poucos dias, houve o assassinato do coronel Paulo Malhães, militar aposentado que admitiu ter torturado e matado várias pessoas, durante a ditadura militar, no âmbito da “política de repressão” do Estado. Cerca de um mês depois de ter dado seu chocante depoimento na Câmara dos Deputados, foi encontrado morto em seu sítio, depois de uma invasão, cujos motivos se ignoravam. Supôs-se que houvesse motivações políticas. Teria um grupo de ex-guerrilheiros, ou parentes de vítimas, ou pessoas a seu mando, executado o coronel? Depois das primeiras investigações, no entanto, tudo leva a crer que se tratou mesmo de latrocínio, cometido pelo ex-caseiro e seus irmãos. Não está descartada a participação de membros da família do coronel. Não parece haver, portanto, motivos políticos. Trata-se de mais um caso a engrossar as estatísticas de latrocínios. (Cf. O Estado de São Paulo, 30/4/2014 http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,caseiro-de-coronel-confessa-participacao-em-crime,1160324,0.htm).

Quando disse tratar-se de uma questão de ethos, refiro-me a certos princípios ou valores básicos que parecem estar em falta em nossa sociedade. Por exemplo, a ideia de que matar, roubar, são coisas erradas, seja em qual nível for. Por um lado, não parece haver coerção suficiente para forçar as pessoas a seguirem as leis. Por outro, e talvez mais importante, as pessoas não parecem estar convencidas da necessidade de se cumprir as leis. E isto, a meu ver, é o mais grave. Se não houver essa convicção, polícia nenhuma do mundo será capaz de forçar as pessoas a seguirem as leis. É o velho problema que Rousseau chamava de problema da quadratura do círculo em política: “como dar leis mesmo a um povo de demônios?”.

Black Blocs, Copa e referendo

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(Foto Luiz Felipe Sahd)

A Copa está aí, é um fato. O dinheiro foi e ainda está sendo investido, agora não há mais como recuar. Fui contra a realização da Copa, mas agora é tarde para detê-la. No entanto, as manifestações de 2013, e os recentes atos dos Black Blocs me fazem repensar a questão a uma nova luz.

Em primeiro lugar, passou o momento para impedir a realização da Copa. Não será agora, com atos violentos, depredação, intimidação que se impedirá sua realização. Na verdade, essas manifestações não apresentam mais caráter democrático. Nem sequer representam a vontade da maioria da população. O que se vê são eventos isolados, com poucos manifestantes – comparados com os milhões das manifestações de junho de 2013 – e com apoio cada vez menor por parte da população.

No entanto, tanto as manifestações do ano passado quanto os eventos recentes podem levantar a questão de um mecanismo de consulta mais amplo, este sim verdadeiramente democrático. Em que medida o governo poderia ter prevenido ou diminuído a intensidade e o tamanho das manifestações caso tivesse submetido a decisão sobre a realização da Copa – e da Olimpíada – se tivesse efetuado um referendo a respeito? Que isto sirva de lição, e de advertência, aos atuais e aos futuros governantes: a população não aceita mais ficar à margem das decisões, ela quer participar, o mero voto a cada dois anos não é suficiente para dar vazão à sede de participação da população brasileira!

Quanto aos Black Blocs, estes perderam sua legitimidade. Na verdade, se quiserem mudar sua imagem, precisam investir numa campanha de relações públicas, sem falar em mudar efetivamente sua maneira de agir. Alguns deles parecem garotos mimados. Atacam a polícia, depredam patrimônio público e privado, apelam para a violência explícita, com explosivos, armas – brancas ou não – agressões, e quando há um revide da força policial, correm para os pais, para os defensores públicos, alegando violência policial. Alguém que reage à polícia, seja com arma branca ou não, deve estar preparado para uma reação, que nem sempre é proporcional, no calor da luta. Além do rapaz que foi baleado e está em estado crítico – no momento em que escrevo -, caso no qual deve ser apurado se a ação da polícia foi adequada, mesmo que o rapaz tenha reagido com um estilete, há o caso de um que foi espancado no Hotel Lindsor (ver http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,policia-chegou-batendo-em-todo-mundo-conta-estudante-vinicius-duarte,1123219,0.htm). Bom, além de ter atirado pedra contra PM, ele ainda parece ter agredido com um soco o sargento que tentava detê-lo. No entanto, a família pensa em processar o Estado. Como eu dizia, parece o garoto que provoca alguém maior e depois corre para o irmão mais velho ou para o pai para se defender.

Creio que essas ações revelam excesso, primeiro, dos Black Blocs, e em segundo lugar, da polícia, que parece despreparada para lidar com movimentos civis, dando a todos o mesmo tratamento. Como quer que seja, o foco deste artigo é que: 1) os manifestantes precisam repensar suas estratégias: a violência, a depredação, além de não serem democráticos, não levam a nada, não produzem resultados práticos; 2) os governantes precisam desenvolver mecanismos de consulta popular mais amplos, e mais ágeis – a Internet propicia isto – em casos que afetem o país todo, como é a decisão de sediar dois eventos caros num curto período de tempo, quando as necessidades do país são tantas. Consultada, a população pelo menos poderia dizer que concordou, ou não, com a realização desses eventos, o que esvaziaria essas manifestações, ou pelo menos as conduziria para outros alvos.

Tudo parece se tratar, então, de uma crise democrática. Um país que está crescendo, e amadurecendo, mas que ainda não aprendeu de fato a lidar democraticamente com seus desejos e aspirações.

Os tribalistas

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(Foto de Luiz Felipe Sahd, 23/06/2013)

Creio que para compreender melhor os movimentos que tomaram as ruas do Brasil desde o início de junho é necessário atentar também para sua face “estética”, aí entendidos seus gostos musicais, expressão corporal, vestimentas etc. Em particular, no caso da música, se observarmos algumas letras, não tão novas nem tão antigas, percebe-se um movimento de contestação já em andamento. Gostaria de tomar como exemplo duas delas: “Já sei namorar”, do CD Os tribalistas (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte) e “Minha alma”, de O Rappa. Começo pelo clip de “Já sei namorar”.

http://www.youtube.com/watch?v=smwj7ISnwXM

 

Nota-se um desejo de sair, trata-se de afirmar que já se chegou à idade adulta, mas que os padrões da antiga geração não satisfazem mais:

“Já sei namorar

Já sei beijar de língua
Agora, só me resta sonhar
Já sei onde ir
Já sei onde ficar
Agora, só me falta sair”

Nesse sentido, poderia ser tomado como o primeiro sinal de que algo não vai bem, mas essa transição é dita tranquilamente, com segurança. Que o comportamento passivo e tradicional não será mais aceito fica claro na sequência:

“Não tenho paciência
pra televisão
Eu não sou audiência
para a solidão”

É preciso ir às ruas, tomando o que é seu, a começar pelo próprio corpo. É uma geração que já incorporou a revolução sexual, e agora está em outra etapa, de viver confiantemente sua própria sexualidade, como parte de um conjunto. Essa afirmação de auto-determinação ganha contornos atuais, quando se recorre a imagens futebolísticas:

“Já sei namorar
Já sei chutar a bola
Agora, só me falta ganhar
Não tenho juiz
Se você quer a vida em jogo
Eu quero é ser feliz”

Fica claro, também, que a vida vai bem além de um jogo de futebol, seja na frente da televisão, seja em um campo de futebol ou mesmo em uma pelada na rua. Já não há espaço para “peladas”, as ruas foram tomadas por carros, violência e poluição. Trata-se de reconquistar esse espaço, trata-se de buscar a felicidade. Por fim, a utopia de um mundo mais justo, em que “ninguém seja de ninguém” e “todos de todos”, ecoa no estribilho:

“Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também.”

A outra música que quero analisar aqui é a de O Rappa, “Minha alma”. Esta tem um tom mais agressivo, à altura da realidade da periferia, e também apropriada a outro segmento, mais combativo, das mesmas manifestações. Não estou me referindo aos atos de vandalismo, mas ao enfrentamento com a polícia. A repressão, para esse setor, é cotidiana. O clip da música foi bastante difundido, e suas imagens complementam de maneira chocante o seu conteúdo de contestação social. Pode-se assistir ao vídeo no seguinte link:

http://www.youtube.com/watch?v=vF1Ad3hrdzY

Vejamos a letra:

“A minha alma tá armada
E apontada para a cara
Do sossego
Pois paz sem voz
Paz sem voz
Não é paz é medo”

Trata-se, ao mesmo tempo, de uma denúncia e de uma ameaça. A situação chegou ao limite, não é possível mais tolerar, passivamente, a violência recebida, todos os dias, dos traficantes, da polícia, a discriminação, a marginalização. É preciso gritar, é preciso soltar a voz, pois “Paz sem voz/ Não é paz é medo”. A paz não é um valor a qualquer custo, mesmo porque a violência nos escolhe, nos encontra:

“Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
Qual a paz que eu não quero
Conservar
Para tentar ser feliz”

Aqui, a felicidade buscada tem um preço, o preço da prisão, seja por trás ou na frente das grades. Estamos todos presos, presos a uma paz conseguida ao custo do conformismo, da cegueira à injustiça e à desigualdade.

“As grades do condomínio
São para trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que está nessa prisão”

Outra vez, a crítica à passividade, já presente na música anterior, faz-se ouvir:

“Me abrace e me dê um beijo
Faça um filho comigo
Mas não me deixe sentar
Na poltrona no dia de domingo, domingo”

Qualquer coisa é preferível do que ficar sentado “Na poltrona no dia de domingo”, assistindo aos programas de auditório, aos programas sensacionalistas ou amortecedores. A televisão quer incorporar tudo, reduzir todos a espectadores passivos, protestando, indignados, na frente do aparelho, “Procurando novas drogas/ De aluguel nesse vídeo”. Droga televisiva, ou droga nas ruas, ambos vias de escape de uma realidade que não pode ser suportada, que não pode ser encarada. Assim, é preferível encarar as ruas, e os cassetetes, escudos e balas de borracha (ou não) da polícia, a aceitar passivamente essa realidade massacrante:

“Coagido é pela paz
Que eu não quero
Seguir admitindo
É pela paz que eu não quero, seguir”

Não se trata, então, de “vandalismo”, mas de revolta social. É claro que não é o caso de todos. Há efetivamente pessoas mal intencionadas que se aproveitam da confusão para saquear, depredar, agredir, mas o impulso que leva às ruas é legítimo, é expressão de uma realidade que não pode mais ficar oculta, ou ser dissimulada, pela televisão. Os “meios de comunicação de massa” tornaram-se agora, principalmente com as redes sociais, mais democráticos, uma via de mão dupla. Não há mais somente espectadores passivos, mas cidadãos atuantes, inteligentes, e que querem fazer ouvir sua voz. Saibamos ouvi-la.

Luiz Paulo Rouanet

Barbárie ou civilização

Barbárie ou civilização?

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Já se disse (Lévi-Strauss) que o Brasil passou da barbárie à decadência, sem passar pela civilização. Dir-se-ia, à luz das recentes manifestações e atos de vandalismo, que o país se encontra na encruzilhada: ou retorna à barbárie, ou caminha para a civilização.

Desde o começo de junho, o país tem assistido a uma onda – e o nome é emblemático, para quem assistiu ao filme de mesmo nome – de protestos e manifestações, tendo por motivação inicial o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, mas estendendo-se rapidamente a outras cidades e incorporando outras reivindicações, algumas pontuais, outras mais vagas.

Creio que o momento culminante, e que serviu como catalizador para que o movimento se espalhasse de maneira viral por outras cidades, foi o protesto da quinta-feira, dia 13/06, que foi violentamente reprimido pela polícia de São Paulo. Mesmo pessoas que se posicionavam contra ele ficaram revoltadas com a reação, considerada desproporcional, da polícia, e aderiram aos protestos. O mesmo aconteceu no Rio, Brasília e hoje atinge quase todos os Estados e principais cidades brasileiras.

Se aceitarmos que, em nosso processo de constituição, não atingimos de fato o estágio da civilização – o que pode ser problemático, mas não irei discuti-lo aqui -, então temos a oportunidade, agora, de refundar o pacto político, reformando as instituições de modo a permitir que elas efetivamente sirvam à causa da população brasileira, sendo instrumentos de avanço social, promoção de igualdade e distribuição de renda, tornando efetivamente o Brasil um país mais justo.

A alternativa, caso se ceda, de um lado, às hordas da destruição, aos criminosos oportunistas que se aproveitam da situação de caos para promover depredações e roubos, e de outro, às massas reacionárias, amorfas que, antes indiferentes, agora aderem de modo cego e indiscriminado, lutando por propostas na maior parte das vezes vagas, a alternativa, digo, é a barbárie.

No primeiro caso, faz-se necessária uma profunda reforma – a menos que se pense numa revolução – do sistema político, incluindo os braços executivo, legislativo e judiciário. Essas instituições encontram-se inchadas, e a consequência é a paralisia. O saudoso pensador anarquista Maurício Tragtenberg dizia que as instituições surgem para servir a uma causa, mas acabam funcionando para sustentarem a si próprias. A sua estrutura cresce tanto que elas passam a operar tendo em vista a própria existência. Então, se isto for verdade, elas precisam ser periodicamente renovadas, ou recriadas.

Tivemos, nesse sentido, alguns momentos fundacionais. A começar, pela própria Independência, precedida pelo “dia do Fico”. Em seguida, a proclamação da República, embora, segundo alguns, este tenha sido mais um pacto de elites do que popular – a população teria assistido “abestalhada” a esses acontecimentos. A Revolução de 30, com a ascensão de Getúlio Vargas e o subsequente Estado Novo, pode ter sido outro desses momentos fundacionais, mais uma vez, porém, de cima para baixo. Considerando que o golpe de 64 atuou mais no sentido da barbárie do que da civilização, outro momento fundacional foi a Constituinte de 1988. O problema estrutural deste último momento é que os deputados, eleitos para elaborar e aprovar a constituição, em seguida transformaram a si próprios em corpo legislativo, o que gerou um vício de origem que pode estar por trás de muitas das dificuldades que hoje enfrentamos.

Então, para resumir, seria preciso refundar as principais instituições do país. Reduzir os seus quadros, a fim de tornar a máquina mais operacional, não significa aderir à tese do “Estado mínimo”. Um Estado com um corpo de funcionários mais reduzido não precisa, por isso, ter uma participação menor nos investimentos em infraestrutura no país: pelo contrário. O enxugamento da máquina pode propiciar um aumento de recursos para as finalidades sociais. A mesma redução, e modernização, teria que ser feita também no Legislativo e no Judiciário. Seria preciso repensar os mecanismos de representação e proporcionalidade, de modo a adaptá-los para o país atual, com suas novas exigências de potência “emergida”, com sua sede de informações e transformações. Em relação ao judiciário, é preciso também reformar suas estruturas, tornando-a mais ágil. É inaceitável que processos se estendam por décadas, extinguindo-se por prescrição ou morte dos réus.

Não se trata, portanto, de uma proposta “liberal”, em qualquer dos sentidos que se queira dar ao termo. Reformista ou revolucionária, a proposta, caso se queira manter o jargão dos anos 60 do século passado, o importante é que é preciso levar a sério as motivações que levaram as pessoas às ruas. Barbárie ou civilização? É este o dilema diante do qual nos encontramos. Ou “aproveitamos” o momento, como disse a Presidente Dilma Rousseff em pronunciamento em rede nacional (21/6), para acelerar as mudanças de que o país precisa, no sentido de reforçar ou criar a infraestrutura necessária nos campos da saúde e da educação, ou cedemos às forças da reação, que no caso, inconscientemente, se aliam às hordas da selvageria e do atraso. Parafraseando Mario de Andrade, poderíamos trocar as “saúvas” pela saúde: “A saúde e a educação, os males do Brasil são.”. A questão da segurança, que também nos preocupa no dia-a-dia – e muito – é decorrente da ausência dessas duas condições, especialmente da segunda.

Luiz Paulo Rouanet

A nova intolerância

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O século XX foi um século que assistiu a algumas das mudanças mais drásticas da história da humanidade, e de maneira mais rápida. Para dizê-lo brevemente, foi um século que experimentou duas guerras mundiais, o desenvolvimento de tecnologias radicalmente novas – a energia nuclear, quer para fins bélicos, quer para fins pacíficos –, o aperfeiçoamento de tecnologias de comunicação à distância (rádio, telex, televisão e Internet), o surgimento de formas de governo inéditas – em especial, o totalitarismo, quer em suas versões comunistas, quer em suas versões nazifascistas etc. Qualquer tentativa de dar conta desse século tão extremo – não por acaso, Hobsbawm, em sua tentativa de compreendê-lo, o apelidou de “Era dos extremos” – é parcial.

A perspectiva que adoto aqui é a de que o século XX foi o novo século da intolerância, só que, desta vez, não mais uma intolerância de caráter religioso, mas uma intolerância de cunho racial e ideológico. Como disse ainda Hobsbawm:

Esse é um dos preços que se paga por viver num século de guerras religiosas, que têm na intolerância sua principal característica. Mesmo os que propalavam o pluralismo de suas não-ideologias acreditaram que o mundo não era grande o bastante para uma coexistência permanente com religiões seculares rivais. Confrontos religiosos ou ideológicos como os que povoaram este século erguem barricadas no caminho do historiador. A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. (Hobsbawm, 1995, pp. 14-15).

Por que esta introdução? Porque tratarei aqui de uma dessas formas de intolerância, a ideológica, que infelizmente continua a assombrar o século XXI. Isto se manifestou por ocasião da recente visita ao Brasil da blogueira cubana Yoani Sánchez. Depois de mais de uma década impedida de deixar seu país, quando finalmente o fez, e escolheu por primeiro destino nosso país, a escritora foi perseguida, atacada, impedida de realizar o lançamento de seu livro em mais de um local. Em suma, foi vítima de perseguição política.

O livro de Yoani Sánchez, De Cuba, com carinho (São Paulo: Contexto, 2009), a cujo lançamento somente agora a autora pôde comparecer, traz uma seleção de postagens de seu blog Generación Y. Este é um dos mais acessados do mundo e rendeu a Yoani prêmios, que ela também não pôde receber. Em janeiro de 2009, atingiu a marca de 14 milhões de acessos! Em seu país, as pessoas não podem lê-la diretamente, na Internet, já que esta tem seu acesso controlado.

Transparece, por trás da leveza de seus textos, a amargura de quem teve sistematicamente, desde pequena, seus direitos mais básicos negados. Ela se considera “covarde”: “meu blog é um exercício de covardia: dizer na rede tudo aquilo que não me atrevo a expressar na vida real” (Sánchez, 2009, p. 3). Covarde? Formada em Letras, defendeu a tese: “Palavras sob pressão: um estudo da literatura da ditadura na América Latina”. Covardia que lhe custou a carreira acadêmica. Por algum motivo inexplicável, a banca viu alguma analogia entre suas análises e aquilo que ocorria na ilha.

Não é a CIA quem a protege, mas seus leitores: “Toda pessoa que lê meus escritos me protege, e só a proteção desses leitores me permitiu chegar até aqui ( “Anatomia de uma ‘Y’”, p. 4). Para postar, a blogueira tem que se virar para conseguir burlar a vigilância estatal:

(…) nossas incursões no terreno da Internet estão marcadas pela ilegalidade. As transgressões acontecem quando alguém compra uma senha no mercado negro para acessar a rede, ou usa uma conexão oficial para entrar em páginas bloqueadas. Eu pertenço a este último grupelho de criminosos, pois há dez anos me dedico a ganhar a vida como professora de espanhol e guia turística, sem ter licença para isso (p. 8).

Apesar disso, o “bacilo da opinião livre” se espalha:

Criamos cópias de nossos blogs para leitores que nunca poderiam conectar-se à teia de aranha mundial, Em shows, exposições, praças públicas, distribuímos nossos textos, sabendo que essa pequena difusão tem como contrapartida um desejo oficial de nos silenciar. Cada cópia entregue é como a inoculação de um vírus de consequências imprevisíveis: o bacilo da opinião livre, a infecção que contraem uns ao ver outros se expressando sem máscaras. Uma sociedade cheia de diques e controles é especialmente suscetível a essa gripe blogueira, sobretudo se a vacina contra ela se baseia nos desgastados métodos de outrora: a difamação, as acusações de que somos fabricados pela CIA e a tentativa de fazer parecer que não somos do “povo”.

Às vezes, o cansaço diante da repressão, o desespero em ver, em seu tempo de vida, ou mesmo para a geração de seu filho, as mudanças desejadas, fazem com que ela quase lance a toalha. Em um de seus melhores textos, “Miopia e astigmatismo”, diz: “Atiro as lentes de meu otimismo pela minha sacada, talvez haja alguém lá embaixo que ainda prefira usá-las, que ainda queira distorcer a realidade com elas” (p. 62). Esse ceticismo, ou melhor, esse realismo, também se manifesta em relação às supostas mudanças do regime: “Trocar os instrumentos não significa muito se a sinfonia interpretada e o velho maestro da orquestra continuam sendo os mesmos” (p. 66).

Criticar o regime adotado em Cuba não significa, é preciso deixar isto claro, elogiar o sistema que existe em outras partes. As separações são impostas pelos regimes, de um lado e de outro, de cima a baixo do planeta. Cabe a nós, cidadãos do mundo, romper essas barreiras, através de nossos textos, nossas manifestações em praças públicas, em Wall Street – aliás, por onde andam esses manifestantes: presos ou simplesmente esquecidos pela mídia? –, em movimentos de “indignados”, em primaveras, árabes ou não, enfim, da forma que pudermos. Em caso contrário, continuaremos a perpetuar a injustiça e a cultivar a intolerância. Encerro por aqui, desejando aos intolerantes de plantão ou de patrulha que por acaso tiverem chegado até este ponto que pelo menos reflitam a respeito: não é hora de acabar com a intolerância, de conferir à liberdade seu sentido pleno?

Leituras sugeridas:

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos – O breve século XX (1914-1991). Trad. Marcos Santarrita. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

SÁNCHEZ, Yoani. De Cuba, com carinho. Trad. Benivaldo Araújo e Carlos Donato Petrolini Jr. São Paulo: Contexto, 2009 (em versão impressa e virtual).

O papel da memória

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Hoje gostaria de falar sobre a memória, e o seu papel na vida da sociedade. É ela que garante, ou deveria garantir, a continuidade entre as gerações, a transmissão de valores essenciais para a preservação daquilo de bom que a civilização é capaz de proporcionar, bem como os caminhos a evitar. Certa vez, um ancião me disse: “Se encontrar um obstáculo, não o enfrente! Volte para trás, pule, desvie-se dele, mas não o enfrente.”. O que, muitas vezes, pode soar como máximas de conformismo são, na verdade, máximas de prudência, ditadas pela experiência. O mesmo se aplica a uma frase que ouvi de um médico idoso, há muito tempo: “Você precisa aprender a engolir sapos.”. A frase veio solta, ao final de uma consulta, sem qualquer relação aparente com o motivo da consulta.

Pois bem. É assim que vejo o papel das antigas gerações. Elas têm, elas precisam – isto lhes é vital, também, pois confere sentido às suas próprias existências – transmitir aquilo que aprenderam, a fim de aplainar, a fim de tornar o mundo um pouquinho melhor, se possível. Para isso, precisam encontrar ouvidos atentos ao que têm a dizer, e isto nem sempre ocorre.

Existem certas experiências, ligadas a certos grupos, ou a certos momentos históricos, que não encontram outra maneira de serem transmitidas a não ser pelos depoimentos, orais ou escritos, daqueles que as vivenciaram. Existem certas coisas, certos fatos que só quem viveu determinadas situações está em condições de transmitir. O testemunho, pois é disso que se trata, exerce muitas vezes um impacto bem superior à mera descrição “objetiva” de acontecimentos históricos, os quais, por si sós, seriam literalmente inacreditáveis. Casos extremos, como o Shoá (Holocausto), o demonstram fartamente – que se recorde apenas, para ficar em dois exemplos, os livros de Primo Levi, em especial É isto um homem?, e os Diários de Annie Frank. Mas podemos pensar em outras situações, como a ditadura de Pinochet, no Chile. Eu tinha plena consciência, e conhecimento, do duro caráter da repressão na América Latina, e em particular no Chile e na Argentina, durante os duros anos 70 do século passado. Mas foi o depoimento de um guia turístico, no Chile, que me passou os elementos que tornavam mais concreta, mais sensível, esse conhecimento teórico. Disse-me ele:

Ouvia-se todas as noites, quando havia toque de recolher, guinchos de pneus sendo freados, e logo em seguida correria, rajadas de metralhadora, e já sabíamos o que havia acontecido… Nessa época, eu era subtenente da Aeronáutica, e servia no aeroporto. Todas as noites chegavam caminhões com 40 ou 50 pessoas, que eram embarcadas em aviões Hércules que já esperavam na pista, com rampa abaixada e motores ligados. O grupo, em geral liderado por um sargento e composto de recrutas, embarcava os prisioneiros no avião. Lá, eles eram amarrados a cadeiras de rodas, degolados e em seguida seus corpos eram atirados ao mar. Os aviões retornavam vazios. Certa noite, o sargento não foi, e me ligaram dizendo para assumir os procedimentos, pois eu já os conhecia. Eu me recusei. Fui submetido a Corte Marcial, degradado, minha espada foi quebrada na frente de toda a tropa e fui expulso da corporação. Passei anos, depois disso, olhando em baixo da cama à procura de bombas, temendo por minha vida, mas não me arrependo do que fiz. (Depoimento de E., em Santiago, Chile, 2012).

De forma menos dramática, penso que cabe a todos nós a tarefa de transmitir às novas gerações experiências que tivemos, e que em alguns casos, como disse, constituem a única forma de acesso a determinada situação. Por exemplo, minha formação em Filosofia, na USP, contém histórias que não são exclusivamente minhas, mas que fazem parte, uma parte pequena, certamente, da história do Departamento. Histórias como as narradas, por exemplo, por Paulo Eduardo Arantes (O departamento francês de ultramar) ou por Scarlett Marton (A irrecusável busca de sentido). Trata-se de experiência no sentido pleno (Erfahrung), empregada por Walter Benjamin, contraposto à mera vivência (Erlebnis).

As antigas gerações têm o dever moral de educar as novas gerações, e essa educação passa, também, pela transmissão de sua experiência de vida. A experiência integra o conhecimento. Não existe conhecimento meramente “teórico”, pois se entenderia, então, teórico em um sentido demasiado estreito. A teoria pressupõe a prática, como origem e como resultado. Nesse sentido, cabe citar Aristóteles: “(…) se alguém possui, sem experiência, o conhecimento teórico, e conhece o universal, mas ignora seu conteúdo particular, errará muitas vezes na cura, pois é o singular que pode ser curado” (Met. A, 20-23).

Assim, as antigas gerações, entre as quais já me incluo, na medida em que estou na “metade do caminho”, não podem se omitir diante da tarefa de transmitir esses valores às novas gerações, de transmitir, sim, valores morais, valores profundamente vividos, “seus”. “Torna-te o que és!”, dizia Nietzsche. Para isso, talvez seja preciso, pelo menos uma vez na vida, jogar fora todos os valores, a fim de recolher aquilo que realmente merece, e torná-los “teus” valores, valores que, por isso mesmo, devem ser transmitidos.

Sugestões de leituras:

ARIÈS, Philippe. Um historiador diletante. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

ARANTES, Paulo. Um departamento francês de ultramar. São Paulo: paz e Terra, 1994.

FAUSTO, Boris. Histórias de um historiador de domingo. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

FRANK, Anne. Diário de Anne Frank.  18 a. ed. Trad. Alves Calado. Rio de Janeiro, Record, 2003.

LEVI, Primo. É isto um homem? São Paulo: Rocco, s/d.

MARTON, Scarlett. A irrecusável busca de sentido. Cotia – SP/Ijuí – RS: Ateliê Editorial/UNIJUÍ, 2004.

PIERRON, Jean-Philippe. Transmissão – Uma filosofia do testemunho. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Loyola, 2010.